quinta-feira, 15 de julho de 2010

Das sombras

Existem períodos que nos sentimos assim,
sem nada a dizer,
sem saber o que exprimir.
Talvez seja tanto o que se tem para falar que não nos decidimos pelas palavras,
vamos guardando no baú as coisas que ficam por dizer, aguardando o momento certo, e  o tempo vai passando,
e o momento certo se calhar também,
um dia abrimos o baú, e saltam de lá todas as palavras,
palavras que puxam histórias,
e histórias cada vez mais longas.
E o que fazer com esta confusão que salta à nossa volta?
Podemos continuar sem abrir a boca,
adiando mais uma vez as conversas, os gritos, os segredos, as confissões, os desabafos, os choros, o dizer que te amo, e às vezes até o rir,
por receio que alguém se lamente,
por se cantar sempre a mesma canção,
ou então como um fruto, que ainda é verde, que só se pode colher no momento certo,
e pensamos que talvez seja melhor continuar a esperar.
A matéria de que se trata, por vezes, é densa e difícil de se tornar palavra,
matéria pouco soalheira e teimosa.
Mas nalguns momentos é preciso arriscar, puxar das palavras, ajudá-las a sair e cantar mesmo que seja a mesma canção, mesmo que se lamentem, mesmo que.
E eu que pensava que comunicar era mais fácil,
agora já não sei,
mas se calhar é apenas uma fase.

Texto: Clara Marchana
Fotografia dos autores: José de Almeida e Maria Flores 

5 comentários:

Shin Tau disse...

Olá Clara

se te compreendo!!! Também sinto que às vezes não digo, não faço isto ou aquilo por esta ou aquela razão, mas na verdade é porque penso demais.

Ser verdadeira connosco é muito importante e respeitar os outros também; a linha que separa esses dois é a da nossa actuação, mas não é fácil de a encontrar, nem sempre.

As tuas palavras vieram directamente ao meu coração, ando com vontade de dizer umas quantas coisas, mas porque não quero dar importância, mas porque não saberei dizê-las com diplomacia, mas porque ainda são feias e não passam de acusações, mas porque..., mas porque...e o tempo vai passando e a emoção a ficar cada vez mais negra.

Usaste a imagem de um baú com tralhas a saírem de lá, pois para mim a imagem é mesmo de algo que cresce no canto escuro de um quarto
e que um dia é tão real que se tornou um monstro mesmo!!! Temo as emoções descontroladas, principalmente as minhas eheheheh

Acredito que a comunicação é fácil, mas primeiro temos de descobrir a nossa comunicação interior, creio. Quando reconheces o comportamento que tens aqui, ali, ou quando sabes estar certa de algo, quando digeriste a densidade desta palavra...consegues comunicar. Só depois de haver luz e paz em nós conseguiremos transmitir aos outros. Creio que o "problema" é quando ainda não sabemos ao certo o que aquilo nos diz e vamos falar com o outro...aí surge a confusão.

Bem, puseste-me para aqui a debitar assunto...

Fico por aqui, mas antes parabéns pelo teu blogue é muito cool e profundo!

Uma beijoca e sim...se calhar é só uma fase

Clara disse...

Olá Shin,

Devo dizer-te que me deu muito prazer ler o que escreveste, e que essa tua vontade de "debitar assunto" só veio despertar e estimular boas reflexões.
Agradeço que tenhas partilhado por aqui um pouco de ti.

Parabéns também aos teus blogs, gosto muito de ler o que escreves.

Beijinho

ESpeCiaLmente GaSPaS disse...

Às vezes tb me sinto assim! São fase, felizmente somos humanos e passamos pelos mais variados sentimentos e pensamentos!

Juliett Farnesse disse...

silencie os espaços que a mesma língua nos impor.

Precioso.

Clara disse...

:-)
saludos*