terça-feira, 19 de agosto de 2014

Confissões inesperadas de rua

Hoje uma senhora baixinha, escondida, silenciosa, anciã, desfez o seu rosto em lágrimas perto de mim, sem se conseguir conter, ao acarinhar a minha cadela que estava à porta de sua casa. Recordou-se do seu cão que tinha partido há duas semanas, confessou-me que lhe fazia muita falta, sente-se só e ele era a sua companhia. Meteu a chave no portão de sua casa, e entrou silenciosa e tímida. Escondida e prostrada na sua emoção.

Texto: Clara Marchana

Rendermo-nos à fragilidade

Rendermo-nos à fragilidade é arrancar com força, aquilo que mais nos agarra.
Está-me a custar a passar. Nunca pensei que doesse tanto.
Torna-se uma dor quase física, entre a garganta e o esterno até ao diafragma. Latejante no plexo solar.

Aproximar-me dela, foi saber um pouco mais de mim, aproximar-me sem medo da morte, os braços dela, também é uma mulher, também é a brincar.
E assim fui andando a saber, ao sabor do desconhecido, saber no escuro.
Queria ir, ver mais, sem sons, sem ter de querer, sem ter de ser alguém, algo.
Queria ver, sentir, caminhar na linha, tocar os braços, abraços, o espelho de mim.
O espelho de mim no outro. O espelho que cai e parte, mas não doi quando magoa, porque é querido, saber não querer ir mais além do que aquele lugar.
Não tem de ser assim.
Pode assim descansar em paz, no lugar da alma, nos braços dela, amar o desconhecido, lugar limpo, vazio sem sons e significados, limpo de palavras, de agregados, de coisas, de obscuro, de livros, de carne, de loucura, de amarrares alguém para ti, sem ter na verdade esse alguém, não quero saber mais disso, mais nada vou dizer, para não suar em mergulhos delirantes de vezes e vezes repetidas.

Texto: Clara Marchana

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Alentejo Plim Plim

Estou assim aconchegada, embatida num ser que faz livres piruetas e não tem realidade, tem todas as realidades ao mesmo tempo, criações, criações de mundos e love stories. Beijos desmedidos.

Infância, Alentejo do sonho meu, montes, cheiros e flores campestres, risos e insectos, magia do imaginário, o avô da bicicleta a lavar os animais, a fonte da água pura, bacias e tanques, ameixas e dióspiros.
Livre, livre, livre de sonhar, a piscina do tanque onde aprendi a nadar, histórias contadas à meia-noite à beira das portas de casa. Resgatados os instrumentos visionários de corridas na erva com os galos atrás de mim. Sopro de mim para o universo inteiro, naves espaciais em forma de cavacas doces e brancas, leves gotas de orvalho, o frio do amanhecer, em que descubro qualquer coisa que me abala na necessidade de sentir a rebeldia de viver em laços de coisas assim mais nobres, mais beijadas, mais conscientes, mais discretas, seguras em sentidos multi-laterais. Nobre aquele que faz o que sente de verdade, sem precisar de invocar casos infinitos  de paródias lúcidas e sem expressão, sem sentido, sem amigos, sem razão, sem termos de ordem concreta universal, lucidez abrasiva que repele o destino dos homens.
Sempre andaremos às voltas na navegação perseguida pela deriva, temos todos uma mestra que cuida de nós, ou mais. Sim à vida. Sim na necessidade do brilho, da luz cintilante e discreta de plim plim.

Parece que fico especada a olhar para algures em parte alguma e capto algo que deparo e sabe-me a todos os dias, a todos os lugares ao mesmo tempo.
Viajei na tenda confusa, não sabia caminhar, tirei os véus que ofuscavam e senti, saboreei o passado remoto, mas também o presente remoto e cruel, em que largo qualquer sentido prático e só fico a sentir o outro, os outros, e eu, ali em consonância com tudo, captando forças de veias que correm em maresias e todas as naturezas e liberdades doces de quem tem dúvidas tesas e crespas.
Vou formosa e não segura, sem cântaro na mão, para destino incerto a parte alguma mas na riqueza da descoberta. O sono desconecta-me, desaba-me, abala-me, deixa-me na terra, ofuscada em pensamentos e lágrimas escondidas de noites sem dormir, sem, sem.

Somewhere ok, não sei mesmo o que pensar, uma gaivota na chaminé que vi há pouco, a fuga da realidade, a evasão, o destino, as vozes dos sons desconhecidos que abrem o mar da aventura e do silêncio, do abismo e da obrigação, da casa, do sabor da leveza, não vou sentir o que não faço, mas também o que é o destino da liberdade, de qualquer coisa que passa, que rascunha em mim no comportamento dele, que não faz nada.
Que loucura, que viagem de papel sem sentido, e não posso ser assim como este papel que não sabe ser mais branco, branco de puro que é, que não é e não sabe, e voar até ao lugar mais longínquo, mais inóspito, mais vago, mais absurdo. A realidade assombra alguém, algumas pessoas carentes, de falta de sábios, de casa, de lugar em mim, em ti, não vou, não sei, lá, lá, lá, lavar a alma com açúcar, com i.

Então onde é que ia? Bem, bem, bem, para lá do universo indescritível, hoje não sinto a leveza, abre-se-me a garganta com vespas e abelhas e círculos obtusos em sensações e risos.

E também não faz sentido. Vais entrar em loops de risos, e em lá, lá, lá de lugares e cinturas pélvicas imaginárias em que a força é muito grande.
Pronto, recomeço a divagação de vidas e sentires irreais, reais, e juntos para sempre, sons em sons de máquinas e folhas, rascunhos, espirros e a minha caneta escreve algo, e mais uma palavra híbrida e límpida.

Texto: Clara Marchana

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Drummond

"Não deixe o amor passar"

Quando encontrar alguém e esse alguém fizer seu coração parar de funcionar por alguns segundos, preste atenção: pode ser a pessoa mais importante da sua vida. 


Se os olhares se cruzarem e, neste momento, houver o mesmo brilho intenso entre eles, fique alerta: pode ser a pessoa que você está esperando desde o dia em que nasceu. 

Se o toque dos lábios for intenso, se o beijo for apaixonante, e os olhos se encherem d’água neste momento, perceba: existe algo mágico entre vocês. 

Se o primeiro e o último pensamento do seu dia for essa pessoa, se a vontade de ficar juntos chegar a apertar o coração, agradeça: Deus te mandou um presente: O Amor. 

Por isso, preste atenção nos sinais - não deixe que as loucuras do dia-a-dia o deixem cego para a melhor coisa da vida: O Amor.

Carlos Drummond de Andrade