terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Longe da realidade ou demasiado próximos dela?


O que se estará a passar?
Permaneço incrédula perante aquilo vejo e a que assisto aqui em Itália, especificamente na cidade de Roma.
O que mais se vê por aqui, são situações de uma desumanidade proeminente e uma espécie de doença de escassez de moral e valores, que a meu ver, é a pior, pois é aquela que mata sem que nos possamos aperceber, que come pelo esquecimento até apagar tudo como um vírus no computador.
Assistimos um pouco por toda a parte, relativamente a males de desumanidade mas a frequência deste tipo de acontecimentos, nesta cidade, é coisa recorrente e banal, e podem ir do mais variado ao impossível de se imaginar.
Basta apenas sair de casa para que nos comece a chover todo o tipo de situações cruas e surreais.
A tal ponto que ser desumano, cruel e mais todo o tipo de adjectivos e sinónimos que a aqui se poderiam juntar, fariam lista interminável, são coisa de quotidiano normal e natural.
O mais absurdo é que quem sai fora deste eixo e não corresponde aos padrões ditados "corre o risco" de ser discriminado, incompreendido, depreciado, e no final dá por si sozinho e catalogado pejorativamente de fraco, tolo ou parvo.

Quando sou por acaso surpreendida pela positiva, que é quase raramente, é como se por instantes despertasse e tivesse uma recordação que há muito tinha esquecido, uma recordação distante, de qualquer coisa que amei e perdi a meio do caminho sem saber porquê.
E naquele momento, não consigo evitar, não consigo evitar de me conter, e onde quer que esteja, as lágrimas escorrem-me pela cara abaixo perseguidas de um suspiro de alívio profundo, pela minúscula gota de esperança que me alimenta esta cidade, pois quando não se tem água, uma gota dá para tanto.
Mas para onde caminhamos? Alguém se questionará?
Onde queremos chegar, alguém pensará sobre isso?
Como é que chegámos até aqui?
Será melhor, parar e reflectir ou permanecer ignorante, acenando a cabeça com um sim a tudo aquilo que nos oferecem?
Se ouso falar sobre isto, em conversa com um grupo de amigos ou conhecidos italianos, defendem-se desdramatizando com uma grande gargalhada fingida de narcisos e recusam-se continuar a conversar mudando de assunto por uma falsa distracção.
Como poderemos chegar ao coração do outro?
Ou porque é que se recusam em abri-lo? Será por medo?
Ou será um pré-conceito na idéia que temos de o abrir?
Talvez seja a idéia desajustada que se tem deste tipo de conversa, que gera um certo cansaço mentiroso que faz com que não queiramos continuar a falar, um cansaço mental fictício criado por defesa, que habita num lugar escondido, longe da realidade.
Ou talvez nos sintamos é tão próximos dela, que nos sentimos assustados quando nos tocam no lugar exacto onde reside a dificuldade, que tão longe está de ser ultrapassada.
Criámos a nossa própria armadilha e caímos nela.
E agora não sabemos como a desmantelar e sair dela.

Texto: Clara Marchana
Imagem: M.C. Escher (1898-1972)

1 comentário:

Fernando Dinis disse...

que texto tão verdadeiro. gostei.

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