domingo, 22 de maio de 2016

Estimulos e fé


Necessitamos cultiva-los, um e outro, estímulos e fé.
Fazer viagens interiores de estímulos, procurar os estímulos, os milagres subtis, as imagens, os símbolos, as canções, para que possamos ter visão, ter visões, ver além, para poder encontrar sempre aceso o fogo da fé.
O fogo da fé precisa de alimento para que a chama nos mantenha alinhados nos acontecimentos diários, no quotidiano rotineiro. Deixar adormecer o fogo da fé, deixa cair por terra a nossa bússola divina.

Texto: Lara Marsof
Imagem: "Descascando Cebolas", Lilly Martin Spencer (1822-1902)

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Frio



Não deixa de me encantar a natureza,
os pássaros, os insectos, os animais,
o céu, as nuvens, os astros, a bruma, a chuva,
o vento, o cheiro a terra molhada,
o cântico dos pássaros, o dia e a noite, o amanhecer, o entardecer, o anoitecer,
não me deixam de encantar os ciclos naturais, a formação dos riachos, as poças de água, os rios e o mar.
As montanhas, os montes, os vales e as planícies, não me deixam de encantar.
Não me deixa de encantar o ar orvalhado, as plantas verdíssimas que crescem rasteiras ao solo cobertas pela chuva,
o cheiro das flores, os sons que escutamos quando estamos em silencio,
não me deixa de encantar a contemplação,
não me deixa de encantar o dar, as cores e os beijos não me deixam de encantar.

Texto: Clara Marchana

domingo, 11 de outubro de 2015

Dióspiro



Dia chuvoso, dia de chuva leve e ligeira, que suavemente nos banha devagar, sem que nos demos conta.
O Outono entrou sorrateiro, tão doce, tão carinhoso.
Dióspiros, romãs, castanhas, folhas secas no chão de cores quentes, das árvores que agora se despem, que apelam ao tempo intimo, e que nos abraçam agora em cada passo, em cada silencio, em cada pensamento.
É um tempo que pede silêncio e recolhimento, o movimento faz-se agora para dentro.

Texto: Clara Marchana

sábado, 13 de junho de 2015

Foi a lua nocturna

E assim levou o vento desta noite, o amor.
Levou também quase tudo.
Levou tudo o que tinha para levar,
numa lua cheia ventosa.
Talvez nem tenha sido o vento a levar o amor, nem a lua cheia,
mas o desgaste de tanta fita adesiva, de tanto remendo na mesma zona partida, uma e outra vez, até se tornar em vezes sem conta.
Uma zona partida depois fica ferida, frágil, sensível e reclama ser sarada.
Esta lua cheia, já foi há um pouco, mas isto que conto não, de facto a lua cheia não levou ontem o amor, mas a noite sim, levou muita coisa.
Talvez tenha sido apenas uma lua nocturna.

Texto: Clara Marchana


quinta-feira, 19 de março de 2015

Nublada


Noite nublada. Bruma caminhante por entre as árvores.
Sussurros de aves. Ela gostaria de saber falar como elas.
Não poderíamos falar todos como os pássaros?
Nao poderíamos ao menos, de vez em quando, aproximar-nos para os escutar? Darmo-nos esse tempo.
Serenarmos nessa condição, sem ambição de apenas estar presente.

Texto: Clara Marchana

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Passos orvalhados

O fogo.
O céu azul limpo. O sol em esplendor num tempo frio e húmido.
Terra verde brilhante magicamente orvalhada esta manhã enquanto caminhava para passear a Lucy.
Tudo à volta em silêncio, passos no orvalho da erva, pássaros cruzavam linhas no ar, rebentavam energia nas suas asas e assobios.
Segredos nas asas deles, segredos da vida secreta que te mima e abraça, quando ao redor dela te encontras em silêncio ou a falar baixinho, como uma criança pura no fulgor do encanto inicial.

Texto: Clara Marchana

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Confissões inesperadas de rua

Hoje uma senhora baixinha, escondida, silenciosa, anciã, desfez o seu rosto em lágrimas perto de mim, sem se conseguir conter, ao acarinhar a minha cadela que estava à porta de sua casa. Recordou-se do seu cão que tinha partido há duas semanas, confessou-me que lhe fazia muita falta, sente-se só e ele era a sua companhia. Meteu a chave no portão de sua casa, e entrou silenciosa e tímida. Escondida e prostrada na sua emoção.

Texto: Clara Marchana

Rendermo-nos à fragilidade

Rendermo-nos à fragilidade é arrancar com força, aquilo que mais nos agarra.
Está-me a custar a passar. Nunca pensei que doesse tanto.
Torna-se uma dor quase física, entre a garganta e o esterno até ao diafragma. Latejante no plexo solar.

Aproximar-me dela, foi saber um pouco mais de mim, aproximar-me sem medo da morte, os braços dela, também é uma mulher, também é a brincar.
E assim fui andando a saber, ao sabor do desconhecido, saber no escuro.
Queria ir, ver mais, sem sons, sem ter de querer, sem ter de ser alguém, algo.
Queria ver, sentir, caminhar na linha, tocar os braços, abraços, o espelho de mim.
O espelho de mim no outro. O espelho que cai e parte, mas não doi quando magoa, porque é querido, saber não querer ir mais além do que aquele lugar.
Não tem de ser assim.
Pode assim descansar em paz, no lugar da alma, nos braços dela, amar o desconhecido, lugar limpo, vazio sem sons e significados, limpo de palavras, de agregados, de coisas, de obscuro, de livros, de carne, de loucura, de amarrares alguém para ti, sem ter na verdade esse alguém, não quero saber mais disso, mais nada vou dizer, para não suar em mergulhos delirantes de vezes e vezes repetidas.

Texto: Clara Marchana

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Alentejo Plim Plim

Estou assim aconchegada, embatida num ser que faz livres piruetas e não tem realidade, tem todas as realidades ao mesmo tempo, criações, criações de mundos e love stories. Beijos desmedidos.

Infância, Alentejo do sonho meu, montes, cheiros e flores campestres, risos e insectos, magia do imaginário, o avô da bicicleta a lavar os animais, a fonte da água pura, bacias e tanques, ameixas e dióspiros.
Livre, livre, livre de sonhar, a piscina do tanque onde aprendi a nadar, histórias contadas à meia-noite à beira das portas de casa. Resgatados os instrumentos visionários de corridas na erva com os galos atrás de mim. Sopro de mim para o universo inteiro, naves espaciais em forma de cavacas doces e brancas, leves gotas de orvalho, o frio do amanhecer, em que descubro qualquer coisa que me abala na necessidade de sentir a rebeldia de viver em laços de coisas assim mais nobres, mais beijadas, mais conscientes, mais discretas, seguras em sentidos multi-laterais. Nobre aquele que faz o que sente de verdade, sem precisar de invocar casos infinitos  de paródias lúcidas e sem expressão, sem sentido, sem amigos, sem razão, sem termos de ordem concreta universal, lucidez abrasiva que repele o destino dos homens.
Sempre andaremos às voltas na navegação perseguida pela deriva, temos todos uma mestra que cuida de nós, ou mais. Sim à vida. Sim na necessidade do brilho, da luz cintilante e discreta de plim plim.

Parece que fico especada a olhar para algures em parte alguma e capto algo que deparo e sabe-me a todos os dias, a todos os lugares ao mesmo tempo.
Viajei na tenda confusa, não sabia caminhar, tirei os véus que ofuscavam e senti, saboreei o passado remoto, mas também o presente remoto e cruel, em que largo qualquer sentido prático e só fico a sentir o outro, os outros, e eu, ali em consonância com tudo, captando forças de veias que correm em maresias e todas as naturezas e liberdades doces de quem tem dúvidas tesas e crespas.
Vou formosa e não segura, sem cântaro na mão, para destino incerto a parte alguma mas na riqueza da descoberta. O sono desconecta-me, desaba-me, abala-me, deixa-me na terra, ofuscada em pensamentos e lágrimas escondidas de noites sem dormir, sem, sem.

Somewhere ok, não sei mesmo o que pensar, uma gaivota na chaminé que vi há pouco, a fuga da realidade, a evasão, o destino, as vozes dos sons desconhecidos que abrem o mar da aventura e do silêncio, do abismo e da obrigação, da casa, do sabor da leveza, não vou sentir o que não faço, mas também o que é o destino da liberdade, de qualquer coisa que passa, que rascunha em mim no comportamento dele, que não faz nada.
Que loucura, que viagem de papel sem sentido, e não posso ser assim como este papel que não sabe ser mais branco, branco de puro que é, que não é e não sabe, e voar até ao lugar mais longínquo, mais inóspito, mais vago, mais absurdo. A realidade assombra alguém, algumas pessoas carentes, de falta de sábios, de casa, de lugar em mim, em ti, não vou, não sei, lá, lá, lá, lavar a alma com açúcar, com i.

Então onde é que ia? Bem, bem, bem, para lá do universo indescritível, hoje não sinto a leveza, abre-se-me a garganta com vespas e abelhas e círculos obtusos em sensações e risos.

E também não faz sentido. Vais entrar em loops de risos, e em lá, lá, lá de lugares e cinturas pélvicas imaginárias em que a força é muito grande.
Pronto, recomeço a divagação de vidas e sentires irreais, reais, e juntos para sempre, sons em sons de máquinas e folhas, rascunhos, espirros e a minha caneta escreve algo, e mais uma palavra híbrida e límpida.

Texto: Clara Marchana

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Drummond

"Não deixe o amor passar"

Quando encontrar alguém e esse alguém fizer seu coração parar de funcionar por alguns segundos, preste atenção: pode ser a pessoa mais importante da sua vida. 


Se os olhares se cruzarem e, neste momento, houver o mesmo brilho intenso entre eles, fique alerta: pode ser a pessoa que você está esperando desde o dia em que nasceu. 

Se o toque dos lábios for intenso, se o beijo for apaixonante, e os olhos se encherem d’água neste momento, perceba: existe algo mágico entre vocês. 

Se o primeiro e o último pensamento do seu dia for essa pessoa, se a vontade de ficar juntos chegar a apertar o coração, agradeça: Deus te mandou um presente: O Amor. 

Por isso, preste atenção nos sinais - não deixe que as loucuras do dia-a-dia o deixem cego para a melhor coisa da vida: O Amor.

Carlos Drummond de Andrade

sábado, 1 de março de 2014

História evaporada

Evaporou-se.
A sensação que as coisas se evaporam, rapidamente como álcool etílico despejado pelo chão.
Depois também é difícil lidar com os factos.
Aquele casal de velhotes no café. Ele lê o jornal, ela faz o sudoku fervorosamente com lápis, borracha e caneta, sem tirar os olhos uma única vez da folha.
Bebi o meu café e pensei no que tinha sonhado, mas não me lembrava.
Na televisão, a imagem piscava continuamente, por avaria, sem arranjo, de televisor antigo, transmite um programa de natureza selvagem, algures numa ilha e sua floresta tropical, de insectos, cobras e lagartos.
Enquanto escrevo no diário, e revejo o que tinha escrito em dias anteriores, observo o que se passa à volta, sinto-me ao mesmo tempo num estado meio hipnótico, com um olhar meio vago, meio perdido, naquele ambiente de café que parou no tempo, algures nos anos oitenta.
Gosto de lugares assim que não acompanham os tempos de hoje, não correm atrás das modas, não correm atrás de nada, ou então correm apenas atrás de si mesmos, ficaram especados, a assumirem aquilo que são, sem quererem tornar-se especialmente em nada, mas acabam por se tornar, exactamente por essa mesma razão, ganham personalidade, característica própria, genuidade, unicidade.
É algo que faz falta nos tempos que correm, e a quem, que também corre atrás dos tempos que correm, que por vezes é atrás de nada.

Texto: Clara Marchana

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Embrenhada na noite

Ainda há quem desconheça o Amor, pelo menos assim oiço dizer. E eu também se calhar. Será que alguém conhece verdadeiramente o amor? 
Se calhar também não sei o que é amar. 
Será mesmo preciso sabê-lo? Talvez baste apenas sentir esse território para sempre desconhecido e misterioso. 
Entregarmo-nos verdadeiramente a esse lugar, a essa manifestação, oferecê-lo ao outro, pegar no coração que trago nas mãos, e como alguém me disse um dia, que também trazia o coração nas mãos, e que vagueava pelo mundo, tão somente para o depositar nas mãos de um outro.
Há quem não saiba se ama, por não ter a certeza, há quem apenas se encontre apaixonado. Viver apaixonado pela vida, pelos outros, por aquilo que se faz, por tantos detalhes. Qual a diferença, qual o caminho para cada um deles? Entre os dois, qual o caminho?

Texto: Clara Marchana


Poem of the Butterflies 

The people of this world are like the three butterflies
in front of a candle's flame.
The first one went closer and said:
I know about love.
The second one touched the flame
lightly with his wings and said:
I know how love's fire can burn.
The third one threw himself into the heart of the flame
and was consumed. He alone knows what true love is.

 de Mawlānā Jalāl-ad-Dīn Muhammad Rūmī

domingo, 19 de janeiro de 2014

E Liszt que continua a tocar no mp3

Aquele rapaz que parece chocalhar a cabeça, enquanto escuta a música no mp3, o africano à sua frente também escuta música, mas adormeceu num sono profundo de cabeça para cima.
Ela também escuta no mp3, a Valsa Lenta de Liszt. A outra rapariga no banco do compartimento de trás deixou cair o brinco da orelha, em cima do seu casaco, apoiado em cima das pernas, tem umas unhas de gel verde brilhante. 
Toda ela é brilhante aliás, o cabelo preto esticado, o colar brilhante pousado no peito, as unhas verdes, o brinco no nariz, a camisa de renda preta acetinada, os anéis de pedras brilhantes, pedras falsas brilhantes, e a senhora ao seu lado que folheia o jornal.
E Liszt que continua a tocar nos seus ouvidos.
Ela que escuta a Valsa Lenta, pensa em como gostaria de fazer alguma coisa de bem na vida, gostaria muito, muito de saber de facto de fazer alguma coisa bem na vida. 
E põe-se a imaginar que ele aparece, como que por brincadeira, com a música ao colo, fazendo com que tudo à sua volta pareça leve e pouco sério. 
Uma senhora ao seu lado roda continuamente o chapéu de chuva fechado, apoiado no chão, tem na cabeça um chapéu impermeável, com quadrados pequeninos desenhados e costurados a linha branca, enquanto Liszt continua a tocar nos seus ouvidos. 
Ele, mas não Liszt, o outro em quem há pouco pensava, é banda sonora, ele poderia ser isso, anestesia de sonhos para uma realidade composta por demasiados nervos para se conseguir mastigar e engolir, ou então um filtro protetor colorido, onde tudo se poderia tornar película de filme, para conseguirmos manter a distância certa, entre o olhar e os acontecimentos. 
Ele ainda não existe, mas poderia existir.
E Liszt continua a tocar, juntamente com a rapariga mestiça que está sentada à sua frente, que fala ao telemóvel continuamente, desde o inicio da viagem deste comboio, com o rosto colado ao vidro da janela. 
Às vezes há um olhar fugidio, fugaz, que se cruza com o dela, ou existem aqueles olhares que permanecem mais um pouco pousados nela, ela sente-os e olha depois, mas logo a seguir são estes que descruzam com o seu olhar. 
A curiosidade também espreita por vezes, por quem está sentado ao seu lado, para aquilo que escreve. 
Que engraçado. E se ela deixasse que olhassem? 
O querer ver, que mal tem isso, em querer ver, em ler o que o outro escreve? 
Tão sincero. 
Ver, olhar, ser visto, olhado, tocado, procurarmos no outro por nós próprios, queremos sentir-nos tocados, vivos, sentidos.
Será o amor o resumo, a síntese? 
Será esse o lugar que no final, gostaríamos de encontrar? 
E de preferência sem querer, que fica mais bonito.

Texto: Clara Marchana

domingo, 8 de dezembro de 2013

Esforço anti-onírico

O esforço que ela faz para não sonhar. Para não se envolver, para não criar expectativas, para não escapar da realidade.
Ancorada pelos pés à terra para não ir sonhando por aí.
Mas não é fácil, o seu corpo transforma-se, o seu corpo volátil, etéreo, camaleónico, metamórfico.
Os sonhos, as divagações sempre foram o seu alimento.
Ela quer acreditar que será melhor para ela domesticar essa água selvagem, inquieta, esse bicho disperso dentro de si, quase que dependente, ou senão dependente em sair a toda a hora da realidade e a conjeturar realidades pouco palpáveis, explicações demasiado fantasiosas acerca de tudo.

Texto: Clara Marchana

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Xadrez das sombras

Terra mexida de um corpo emotivo,
 rio de gotas salgadas que correm pela face sem cessar,
voam os pássaros medrosos,
fogem as fronteiras dos risos,
cava fundo uma dor antiga e perdida na dimensão interna do ser.
As bússolas vagueiam, saltitam desorientadas por  toda a parte, escapam.
As sombras avançam como peões de xadrez, apoderam-se de um cisne indefeso, que não sabe como sair dali, e aguarda que tudo passe.
Só o tempo o dirá, e não adianta exigir que ele avance, pois o tempo é mestre de si.

Texto: Clara Marchana

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

pontes tortas

Ficámos a olhar o oceano de frente, as emoções bailavam histéricas...


Pensava em como era fácil entender o significado das palavras, quando se encontram sozinhas, mas o difícil era entender quem as pronuncia, e as transporta, ou decide apenas ser transportado por estas. É como tentar chegar à raiz das metáforas. Que quererão dizer? Que revelam? É como várias pessoas cozinharem o mesmo prato de comida, com os mesmos ingredientes, as mesmas quantidades, e mesmo assim o prato sairá diferente, dependendo de quem o cozinhou. 
Queria estar contigo, ficar mais tempo, prolongar-te a presença, mas não chegavas à raiz das minhas metáforas, nem eu das tuas. Ou pelo menos era o que me dizias, que não te entendia. 
Duas crianças a olharem o pôr do sol, enquanto ocorriam batalhas dentro delas, enquanto a impossibilidade as separava cada vez mais, o pôr do sol descia, caía dentro do horizonte. Não vás já sol, deixa-me imaginar que ele está aqui comigo a ver-te também. Queria pensar que ainda havia esperança, que um dia ainda nos iríamos encontrar e amar, sem traduções, sem pontes tortas, exatamente na mesma metáfora, no mesmo significado, na mesma raiz, no mesmo sabor da maturidade. 

Texto: Clara Marchana

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Porta de fogo


Quem és tu, ó guardião, mensageiro dos deuses, deus dos cervos, força de Marte, que chegas de repente, arrombando todas as portas, entras sem avisares que chegas?
Abri um pouco mais a porta entreaberta para ver quem era, e assim que a abri, o efeito foi de desarrumação.
Torno a arrumar tudo rapidamente vezes sem conta, e vezes sem conta tudo se desarruma de novo. Talvez tenha de ficar tudo desarrumado por uns tempos, para se poder novamente arrumar tudo, mas de uma nova forma.
Não estava à espera que isto acontecesse, nem esperava que fosse este o efeito.
Apareceste e desapareceste, numa pequena viagem mágica e passageira, mas assim que poisaste na minha terra, o lugar abriu-se e pertenceu-te, talvez te tenha sempre pertencido, tem a tua forma. O eco daquele lugar, confessou-me, sussurrou durante a noite nos sonhos, que aquele lugar também é a tua terra.
Agora fico à espera que voltes. Só assim se poderá completar o movimento.

Texto: Clara Marchana

domingo, 14 de julho de 2013

Quantas vezes ela desejou que ele lhe cantasse uma canção, como se fosse uma canção de embalar ou uma oração, e depois adormecer nos seus braços, naquela cidade caótica que lhe bicava na mesma ferida todos os dias, pudesse assim encontrar um sentido para ali estar, ter uma visão e vislumbrar através do nevoeiro uma gota de esperança.

"Ti proteggerò dalle paure delle ipocondrie,
dai turbamenti che da oggi incontrerai per la tua via.
Dalle ingiustizie e dagli inganni del tuo tempo,
dai fallimenti che per tua natura normalmente attirerai.
Ti solleverò dai dolori e dai tuoi sbalzi d'umore,
dalle ossessioni delle tue manie.
Supererò le correnti gravitazionali,
lo spazio e la luce
per non farti invecchiare.
E guarirai da tutte le malattie,
perché sei un essere speciale,
ed io, avrò cura di te.
Vagavo per i campi del Tennessee
(come vi ero arrivato, chissà).
Non hai fiori bianchi per me?
Più veloci di aquile i miei sogni
attraversano il mare.

Ti porterò soprattutto il silenzio e la pazienza.
Percorreremo assieme le vie che portano all'essenza.
I profumi d'amore inebrieranno i nostri corpi,
la bonaccia d'agosto non calmerà i nostri sensi.
Tesserò i tuoi capelli come trame di un canto.
Conosco le leggi del mondo, e te ne farò dono.
Supererò le correnti gravitazionali,
lo spazio e la luce per non farti invecchiare.
Ti salverò da ogni malinconia,
perché sei un essere speciale ed io avrò cura di te...
Io si, che avrò cura di te."

Franco Battiato in La Cura

domingo, 3 de março de 2013

Higiéne-bulímico literária

Chega.
Vou escrever. Qualquer coisa que seja.
Abusar das palavras, lambuzar-me da escrita, escrever demais.
Escrever até enjoar.
Coisas sem sentido, até sem interesse.
Que vergonha se poderá ter de escrever?
Escrever mal, coisas ridículas? Criticas a receber?
Que poderá acontecer, se não se escrever bem?
Ninguém te quererá ler?
É a vergonha de mostrar demasiado?
Mostrar demais, chegaremos a mostrar demasiado através de um texto, conseguiremos ver esse lugar do além do outro, conseguiremos atingir esse ponto na leitura de um texto?
Ver demasiado de quem o escreve?
E depois? O que acontece?
O desinteresse.
Seremos assim tão diferentes uns dos outros para nos escondermos?
Ser apenas desinteressante.
Gosto dos ângulos cegos de um livro.
Existem coisas que por mais que possamos ler, nunca iremos descobrir, é isso que mantém o leitor aceso, agarrado a um texto, apaixonado por alguém, por uma obra de arte, uma paisagem que te chama, uma sensação que te apanha, qualquer coisa que seja,
são essas curvas sem visibilidade, onde não sabemos o que vem a seguir, quem ou o que vem lá,
é esse o mistério que nos prende, que nos enche, que nos faz perseguir, procurar, espreitar.
Vou escrever, escrever até me fartar.

texto: Clara Marchana

sábado, 12 de janeiro de 2013

Contrariedades imprevistas

- Esta noite gostava de ir ao teatro ver um espetáculo de dança, mas nao tenho dinheiro - disse-me ela, meio chorosa.
Tinha-me contado que nesse dia, também tinha batido com a cabeça, duas vezes na maçaneta da porta da varanda da cozinha, enquanto estendia a roupa no estendal do lado de fora da janela, tinha-se baixado para pegar nas molas. O cesto das molas estava no chão. Duas vezes uma a seguir a outra, à segunda rebentou-lhe a paciência e explodiu num choro. Correu para a casa de banho para se olhar ao espelho, na testa, um alto na cabeça e as lágrimas que lhe corriam pela cara abaixo. Chorava irritada, não só por aquilo que lhe tinha acontecido, mas por tudo o que vivia naqueles dias, ao mesmo tempo pensava, em todas as vezes que se sentiu vitima, e que desta vez não se sentia assim, não se lamentava, chorava apenas de raiva, de tanta coisa ao mesmo tempo. Estava diferente. Tinha mudado.
Pôs água na cara, mas queria era molhar-se toda, essa era a sua vontade, sem se importar se iria ficar molhada, a água a escorrer-lhe na cara e foi para a cozinha, acabar de estender a roupa, a testa latejava enquanto se movimentava, mas soube-lhe bem da sensação do vento na cara, o fresco, misturado no rosto molhado. Abriu depois o congelador para tirar gelo, que estava numa forma que tinha pequenos cubos de gelo em forma de frutas, mas o gelo não saía, quantas contrariedades num curto espaço de tempo, quanta irritação, abriu a torneira do lava-louça para pôr o gelo debaixo de água e tentava forçar o gelo a sair, que não saía de maneira nenhuma, e só passado algum tempo, foram saindo os cubos de gelo, um a um, uma maçã, um morango, e cachos de uvas. Desatou novamente a chorar. Pegou nalguns cubos e colocou num saquinho de plástico, para pôr na cara.
Tinha ficado com um galo enorme.
E depois começou a chover.


Texto: Clara Marchana
Imagem:  Louise Bourgeois "Be Calm"