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Estimulos e fé

Necessitamos cultivá-los, um e outro, estímulos e fé. Fazer viagens interiores de estímulos, procurar os estímulos, os milagres subtis, as imagens, os símbolos, as canções, para que possamos ter visão, visões, ver além, para poder encontrar sempre aceso o fogo da fé. O fogo da fé precisa de alimento para que a chama nos mantenha alinhados aos acontecimentos diários, ao quotidiano rotineiro. Deixar adormecer o fogo da fé, é deixar cair por terra a nossa bússola. Texto: Clara Sofia Imagem: "Descascando Cebolas", Lilly Martin Spencer (1822-1902)

Frio

Não deixa de me encantar a natureza, os pássaros, os insectos, os animais, o céu, as nuvens, os astros, a bruma, a chuva, o vento, o cheiro a terra molhada, o cântico dos pássaros, o dia e a noite, o amanhecer, o entardecer, o anoitecer, não me deixam de encantar os ciclos naturais, a formação dos riachos, as poças de água, os rios e o mar. As montanhas, os montes, os vales e as planícies, não me deixam de encantar. Não me deixa de encantar o ar orvalhado, as plantas verdíssimas que crescem rasteiras ao solo cobertas pela chuva, o cheiro das flores, os sons que escutamos quando estamos em silencio, não me deixa de encantar a contemplação, não me deixa de encantar o dar, as cores e os beijos não me deixam de encantar. Texto: Clara Sofia

Dióspiro

Dia chuvoso, chuva leve, que suavemente nos banha devagar, sem que nos demos conta. O Outono entrou sorrateiro, doce, carinhoso. Dióspiros, romãs, castanhas, folhas secas num chão de cores quentes, árvores que agora se despem, que apelam a um tempo intimo, que nos abraçam cada passo, cada silencio, cada pensamento. Tempo que pede silêncio, recolhimento, o movimento faz-se agora para dentro. Texto: Clara Sofia

Foi a lua nocturna

E assim levou o vento desta noite, o amor. Levou também quase tudo. Levou tudo o que tinha para levar, numa lua cheia ventosa. Talvez nem tenha sido o vento a levar o amor, nem a lua cheia, mas o desgaste de tanta fita adesiva, de tanto remendo na mesma zona partida, uma e outra vez, até se tornar em vezes sem conta. Uma zona partida depois fica ferida, frágil, sensível e reclama ser sarada. Esta lua cheia, já foi há um pouco, mas isto que conto não, de facto a lua cheia não levou ontem o amor, mas a noite sim, levou muita coisa. Talvez tenha sido apenas uma lua nocturna. Texto: Clara Sofia

Nublada

Noite nublada. Bruma caminhante por entre as árvores. Sussurros de aves. Ela gostaria de saber falar como elas. Não poderíamos falar todos como pássaros? Nao poderíamos ao menos de vez em quando, aproximarmo-nos para os escutar? Darmo-nos esse tempo? Serenarmos nessa condição a nossa condição, sem ambição, e de apenas estar presente. Texto: Clara Sofia

Passos orvalhados

O fogo. O céu azul limpo. O sol em esplendor num tempo frio e húmido. Terra verde brilhante magicamente orvalhada esta manhã enquanto caminhava para passear a Lucy. Tudo à volta em silêncio, passos no orvalho da erva, pássaros cruzavam linhas no ar, rebentavam energia nas suas asas e assobios. Segredos nas asas deles, segredos da vida secreta que te mima e abraça, quando ao redor dela te encontras em silêncio ou a falar baixinho, como uma criança pura no fulgor do encanto inicial. Texto: Clara  Sofia

Confissões inesperadas de rua

Hoje uma senhora baixinha, escondida, silenciosa, anciã, desfez o seu rosto em lágrimas perto de mim, sem se conseguir conter, ao acarinhar a minha cadela que estava à porta de sua casa. Recordou-se do seu cão que tinha partido há duas semanas, confessou-me que lhe fazia muita falta, sente-se só e ele era a sua companhia. Meteu a chave no portão de sua casa, e entrou silenciosa e tímida. Escondida e prostrada na sua emoção. Texto: Clara  Sofia