quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Passos orvalhados

O fogo.
O céu azul limpo. O sol em esplendor num tempo frio e húmido.
Terra verde brilhante magicamente orvalhada esta manhã enquanto caminhava para passear a Lucy.
Tudo à volta em silêncio, passos no orvalho da erva, pássaros cruzavam linhas no ar, rebentavam energia nas suas asas e assobios.
Segredos nas asas deles, segredos da vida secreta que te mima e abraça, quando ao redor dela te encontras em silêncio ou a falar baixinho, como uma criança pura no fulgor do encanto inicial.

Texto: Clara Marchana

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Confissões inesperadas de rua

Hoje uma senhora baixinha, escondida, silenciosa, anciã, desfez o seu rosto em lágrimas perto de mim, sem se conseguir conter, ao acarinhar a minha cadela que estava à porta de sua casa. Recordou-se do seu cão que tinha partido há duas semanas, confessou-me que lhe fazia muita falta, sente-se só e ele era a sua companhia. Meteu a chave no portão de sua casa, e entrou silenciosa e tímida. Escondida e prostrada na sua emoção.

Texto: Clara Marchana

Rendermo-nos à fragilidade

Rendermo-nos à fragilidade é arrancar com força, aquilo que mais nos agarra.
Está-me a custar a passar. Nunca pensei que doesse tanto.
Torna-se uma dor quase física, entre a garganta e o esterno até ao diafragma. Latejante no plexo solar.

Aproximar-me dela, foi saber um pouco mais de mim, aproximar-me sem medo da morte, os braços dela, também é uma mulher, também é a brincar.
E assim fui andando a saber, ao sabor do desconhecido, saber no escuro.
Queria ir, ver mais, sem sons, sem ter de querer, sem ter de ser alguém, algo.
Queria ver, sentir, caminhar na linha, tocar os braços, abraços, o espelho de mim.
O espelho de mim no outro. O espelho que cai e parte, mas não doi quando magoa, porque é querido, saber não querer ir mais além do que aquele lugar.
Não tem de ser assim.
Pode assim descansar em paz, no lugar da alma, nos braços dela, amar o desconhecido, lugar limpo, vazio sem sons e significados, limpo de palavras, de agregados, de coisas, de obscuro, de livros, de carne, de loucura, de amarrares alguém para ti, sem ter na verdade esse alguém, não quero saber mais disso, mais nada vou dizer, para não suar em mergulhos delirantes de vezes e vezes repetidas.

Texto: Clara Marchana

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Alentejo Plim Plim

Estou assim aconchegada, embatida num ser que faz livres piruetas e não tem realidade, tem todas as realidades ao mesmo tempo, criações, criações de mundos e love stories. Beijos desmedidos.

Infância, Alentejo do sonho meu, montes, cheiros e flores campestres, risos e insectos, magia do imaginário, o avô da bicicleta a lavar os animais, a fonte da água pura, bacias e tanques, ameixas e dióspiros.
Livre, livre, livre de sonhar, a piscina do tanque onde aprendi a nadar, histórias contadas à meia-noite à beira das portas de casa. Resgatados os instrumentos visionários de corridas na erva com os galos atrás de mim. Sopro de mim para o universo inteiro, naves espaciais em forma de cavacas doces e brancas, leves gotas de orvalho, o frio do amanhecer, em que descubro qualquer coisa que me abala na necessidade de sentir a rebeldia de viver em laços de coisas assim mais nobres, mais beijadas, mais conscientes, mais discretas, seguras em sentidos multi-laterais. Nobre aquele que faz o que sente de verdade, sem precisar de invocar casos infinitos  de paródias lúcidas e sem expressão, sem sentido, sem amigos, sem razão, sem termos de ordem concreta universal, lucidez abrasiva que repele o destino dos homens.
Sempre andaremos às voltas na navegação perseguida pela deriva, temos todos uma mestra que cuida de nós, ou mais. Sim à vida. Sim na necessidade do brilho, da luz cintilante e discreta de plim plim.

Parece que fico especada a olhar para algures em parte alguma e capto algo que deparo e sabe-me a todos os dias, a todos os lugares ao mesmo tempo.
Viajei na tenda confusa, não sabia caminhar, tirei os véus que ofuscavam e senti, saboreei o passado remoto, mas também o presente remoto e cruel, em que largo qualquer sentido prático e só fico a sentir o outro, os outros, e eu, ali em consonância com tudo, captando forças de veias que correm em maresias e todas as naturezas e liberdades doces de quem tem dúvidas tesas e crespas.
Vou formosa e não segura, sem cântaro na mão, para destino incerto a parte alguma mas na riqueza da descoberta. O sono desconecta-me, desaba-me, abala-me, deixa-me na terra, ofuscada em pensamentos e lágrimas escondidas de noites sem dormir, sem, sem.

Somewhere ok, não sei mesmo o que pensar, uma gaivota na chaminé que vi há pouco, a fuga da realidade, a evasão, o destino, as vozes dos sons desconhecidos que abrem o mar da aventura e do silêncio, do abismo e da obrigação, da casa, do sabor da leveza, não vou sentir o que não faço, mas também o que é o destino da liberdade, de qualquer coisa que passa, que rascunha em mim no comportamento dele, que não faz nada.
Que loucura, que viagem de papel sem sentido, e não posso ser assim como este papel que não sabe ser mais branco, branco de puro que é, que não é e não sabe, e voar até ao lugar mais longínquo, mais inóspito, mais vago, mais absurdo. A realidade assombra alguém, algumas pessoas carentes, de falta de sábios, de casa, de lugar em mim, em ti, não vou, não sei, lá, lá, lá, lavar a alma com açúcar, com i.

Então onde é que ia? Bem, bem, bem, para lá do universo indescritível, hoje não sinto a leveza, abre-se-me a garganta com vespas e abelhas e círculos obtusos em sensações e risos.

E também não faz sentido. Vais entrar em loops de risos, e em lá, lá, lá de lugares e cinturas pélvicas imaginárias em que a força é muito grande.
Pronto, recomeço a divagação de vidas e sentires irreais, reais, e juntos para sempre, sons em sons de máquinas e folhas, rascunhos, espirros e a minha caneta escreve algo, e mais uma palavra híbrida e límpida.

Texto: Clara Marchana

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Drummond

"Não deixe o amor passar"

Quando encontrar alguém e esse alguém fizer seu coração parar de funcionar por alguns segundos, preste atenção: pode ser a pessoa mais importante da sua vida. 


Se os olhares se cruzarem e, neste momento, houver o mesmo brilho intenso entre eles, fique alerta: pode ser a pessoa que você está esperando desde o dia em que nasceu. 

Se o toque dos lábios for intenso, se o beijo for apaixonante, e os olhos se encherem d’água neste momento, perceba: existe algo mágico entre vocês. 

Se o primeiro e o último pensamento do seu dia for essa pessoa, se a vontade de ficar juntos chegar a apertar o coração, agradeça: Deus te mandou um presente: O Amor. 

Por isso, preste atenção nos sinais - não deixe que as loucuras do dia-a-dia o deixem cego para a melhor coisa da vida: O Amor.

Carlos Drummond de Andrade

sábado, 1 de março de 2014

História evaporada

Evaporou-se.
A sensação que as coisas se evaporam, rapidamente como álcool etílico despejado pelo chão.
Depois também é difícil lidar com os factos.
Aquele casal de velhotes no café. Ele lê o jornal, ela faz o sudoku fervorosamente com lápis, borracha e caneta, sem tirar os olhos uma única vez da folha.
Bebi o meu café e pensei no que tinha sonhado, mas não me lembrava.
Na televisão, a imagem piscava continuamente, por avaria, sem arranjo, de televisor antigo, transmite um programa de natureza selvagem, algures numa ilha e sua floresta tropical, de insectos, cobras e lagartos.
Enquanto escrevo no diário, e revejo o que tinha escrito em dias anteriores, observo o que se passa à volta, sinto-me ao mesmo tempo num estado meio hipnótico, com um olhar meio vago, meio perdido, naquele ambiente de café que parou no tempo, algures nos anos oitenta.
Gosto de lugares assim que não acompanham os tempos de hoje, não correm atrás das modas, não correm atrás de nada, ou então correm apenas atrás de si mesmos, ficaram especados, a assumirem aquilo que são, sem quererem tornar-se especialmente em nada, mas acabam por se tornar, exactamente por essa mesma razão, ganham personalidade, característica própria, genuidade, unicidade.
É algo que faz falta nos tempos que correm, e a quem, que também corre atrás dos tempos que correm, que por vezes é atrás de nada.

Texto: Clara Marchana

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Embrenhada na noite

Ainda há quem desconheça o Amor, pelo menos assim oiço dizer. E eu também se calhar. Será que alguém conhece verdadeiramente o amor? 
Se calhar também não sei o que é amar. 
Será mesmo preciso sabê-lo? Talvez baste apenas sentir esse território para sempre desconhecido e misterioso. 
Entregarmo-nos verdadeiramente a esse lugar, a essa manifestação, oferecê-lo ao outro, pegar no coração que trago nas mãos, e como alguém me disse um dia, que também trazia o coração nas mãos, e que vagueava pelo mundo, tão somente para o depositar nas mãos de um outro.
Há quem não saiba se ama, por não ter a certeza, há quem apenas se encontre apaixonado. Viver apaixonado pela vida, pelos outros, por aquilo que se faz, por tantos detalhes. Qual a diferença, qual o caminho para cada um deles? Entre os dois, qual o caminho?

Texto: Clara Marchana


Poem of the Butterflies 

The people of this world are like the three butterflies
in front of a candle's flame.
The first one went closer and said:
I know about love.
The second one touched the flame
lightly with his wings and said:
I know how love's fire can burn.
The third one threw himself into the heart of the flame
and was consumed. He alone knows what true love is.

 de Mawlānā Jalāl-ad-Dīn Muhammad Rūmī

domingo, 19 de janeiro de 2014

E Liszt que continua a tocar no mp3

Aquele rapaz que parece chocalhar a cabeça, enquanto escuta a música no mp3, o africano à sua frente também escuta música, mas adormeceu num sono profundo de cabeça para cima.
Ela também escuta no mp3, a Valsa Lenta de Liszt. A outra rapariga no banco do compartimento de trás deixou cair o brinco da orelha, em cima do seu casaco, apoiado em cima das pernas, tem umas unhas de gel verde brilhante. 
Toda ela é brilhante aliás, o cabelo preto esticado, o colar brilhante pousado no peito, as unhas verdes, o brinco no nariz, a camisa de renda preta acetinada, os anéis de pedras brilhantes, pedras falsas brilhantes, e a senhora ao seu lado que folheia o jornal.
E Liszt que continua a tocar nos seus ouvidos.
Ela que escuta a Valsa Lenta, pensa em como gostaria de fazer alguma coisa de bem na vida, gostaria muito, muito de saber de facto de fazer alguma coisa bem na vida. 
E põe-se a imaginar que ele aparece, como que por brincadeira, com a música ao colo, fazendo com que tudo à sua volta pareça leve e pouco sério. 
Uma senhora ao seu lado roda continuamente o chapéu de chuva fechado, apoiado no chão, tem na cabeça um chapéu impermeável, com quadrados pequeninos desenhados e costurados a linha branca, enquanto Liszt continua a tocar nos seus ouvidos. 
Ele, mas não Liszt, o outro em quem há pouco pensava, é banda sonora, ele poderia ser isso, anestesia de sonhos para uma realidade composta por demasiados nervos para se conseguir mastigar e engolir, ou então um filtro protetor colorido, onde tudo se poderia tornar película de filme, para conseguirmos manter a distância certa, entre o olhar e os acontecimentos. 
Ele ainda não existe, mas poderia existir.
E Liszt continua a tocar, juntamente com a rapariga mestiça que está sentada à sua frente, que fala ao telemóvel continuamente, desde o inicio da viagem deste comboio, com o rosto colado ao vidro da janela. 
Às vezes há um olhar fugidio, fugaz, que se cruza com o dela, ou existem aqueles olhares que permanecem mais um pouco pousados nela, ela sente-os e olha depois, mas logo a seguir são estes que descruzam com o seu olhar. 
A curiosidade também espreita por vezes, por quem está sentado ao seu lado, para aquilo que escreve. 
Que engraçado. E se ela deixasse que olhassem? 
O querer ver, que mal tem isso, em querer ver, em ler o que o outro escreve? 
Tão sincero. 
Ver, olhar, ser visto, olhado, tocado, procurarmos no outro por nós próprios, queremos sentir-nos tocados, vivos, sentidos.
Será o amor o resumo, a síntese? 
Será esse o lugar que no final, gostaríamos de encontrar? 
E de preferência sem querer, que fica mais bonito.

Texto: Clara Marchana