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Mensagens

Quantas vezes ela desejou que ele lhe cantasse uma canção, como se fosse uma canção de embalar ou uma oração, e depois adormecer nos seus braços, naquela cidade caótica que lhe bicava na mesma ferida todos os dias, pudesse assim encontrar um sentido para ali estar, ter uma visão e vislumbrar através do nevoeiro uma gota de esperança. "Ti proteggerò dalle paure delle ipocondrie, dai turbamenti che da oggi incontrerai per la tua via. Dalle ingiustizie e dagli inganni del tuo tempo, dai fallimenti che per tua natura normalmente attirerai. Ti solleverò dai dolori e dai tuoi sbalzi d'umore, dalle ossessioni delle tue manie. Supererò le correnti gravitazionali, lo spazio e la luce per non farti invecchiare. E guarirai da tutte le malattie, perché sei un essere speciale, ed io, avrò cura di te. Vagavo per i campi del Tennessee (come vi ero arrivato, chissà). Non hai fiori bianchi per me? Più veloci di aquile i miei sogni attraversano il mare. Ti porterò soprattutt...

Higiéne-bulímico literária

Chega. Vou escrever. Qualquer coisa que seja. Abusar das palavras, lambuzar-me da escrita, escrever demais. Escrever até enjoar. Coisas sem sentido, até sem interesse. Que vergonha se poderá ter de escrever? Escrever mal, coisas ridículas? Criticas a receber? Que poderá acontecer, se não se escrever bem? Ninguém te quererá ler? É a vergonha de mostrar demasiado? Mostrar demais, chegaremos a mostrar demasiado através de um texto, conseguiremos ver esse lugar do além do outro, conseguiremos atingir esse ponto na leitura de um texto? Ver demasiado de quem o escreve? E depois? O que acontece? O desinteresse. Seremos assim tão diferentes uns dos outros para nos escondermos? Ser apenas desinteressante. Gosto dos ângulos cegos de um livro. Existem coisas que por mais que possamos ler, nunca iremos descobrir, é isso que mantém o leitor aceso, agarrado a um texto, apaixonado por alguém, por uma obra de arte, uma paisagem que te chama, uma sensação que te apanha, qualquer co...

Contrariedades imprevistas

- Esta noite gostava de ir ao teatro ver um espetáculo de dança, mas nao tenho dinheiro - disse-me ela, meio chorosa. Tinha-me contado que nesse dia, também tinha batido com a cabeça, duas vezes na maçaneta da porta da varanda da cozinha, enquanto estendia a roupa no estendal do lado de fora da janela, tinha-se baixado para pegar nas molas. O cesto das molas estava no chão. Duas vezes uma a seguir a outra, à segunda rebentou-lhe a paciência e explodiu num choro. Correu para a casa de banho para se olhar ao espelho, na testa, um alto na cabeça e as lágrimas que lhe corriam pela cara abaixo. Chorava irritada, não só por aquilo que lhe tinha acontecido, mas por tudo o que vivia naqueles dias, ao mesmo tempo pensava, em todas as vezes que se sentiu vitima, e que desta vez não se sentia assim, não se lamentava, chorava apenas de raiva, de tanta coisa ao mesmo tempo. Estava diferente. Tinha mudado. Pôs água na cara, mas queria era molhar-se toda, essa era a sua vontade, sem se importar se ...

"In quel preciso momento"

"Scrivi, ti prego. Due righe sole, almeno, anche se l’animo è sconvolto e i nervi non tengono più. Ma ogni giorno. A denti stretti, magari delle cretinate senza senso, ma scrivi. Lo scrivere è una delle più ridicole e patetiche nostre illus ioni. Crediamo di fare cosa importante tracciando delle contorte linee nere sopra la carta bianca. Comunque, questo è il tuo mestiere, che non ti sei scelto tu ma ti è venuto dalla sorte, solo questa è la porta da cui, se mai, potrai trovare scampo. Scrivi, scrivi. Alla fine, fra tonnellate di carta da buttare via, una riga si potrà salvare. (Forse)". Dino Buzzati, In quel preciso momento.

o sabor cristalizado

Ela não sabe por onde começar. Não sabe por onde começar a arrumar. Tudo está a meio, por fazer, há muito tempo. Roupas para dar, livros para ler, e-mails para enviar, limpezas por fazer, janelas por limpar, aquele enorme saco de fotografias por organizar, trabalhos inacabados, decisões por tomar, reencontrar amigos, relações que ficaram a meio, a meio de um frase que não se chegou a terminar, um segredo que não se chegou a confessar. O fio do tempo passa, e ela deixa-se ficar, incrédula, enquanto o lixo, e o caos aumentam por todos os lados, dentro e fora dela. Nunca gostou de fruta cristalizada, mas sente-se como uma, uma daquelas frutas cristalizadas do bolo-rei, brilhantes, demasiado doces, enquanto o tempo vai escorrendo à sua frente, irrompendo a tela da vida, impiedoso e sapiente. Apaixonou-se, é certo, por uma fotografia antiga, uma memória que lhe saltou como um peixe da água, que a surpreendeu ao sussurrar o seu nome, vezes sem conta, sem cessar. Agora não a larga. C...

Murakami

" - Escrever um romance é mais ou menos a mesma coisa. Por mais ossadas que consigas reunir, por mais maravilhosa que seja a porta que logres construir, só isso não servirá para dar forma a um romance vivo, a uma obra de fôlego. Uma história não é uma coisa deste mundo. Uma verdadeira história requer uma espécie de batismo mágico capaz de ligar este mundo ao outro . " Murakami, Haruki, Sputnik, Meu Amor , tradução de Maria João Lourenço

1 historia por dia (ou por noite) # 10

Ela arrastou-se para o barco, exausta, de tanta luta perdida, tanto esforço, tão só. Sentou-se num dos bancos, e após alguns minutos a viagem iniciou. O barco não estava cheio, como costuma estar às horas de ponta, os olhos ardiam-lhe por ver demais, por tomar consciência das coisas, o confronto com a derrota, com o erro, com o abandono, fora sempre abandonada desde o inicio e ali estava ela uma vez mais abandonada pelo destino ou por uma escolha errada, ou um percurso que parecia não fazer mais sentido, pelo mundo que a tinha esquecido, ou não era bem isso que queria explicar, o mundo nem sequer a conhecia, e ela própria não conhecia o mundo verdadeiramente, mas era assim que se sentia. No pesadelo da noite passada, estava a subir umas escadas e, no topo da escadas estava um homem. Enquanto subia, esta figura masculina ia ficando mais nítida, e quando se aproxima dele, este olha para ela, com um olhar não de homem, não de humano, mas parecia revelar-se a repr...