sábado, 1 de março de 2014

História evaporada

Evaporou-se.
A sensação que as coisas se evaporam, rapidamente como álcool etílico despejado pelo chão.
Depois também é difícil lidar com os factos.
Aquele casal de velhotes no café. Ele lê o jornal, ela faz o sudoku fervorosamente com lápis, borracha e caneta, sem tirar os olhos uma única vez da folha.
Bebi o meu café e pensei no que tinha sonhado, mas não me lembrava.
Na televisão, a imagem piscava continuamente, por avaria, sem arranjo, de televisor antigo, transmite um programa de natureza selvagem, algures numa ilha e sua floresta tropical, de insectos, cobras e lagartos.
Enquanto escrevo no diário, e revejo o que tinha escrito em dias anteriores, observo o que se passa à volta, sinto-me ao mesmo tempo num estado meio hipnótico, com um olhar meio vago, meio perdido, naquele ambiente de café que parou no tempo, algures nos anos oitenta.
Gosto de lugares assim que não acompanham os tempos de hoje, não correm atrás das modas, não correm atrás de nada, ou então correm apenas atrás de si mesmos, ficaram especados, a assumirem aquilo que são, sem quererem tornar-se especialmente em nada, mas acabam por se tornar, exactamente por essa mesma razão, ganham personalidade, característica própria, genuidade, unicidade.
É algo que faz falta nos tempos que correm, e a quem, que também corre atrás dos tempos que correm, que por vezes é atrás de nada.

Texto: Clara Marchana