sábado, 12 de janeiro de 2013

Contrariedades imprevistas

- Esta noite gostava de ir ao teatro ver um espetáculo de dança, mas nao tenho dinheiro - disse-me ela, meio chorosa.
Tinha-me contado que nesse dia, também tinha batido com a cabeça, duas vezes na maçaneta da porta da varanda da cozinha, enquanto estendia a roupa no estendal do lado de fora da janela, tinha-se baixado para pegar nas molas. O cesto das molas estava no chão. Duas vezes uma a seguir a outra, à segunda rebentou-lhe a paciência e explodiu num choro. Correu para a casa de banho para se olhar ao espelho, na testa, um alto na cabeça e as lágrimas que lhe corriam pela cara abaixo. Chorava irritada, não só por aquilo que lhe tinha acontecido, mas por tudo o que vivia naqueles dias, ao mesmo tempo pensava, em todas as vezes que se sentiu vitima, e que desta vez não se sentia assim, não se lamentava, chorava apenas de raiva, de tanta coisa ao mesmo tempo. Estava diferente. Tinha mudado.
Pôs água na cara, mas queria era molhar-se toda, essa era a sua vontade, sem se importar se iria ficar molhada, a água a escorrer-lhe na cara e foi para a cozinha, acabar de estender a roupa, a testa latejava enquanto se movimentava, mas soube-lhe bem da sensação do vento na cara, o fresco, misturado no rosto molhado. Abriu depois o congelador para tirar gelo, que estava numa forma que tinha pequenos cubos de gelo em forma de frutas, mas o gelo não saía, quantas contrariedades num curto espaço de tempo, quanta irritação, abriu a torneira do lava-louça para pôr o gelo debaixo de água e tentava forçar o gelo a sair, que não saía de maneira nenhuma, e só passado algum tempo, foram saindo os cubos de gelo, um a um, uma maçã, um morango, e cachos de uvas. Desatou novamente a chorar. Pegou nalguns cubos e colocou num saquinho de plástico, para pôr na cara.
Tinha ficado com um galo enorme.
E depois começou a chover.


Texto: Clara Marchana
Imagem:  Louise Bourgeois "Be Calm"


segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

"In quel preciso momento"

«Scrivi, ti prego. Due righe sole, almeno, anche se l’animo è sconvolto e i nervi non tengono più. Ma ogni giorno. A denti stretti, magari delle cretinate senza senso, ma scrivi. Lo scrivere è una delle più ridicole e patetiche nostre illusioni. Crediamo di fare cosa importante tracciando delle contorte linee nere sopra la carta bianca. Comunque, questo è il tuo mestiere, che non ti sei scelto tu ma ti è venuto dalla sorte, solo questa è la porta da cui, se mai, potrai trovare scampo. Scrivi, scrivi. Alla fine, fra tonnellate di carta da buttare via, una riga si potrà salvare. (Forse)».

Dino Buzzati, In quel preciso momento.