domingo, 3 de março de 2013

Higiéne-bulímico literária

Chega.
Vou escrever. Qualquer coisa que seja.
Abusar das palavras, lambuzar-me da escrita, escrever demais.
Escrever até enjoar.
Coisas sem sentido, até sem interesse.
Que vergonha se poderá ter de escrever?
Escrever mal, coisas ridículas? Criticas a receber?
Que poderá acontecer, se não se escrever bem?
Ninguém te quererá ler?
É a vergonha de mostrar demasiado?
Mostrar demais, chegaremos a mostrar demasiado através de um texto, conseguiremos ver esse lugar do além do outro, conseguiremos atingir esse ponto na leitura de um texto?
Ver demasiado de quem o escreve?
E depois? O que acontece?
O desinteresse.
Seremos assim tão diferentes uns dos outros para nos escondermos?
Ser apenas desinteressante.
Gosto dos ângulos cegos de um livro.
Existem coisas que por mais que possamos ler, nunca iremos descobrir, é isso que mantém o leitor aceso, agarrado a um texto, apaixonado por alguém, por uma obra de arte, uma paisagem que te chama, uma sensação que te apanha, qualquer coisa que seja,
são essas curvas sem visibilidade, onde não sabemos o que vem a seguir, quem ou o que vem lá,
é esse o mistério que nos prende, que nos enche, que nos faz perseguir, procurar, espreitar.
Vou escrever, escrever até me fartar.

texto: Clara Marchana

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