domingo, 19 de janeiro de 2014

E Liszt que continua a tocar no mp3

Aquele rapaz que parece chocalhar a cabeça, enquanto escuta a música no mp3, o africano à sua frente também escuta música, mas adormeceu num sono profundo de cabeça para cima.
Ela também escuta no mp3, a Valsa Lenta de Liszt. A outra rapariga no banco do compartimento de trás deixou cair o brinco da orelha, em cima do seu casaco, apoiado em cima das pernas, tem umas unhas de gel verde brilhante. 
Toda ela é brilhante aliás, o cabelo preto esticado, o colar brilhante pousado no peito, as unhas verdes, o brinco no nariz, a camisa de renda preta acetinada, os anéis de pedras brilhantes, pedras falsas brilhantes, e a senhora ao seu lado que folheia o jornal.
E Liszt que continua a tocar nos seus ouvidos.
Ela que escuta a Valsa Lenta, pensa em como gostaria de fazer alguma coisa de bem na vida, gostaria muito, muito de saber de facto de fazer alguma coisa bem na vida. 
E põe-se a imaginar que ele aparece, como que por brincadeira, com a música ao colo, fazendo com que tudo à sua volta pareça leve e pouco sério. 
Uma senhora ao seu lado roda continuamente o chapéu de chuva fechado, apoiado no chão, tem na cabeça um chapéu impermeável, com quadrados pequeninos desenhados e costurados a linha branca, enquanto Liszt continua a tocar nos seus ouvidos. 
Ele, mas não Liszt, o outro em quem há pouco pensava, é banda sonora, ele poderia ser isso, anestesia de sonhos para uma realidade composta por demasiados nervos para se conseguir mastigar e engolir, ou então um filtro protetor colorido, onde tudo se poderia tornar película de filme, para conseguirmos manter a distância certa, entre o olhar e os acontecimentos. 
Ele ainda não existe, mas poderia existir.
E Liszt continua a tocar, juntamente com a rapariga mestiça que está sentada à sua frente, que fala ao telemóvel continuamente, desde o inicio da viagem deste comboio, com o rosto colado ao vidro da janela. 
Às vezes há um olhar fugidio, fugaz, que se cruza com o dela, ou existem aqueles olhares que permanecem mais um pouco pousados nela, ela sente-os e olha depois, mas logo a seguir são estes que descruzam com o seu olhar. 
A curiosidade também espreita por vezes, por quem está sentado ao seu lado, para aquilo que escreve. 
Que engraçado. E se ela deixasse que olhassem? 
O querer ver, que mal tem isso, em querer ver, em ler o que o outro escreve? 
Tão sincero. 
Ver, olhar, ser visto, olhado, tocado, procurarmos no outro por nós próprios, queremos sentir-nos tocados, vivos, sentidos.
Será o amor o resumo, a síntese? 
Será esse o lugar que no final, gostaríamos de encontrar? 
E de preferência sem querer, que fica mais bonito.

Texto: Clara Marchana

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