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Mensagens

A mostrar mensagens de 2014

Passos orvalhados

O fogo. O céu azul limpo. O sol em esplendor num tempo frio e húmido. Terra verde brilhante magicamente orvalhada esta manhã enquanto caminhava para passear a Lucy. Tudo à volta em silêncio, passos no orvalho da erva, pássaros cruzavam linhas no ar, rebentavam energia nas suas asas e assobios. Segredos nas asas deles, segredos da vida secreta que te mima e abraça, quando ao redor dela te encontras em silêncio ou a falar baixinho, como uma criança pura no fulgor do encanto inicial. Texto: Clara  Sofia

Confissões inesperadas de rua

Hoje uma senhora baixinha, escondida, silenciosa, anciã, desfez o seu rosto em lágrimas perto de mim, sem se conseguir conter, ao acarinhar a minha cadela que estava à porta de sua casa. Recordou-se do seu cão que tinha partido há duas semanas, confessou-me que lhe fazia muita falta, sente-se só e ele era a sua companhia. Meteu a chave no portão de sua casa, e entrou silenciosa e tímida. Escondida e prostrada na sua emoção. Texto: Clara  Sofia

Rendermo-nos à fragilidade

Rendermo-nos à fragilidade é arrancar com força, aquilo que mais nos agarra. Está-me a custar a passar. Nunca pensei que doesse tanto. Torna-se uma dor quase física, entre a garganta e o esterno até ao diafragma. Latejante no plexo solar. Aproximar-me dela, foi saber um pouco mais de mim, aproximar-me sem medo da morte, os braços dela, também é uma mulher, também é a brincar. E assim fui andando a saber, ao sabor do desconhecido, saber no escuro. Queria ir, ver mais, sem sons, sem ter de querer, sem ter de ser alguém, algo. Queria ver, sentir, caminhar na linha, tocar os braços, abraços, o espelho de mim. O espelho de mim no outro. O espelho que cai e parte, mas não doi quando magoa, porque é querido, saber não querer ir mais além do que aquele lugar. Não tem de ser assim. Pode assim descansar em paz, no lugar da alma, nos braços dela, amar o desconhecido, lugar limpo, vazio sem sons e significados, limpo de palavras, de agregados, de coisas, de obscuro, de livros, de carne, ...

Alentejo Plim Plim

Estou assim aconchegada, embatida num ser que faz livres piruetas e não tem realidade, tem todas as realidades ao mesmo tempo, criações, criações de mundos e love stories. Beijos desmedidos. Infância, Alentejo do sonho meu, montes, cheiros e flores campestres, risos e insectos, magia do imaginário, o avô da bicicleta a lavar os animais, a fonte da água pura, bacias e tanques, ameixas e dióspiros. Livre, livre, livre de sonhar, a piscina do tanque onde aprendi a nadar, histórias contadas à meia-noite à beira das portas de casa. Resgatados os instrumentos visionários de corridas na erva com os galos atrás de mim. Sopro de mim para o universo inteiro, naves espaciais em forma de cavacas doces e brancas, leves gotas de orvalho, o frio do amanhecer, em que descubro qualquer coisa que me abala na necessidade de sentir a rebeldia de viver em laços de coisas assim mais nobres, mais beijadas, mais conscientes, mais discretas, seguras em sentidos multi-laterais. Nobre aquele que faz ...

Drummond

"Não deixe o amor passar" Quando encontrar alguém e esse alguém fizer seu coração parar de funcionar por alguns segundos, preste atenção: pode ser a pessoa mais importante da sua vida.  Se os olhares se cruzarem e, neste momento, houver o mesmo brilho intenso entre eles, fique alerta: pode ser a pessoa que você está esperando desde o dia em que nasceu.  Se o toque dos lábios for intenso, se o beijo for apaixonante, e os olhos se encherem d’água neste momento, perceba: existe algo mágico entre vocês.  Se o primeiro e o último pensamento do seu dia for essa pessoa, se a vontade de ficar juntos chegar a apertar o coração, agradeça: Deus te mandou um presente: O Amor.  Por isso, preste atenção nos sinais - não deixe que as loucuras do dia-a-dia o deixem cego para a melhor coisa da vida: O Amor. Carlos Drummond de Andrade

História evaporada

Evaporou-se. A sensação que as coisas se evaporam, rapidamente como álcool etílico despejado pelo chão. Depois também é difícil lidar com os factos. Aquele casal de velhotes no café. Ele lê o jornal, ela faz o sudoku fervorosamente com lápis, borracha e caneta, sem tirar os olhos uma única vez da folha. Bebi o meu café e pensei no que tinha sonhado, mas não me lembrava. Na televisão, a imagem piscava continuamente, por avaria, sem arranjo, de televisor antigo, transmite um programa de natureza selvagem, algures numa ilha e sua floresta tropical, de insectos, cobras e lagartos. Enquanto escrevo no diário, e revejo o que tinha escrito em dias anteriores, observo o que se passa à volta, sinto-me ao mesmo tempo num estado meio hipnótico, com um olhar meio vago, meio perdido, naquele ambiente de café que parou no tempo, algures nos anos oitenta. Gosto de lugares assim que não acompanham os tempos de hoje, não correm atrás das modas, não correm atrás de nada, ou então correm apenas at...

Embrenhada na noite

Ainda há quem desconheça o Amor, pelo menos assim oiço dizer. E eu também se calhar. Será que alguém conhece verdadeiramente o amor?  Se calhar também não sei o que é amar.  Será mesmo preciso sabê-lo? Talvez baste apenas sentir esse território para sempre desconhecido e misterioso.  Entregarmo-nos verdadeiramente a esse lugar, a essa manifestação, oferecê-lo ao outro, pegar no coração que trago nas mãos, e como alguém me disse um dia, que também trazia o coração nas mãos, e que vagueava pelo mundo, tão somente para o depositar nas mãos de um outro. Há quem não saiba se ama, por não ter a certeza, há quem apenas se encontre apaixonado. Viver apaixonado pela vida, pelos outros, por aquilo que se faz, por tantos detalhes. Qual a diferença, qual o caminho para cada um deles? Entre os dois, qual o caminho? Texto: Clara  Sofia Poem of the Butterflies  The people of this world are like the three butterflies in front of a candle's flame. The first one...

E Liszt que continua a tocar no mp3

Aquele rapaz que parece chocalhar a cabeça, enquanto escuta a música no mp3, o africano à sua frente também escuta música, mas adormeceu num sono profundo de cabeça para cima. Ela também escuta no mp3, a Valsa Lenta de Liszt. A  outra rapariga no banco do compartimento de trás deixou cair o brinco da orelha, em cima do seu casaco, apoiado em cima das pernas, tem umas unhas de gel verde brilhante.  Toda ela é brilhante aliás,  o cabelo preto esticado, o colar brilhante pousado no peito, as unhas verdes,  o brinco no nariz, a camisa de renda preta acetinada, os anéis de pedras brilhantes,  pedras falsas brilhantes, e a senhora ao seu lado que folheia o jornal. E Liszt que continua a tocar nos seus ouvidos. Ela que escuta a Valsa Lenta, pensa em como gostaria de fazer alguma coisa de bem na vida, gostaria muito, muito de saber de facto de fazer alguma coisa bem na vida.  E põe-se a imaginar ...