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Mensagens

Embrenhada na noite

Ainda há quem desconheça o Amor, pelo menos assim oiço dizer. E eu também se calhar. Será que alguém conhece verdadeiramente o amor?  Se calhar também não sei o que é amar.  Será mesmo preciso sabê-lo? Talvez baste apenas sentir esse território para sempre desconhecido e misterioso.  Entregarmo-nos verdadeiramente a esse lugar, a essa manifestação, oferecê-lo ao outro, pegar no coração que trago nas mãos, e como alguém me disse um dia, que também trazia o coração nas mãos, e que vagueava pelo mundo, tão somente para o depositar nas mãos de um outro. Há quem não saiba se ama, por não ter a certeza, há quem apenas se encontre apaixonado. Viver apaixonado pela vida, pelos outros, por aquilo que se faz, por tantos detalhes. Qual a diferença, qual o caminho para cada um deles? Entre os dois, qual o caminho? Texto: Clara  Sofia Poem of the Butterflies  The people of this world are like the three butterflies in front of a candle's flame. The first one...

E Liszt que continua a tocar no mp3

Aquele rapaz que parece chocalhar a cabeça, enquanto escuta a música no mp3, o africano à sua frente também escuta música, mas adormeceu num sono profundo de cabeça para cima. Ela também escuta no mp3, a Valsa Lenta de Liszt. A  outra rapariga no banco do compartimento de trás deixou cair o brinco da orelha, em cima do seu casaco, apoiado em cima das pernas, tem umas unhas de gel verde brilhante.  Toda ela é brilhante aliás,  o cabelo preto esticado, o colar brilhante pousado no peito, as unhas verdes,  o brinco no nariz, a camisa de renda preta acetinada, os anéis de pedras brilhantes,  pedras falsas brilhantes, e a senhora ao seu lado que folheia o jornal. E Liszt que continua a tocar nos seus ouvidos. Ela que escuta a Valsa Lenta, pensa em como gostaria de fazer alguma coisa de bem na vida, gostaria muito, muito de saber de facto de fazer alguma coisa bem na vida.  E põe-se a imaginar ...

Esforço anti-onírico

O esforço que ela faz para não sonhar. Para não se envolver, para não criar expectativas, para não escapar da realidade. Ancorada pelos pés à terra para não ir sonhando por aí. Mas não é fácil, o seu corpo transforma-se, o seu corpo volátil, etéreo, camaleónico, metamórfico. Os sonhos, as divagações sempre foram o seu alimento. Ela quer acreditar que será melhor para ela domesticar essa água selvagem, inquieta, esse bicho disperso dentro de si, quase que dependente, ou senão dependente em sair a toda a hora da realidade e a conjeturar realidades pouco palpáveis, explicações demasiado fantasiosas acerca de tudo. Texto: Clara  Sofia

Xadrez das sombras

Terra mexida de um corpo emotivo,  rio de gotas salgadas que correm pela face sem cessar, voam os pássaros medrosos, fogem as fronteiras dos risos, cava fundo uma dor antiga e perdida na dimensão interna do ser. As bússolas vagueiam, saltitam desorientadas por  toda a parte, escapam. As sombras avançam como peões de xadrez, apoderam-se de um cisne indefeso, que não sabe como sair dali, e aguarda que tudo passe. Só o tempo o dirá, e não adianta exigir que ele avance, pois o tempo é mestre de si. Texto: Clara  Sofia

pontes tortas

Ficámos a olhar o oceano de frente, as emoções bailavam histéricas. Pensava em como era fácil entender o significado das palavras, quando se encontram sozinhas, mas o difícil era entender quem as pronuncia, e as transporta, ou decide apenas ser transportado por estas. É como tentar chegar à raiz das metáforas. Que quererão dizer? Que revelam? É como várias pessoas cozinharem o mesmo prato de comida, com os mesmos ingredientes, as mesmas quantidades, e mesmo assim o prato sairá diferente, dependendo de quem o cozinhou.  Queria estar contigo, ficar mais tempo, prolongar-te a presença, mas não chegavas à raiz das minhas metáforas, nem eu às tuas. Ou pelo menos era o que me dizias, que não te entendia.  Duas crianças a olharem o pôr do sol, enquanto ocorriam batalhas dentro delas, enquanto a impossibilidade as separava cada vez mais, o pôr do sol descia, caía dentro do horizonte. Não vás já sol, deixa-me imaginar que ele está aqui comigo a ver-te também. Queria pensar que a...

Porta de fogo

Quem és tu, ó guardião, mensageiro dos deuses, deus dos cervos, força de Marte, que chegas de repente, arrombando todas as portas, entras sem avisares que chegas? Abri um pouco mais a porta entreaberta para ver quem era, e assim que a abri, o efeito foi de desarrumação. Torno a arrumar tudo rapidamente vezes sem conta, e vezes sem conta tudo se desarruma. Talvez tenha de ficar tudo desarrumado por uns tempos, para poder novamente arrumar, mas de uma nova forma. Não estava à espera que isto acontecesse, nem esperava que fosse este o efeito. Apareceste e desapareceste, numa pequena viagem mágica e passageira, mas assim que poisaste na minha terra, o lugar abriu-se e pertenceu-te, talvez te tenha sempre pertencido, tem a tua forma. O eco daquele lugar, confessou-me, sussurrou durante a noite nos sonhos, que aquele lugar também é a tua terra. Agora fico à espera que voltes. Só assim se poderá completar o movimento. Texto: Clara Sofia
Quantas vezes ela desejou que ele lhe cantasse uma canção, como se fosse uma canção de embalar ou uma oração, e depois adormecer nos seus braços, naquela cidade caótica que lhe bicava na mesma ferida todos os dias, pudesse assim encontrar um sentido para ali estar, ter uma visão e vislumbrar através do nevoeiro uma gota de esperança. "Ti proteggerò dalle paure delle ipocondrie, dai turbamenti che da oggi incontrerai per la tua via. Dalle ingiustizie e dagli inganni del tuo tempo, dai fallimenti che per tua natura normalmente attirerai. Ti solleverò dai dolori e dai tuoi sbalzi d'umore, dalle ossessioni delle tue manie. Supererò le correnti gravitazionali, lo spazio e la luce per non farti invecchiare. E guarirai da tutte le malattie, perché sei un essere speciale, ed io, avrò cura di te. Vagavo per i campi del Tennessee (come vi ero arrivato, chissà). Non hai fiori bianchi per me? Più veloci di aquile i miei sogni attraversano il mare. Ti porterò soprattutt...