segunda-feira, 20 de março de 2017

Sinceridade

Para ser sincera.

Hoje sinto-me triste.
Não sei bem porquê. Melancólica.
Às vezes sinto mais a vida, filigrana de cristal fino. Olho para as coisas já com saudade. Isso esmurraça-me profundamente.
Fiquei comovida, ao ter olhado para outra pessoa, que se manifesta triste com os outros, que pensa sozinho, em voz alta, dizendo que se apercebe o quanto os outros se movem apenas pelo dinheiro.
Depois toca piano devagar e baixinho, olhando para o vago em frente.
Há pouco tinha tocado para a filha pequena que está longe, através de uma webcam, um mini-recital para doze crianças da classe da sua classe e a professora. Passou o dia de ontem e a manhã a preparar- se para o momento. A filha fez-lhe um bolo para o Dia do Pai. As crianças olhavam para o ele contentes enquanto ele tocava, o pai pianista da colega, e bateram-lhe muitas palmas, dizendo~lhe, que gostavam de o ver fazer a vénia. E ao final de cada peçazinha tocada, pediam-lhe que repetisse a vénia vezes sem conta. Ficaram contentes com esta parte de um dia de aulas diferente.
Eu ouvia o piano do outro lado da casa, a minha pele espreitava pela porta, e escorriam-me lágrimas pelo rosto. Como poderia conter-me? Era tão tocante. Tão milagre. Seres humanos a manifestarem-se no seu melhor, sem esperar espécie alguma de reconhecimento ou de troca.
As pessoas comovem-me, as nossas emoções, os pensamentos e como se manifestam nos nossos gestos, olhares e posturas.
Somos tão imensos, tão grande o mar emotivo, tão cheios de milagres.
Somos tão frágeis, tão belissimamente comoventes, quando somos verdadeiros no nosso ser quando age manifestamente natural.

(C)Lara

Fotografia: Sabina Tabakovic

domingo, 22 de maio de 2016

Estimulos e fé


Necessitamos cultiva-los, um e outro, estímulos e fé.
Fazer viagens interiores de estímulos, procurar os estímulos, os milagres subtis, as imagens, os símbolos, as canções, para que possamos ter visão, ter visões, ver além, para poder encontrar sempre aceso ao fogo da fé.
O fogo da fé precisa de alimento para que a chama nos mantenha alinhados aos acontecimentos diários, ao quotidiano rotineiro. Deixar adormecer o fogo da fé, deixa cair por terra a nossa bússola divina.

Texto: Lara Marsof
Imagem: "Descascando Cebolas", Lilly Martin Spencer (1822-1902)

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Frio



Não deixa de me encantar a natureza,
os pássaros, os insectos, os animais,
o céu, as nuvens, os astros, a bruma, a chuva,
o vento, o cheiro a terra molhada,
o cântico dos pássaros, o dia e a noite, o amanhecer, o entardecer, o anoitecer,
não me deixam de encantar os ciclos naturais, a formação dos riachos, as poças de água, os rios e o mar.
As montanhas, os montes, os vales e as planícies, não me deixam de encantar.
Não me deixa de encantar o ar orvalhado, as plantas verdíssimas que crescem rasteiras ao solo cobertas pela chuva,
o cheiro das flores, os sons que escutamos quando estamos em silencio,
não me deixa de encantar a contemplação,
não me deixa de encantar o dar, as cores e os beijos não me deixam de encantar.

Texto: Clara Marchana

domingo, 11 de outubro de 2015

Dióspiro



Dia chuvoso, dia de chuva leve e ligeira, que suavemente nos banha devagar, sem que nos demos conta.
O Outono entrou sorrateiro, tão doce, tão carinhoso.
Dióspiros, romãs, castanhas, folhas secas no chão de cores quentes, das árvores que agora se despem, que apelam ao tempo intimo, e que nos abraçam agora em cada passo, em cada silencio, em cada pensamento.
É um tempo que pede silêncio e recolhimento, o movimento faz-se agora para dentro.

Texto: Clara Marchana

sábado, 13 de junho de 2015

Foi a lua nocturna

E assim levou o vento desta noite, o amor.
Levou também quase tudo.
Levou tudo o que tinha para levar,
numa lua cheia ventosa.
Talvez nem tenha sido o vento a levar o amor, nem a lua cheia,
mas o desgaste de tanta fita adesiva, de tanto remendo na mesma zona partida, uma e outra vez, até se tornar em vezes sem conta.
Uma zona partida depois fica ferida, frágil, sensível e reclama ser sarada.
Esta lua cheia, já foi há um pouco, mas isto que conto não, de facto a lua cheia não levou ontem o amor, mas a noite sim, levou muita coisa.
Talvez tenha sido apenas uma lua nocturna.

Texto: Clara Marchana


quinta-feira, 19 de março de 2015

Nublada


Noite nublada. Bruma caminhante por entre as árvores.
Sussurros de aves. Ela gostaria de saber falar como elas.
Não poderíamos falar todos como pássaros?
Nao poderíamos ao menos de vez em quando, aproximarmo-nos para os escutar? Darmo-nos esse tempo?
Serenarmos nessa condição a nossa condição, sem ambição, e de apenas estar presente.

Texto: Clara Marchana

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Passos orvalhados

O fogo.
O céu azul limpo. O sol em esplendor num tempo frio e húmido.
Terra verde brilhante magicamente orvalhada esta manhã enquanto caminhava para passear a Lucy.
Tudo à volta em silêncio, passos no orvalho da erva, pássaros cruzavam linhas no ar, rebentavam energia nas suas asas e assobios.
Segredos nas asas deles, segredos da vida secreta que te mima e abraça, quando ao redor dela te encontras em silêncio ou a falar baixinho, como uma criança pura no fulgor do encanto inicial.

Texto: Clara Marchana