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Mensagens

Coisas que me tocam

Dias de muita água, água que escorre pelas ruas da minha cara, pelas ruas do meu corpo, deixo escorrer, não construo barragens. Por vezes nem entendo de onde vem, são momentos subtis, quase imperceptíveis, coisas que me tocam, a rapariga que pede na rua, que ama tanto o seu cão e que naquele dia estava mais triste que nos outros dias, alguém que deixa cair o manto e que não se apercebe de estar descoberto, um olhar revelado, uma frase escapada, um gesto frágil que escorrega cá para fora. E a água corre dos meus olhos.

Momentos

Tanta coisa para dizer, para falar, para partilhar e fico sentada a olhar o silêncio. Texto: Clara Marchana Imagem: Uma Vida em Segredo , filme de 2002 com realização de Suzana Amaral, baseado na obra de Autran Dourado, fotografia de Lauro Escorel, nesta imagem a actriz Sabrina Greve que interpreta o personagem de Biela .

"Pitanga"

" O amor nasce como raízes com o ardor intenso do sol: os frutos odores colhidos no tempo floresce em janeiro, amadurece em junho, substância nutritiva força carnosa, avermelhada. O amor nasce em nossa boca na língua, entre a saliva nos distrai dos nossos dramas olhos vibrantes se derramam água de coco, pitanga no monte e nas areias o verde o amor nasce amplamente como raízes, grãos de semente caem ao solo, viscoso, suculento no mês de dezembro, verde carregado e chuvas e chuvas e verdes e depois vermelhos maduros e grãos novos duros, e depois secas sementes. O amor nasce como raízes." Marcia Teophilo " Amazonia respiro del mondo "

Tarquinia

Tarquinia, terra etrusca, lugar encantado. À medida que caminhava pela cidade, pela noite dentro, pelas suas ruas antigas, mais se revelava, sons nocturnos de insectos, o cheiro a fogueira, lareiras, e algumas árvores que generosamente ofereciam o seu perfume, enquanto os gatos perto da igreja de Santa Maria di Castella, guardiães daquele canto sagrado, tomavam banho de céu estrelado. Perfumes e sensações que me devolviam identidade, raízes, ancestralidade, harmonia e serenidade, apagando qualquer instante de dúvida que vagueasse por ali perdido, sem saber por onde andar. Ali, naquele lugar não havia tempo, mas apenas ser. Texto: Clara Marchana

Tempo sem som

Sem conseguir dizer nada. Não consegue exprimir-se. Assustou-se porque no tempo em que falava espontaneamente, não foi compreendida, e foi magoada. Criaram-se mal-entendidos num arco do tempo. Tenta exprimir-se, mas não lhe saem as palavras. Criaram-se rupturas que ainda não cicatrizaram. E depois existem juízes à espreita, à espera de criticar, de julgar, ansiosos por colarem no outro um previsível rótulo de culpado ou inadaptado. Texto: Clara Marchana

Pensamento em risco

Pensamentos rasgados, riscados, pensamentos que se escondem com receio de serem magoados, porque não se assumem, não se mostram. Pensamentos escorregadios, em risco de queda. Visto o meu casaco preto comprido na cidade, e começo a voar, mas ninguém me vê, ninguém acredita. Pego em dois transeuntes e levo-os comigo, digo-lhes para acreditarem, que podem também fazê-lo, apenas é preciso acreditar. Eles olham-me, não sorriem, incrédulos. Continuo a alimentar a chama da crença enquanto passeio pela cidade enquanto passam por mim pessoas que correm seguras aos seus destinos. Continuo a dizer baixinho para mim, eu acredito, eu acredito, eu acredito, para não deixar morrer a esperança e a vontade. Texto: Clara Marchana

Como será voltar?

Como será voltar? Voltar a casa é partir Deixar-me levar Seguir sem rumo Sem saber quando tornar. Voltar a casa é saber esperar, depois correr, e não saber quando regressar Sentir a saudade que aperta, como se tivéssemos deixado a pátria no fundo do mar. Voltarei um dia aos braços da minha terra? Terra inalcançável de outrora, mas que agora, agora sim quero chegar. Como será voltar? Texto: Clara Marchana Imagem: Filme The Wizzard of Oz (1939), realizado por Victor Fleming