domingo, 8 de dezembro de 2013

Esforço anti-onírico

O esforço que ela faz para não sonhar. Para não se envolver, para não criar expectativas, para não escapar da realidade.
Ancorada pelos pés à terra para não ir sonhando por aí.
Mas não é fácil, o seu corpo transforma-se, o seu corpo volátil, etéreo, camaleónico, metamórfico.
Os sonhos, as divagações sempre foram o seu alimento.
Ela quer acreditar que será melhor para ela domesticar essa água selvagem, inquieta, esse bicho disperso dentro de si, quase que dependente, ou senão dependente em sair a toda a hora da realidade e a conjeturar realidades pouco palpáveis, explicações demasiado fantasiosas acerca de tudo.

Texto: Clara Marchana

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Xadrez das sombras

Terra mexida de um corpo emotivo,
 rio de gotas salgadas que correm pela face sem cessar,
voam os pássaros medrosos,
fogem as fronteiras dos risos,
cava fundo uma dor antiga e perdida na dimensão interna do ser.
As bússolas vagueiam, saltitam desorientadas por  toda a parte, escapam.
As sombras avançam como peões de xadrez, apoderam-se de um cisne indefeso, que não sabe como sair dali, e aguarda que tudo passe.
Só o tempo o dirá, e não adianta exigir que ele avance, pois o tempo é mestre de si.

Texto: Clara Marchana

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

pontes tortas

Ficámos a olhar o oceano de frente, as emoções bailavam histéricas...


Pensava em como era fácil entender o significado das palavras, quando se encontram sozinhas, mas o difícil era entender quem as pronuncia, e as transporta, ou decide apenas ser transportado por estas. É como tentar chegar à raiz das metáforas. Que quererão dizer? Que revelam? É como várias pessoas cozinharem o mesmo prato de comida, com os mesmos ingredientes, as mesmas quantidades, e mesmo assim o prato sairá diferente, dependendo de quem o cozinhou. 
Queria estar contigo, ficar mais tempo, prolongar-te a presença, mas não chegavas à raiz das minhas metáforas, nem eu das tuas. Ou pelo menos era o que me dizias, que não te entendia. 
Duas crianças a olharem o pôr do sol, enquanto ocorriam batalhas dentro delas, enquanto a impossibilidade as separava cada vez mais, o pôr do sol descia, caía dentro do horizonte. Não vás já sol, deixa-me imaginar que ele está aqui comigo a ver-te também. Queria pensar que ainda havia esperança, que um dia ainda nos iríamos encontrar e amar, sem traduções, sem pontes tortas, exatamente na mesma metáfora, no mesmo significado, na mesma raiz, no mesmo sabor da maturidade. 

Texto: Clara Marchana

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Porta de fogo


Quem és tu, ó guardião, mensageiro dos deuses, deus dos cervos, força de Marte, que chegas de repente, arrombando todas as portas, entras sem avisares que chegas?
Abri um pouco mais a porta entreaberta para ver quem era, e assim que a abri, o efeito foi de desarrumação.
Torno a arrumar tudo rapidamente vezes sem conta, e vezes sem conta tudo se desarruma de novo. Talvez tenha de ficar tudo desarrumado por uns tempos, para se poder novamente arrumar tudo, mas de uma nova forma.
Não estava à espera que isto acontecesse, nem esperava que fosse este o efeito.
Apareceste e desapareceste, numa pequena viagem mágica e passageira, mas assim que poisaste na minha terra, o lugar abriu-se e pertenceu-te, talvez te tenha sempre pertencido, tem a tua forma. O eco daquele lugar, confessou-me, sussurrou durante a noite nos sonhos, que aquele lugar também é a tua terra.
Agora fico à espera que voltes. Só assim se poderá completar o movimento.

Texto: Clara Marchana

domingo, 14 de julho de 2013

Quantas vezes ela desejou que ele lhe cantasse uma canção, como se fosse uma canção de embalar ou uma oração, e depois adormecer nos seus braços, naquela cidade caótica que lhe bicava na mesma ferida todos os dias, pudesse assim encontrar um sentido para ali estar, ter uma visão e vislumbrar através do nevoeiro uma gota de esperança.

"Ti proteggerò dalle paure delle ipocondrie,
dai turbamenti che da oggi incontrerai per la tua via.
Dalle ingiustizie e dagli inganni del tuo tempo,
dai fallimenti che per tua natura normalmente attirerai.
Ti solleverò dai dolori e dai tuoi sbalzi d'umore,
dalle ossessioni delle tue manie.
Supererò le correnti gravitazionali,
lo spazio e la luce
per non farti invecchiare.
E guarirai da tutte le malattie,
perché sei un essere speciale,
ed io, avrò cura di te.
Vagavo per i campi del Tennessee
(come vi ero arrivato, chissà).
Non hai fiori bianchi per me?
Più veloci di aquile i miei sogni
attraversano il mare.

Ti porterò soprattutto il silenzio e la pazienza.
Percorreremo assieme le vie che portano all'essenza.
I profumi d'amore inebrieranno i nostri corpi,
la bonaccia d'agosto non calmerà i nostri sensi.
Tesserò i tuoi capelli come trame di un canto.
Conosco le leggi del mondo, e te ne farò dono.
Supererò le correnti gravitazionali,
lo spazio e la luce per non farti invecchiare.
Ti salverò da ogni malinconia,
perché sei un essere speciale ed io avrò cura di te...
Io si, che avrò cura di te."

Franco Battiato in La Cura

domingo, 3 de março de 2013

Higiéne-bulímico literária

Chega.
Vou escrever. Qualquer coisa que seja.
Abusar das palavras, lambuzar-me da escrita, escrever demais.
Escrever até enjoar.
Coisas sem sentido, até sem interesse.
Que vergonha se poderá ter de escrever?
Escrever mal, coisas ridículas? Criticas a receber?
Que poderá acontecer, se não se escrever bem?
Ninguém te quererá ler?
É a vergonha de mostrar demasiado?
Mostrar demais, chegaremos a mostrar demasiado através de um texto, conseguiremos ver esse lugar do além do outro, conseguiremos atingir esse ponto na leitura de um texto?
Ver demasiado de quem o escreve?
E depois? O que acontece?
O desinteresse.
Seremos assim tão diferentes uns dos outros para nos escondermos?
Ser apenas desinteressante.
Gosto dos ângulos cegos de um livro.
Existem coisas que por mais que possamos ler, nunca iremos descobrir, é isso que mantém o leitor aceso, agarrado a um texto, apaixonado por alguém, por uma obra de arte, uma paisagem que te chama, uma sensação que te apanha, qualquer coisa que seja,
são essas curvas sem visibilidade, onde não sabemos o que vem a seguir, quem ou o que vem lá,
é esse o mistério que nos prende, que nos enche, que nos faz perseguir, procurar, espreitar.
Vou escrever, escrever até me fartar.

texto: Clara Marchana

sábado, 12 de janeiro de 2013

Contrariedades imprevistas

- Esta noite gostava de ir ao teatro ver um espetáculo de dança, mas nao tenho dinheiro - disse-me ela, meio chorosa.
Tinha-me contado que nesse dia, também tinha batido com a cabeça, duas vezes na maçaneta da porta da varanda da cozinha, enquanto estendia a roupa no estendal do lado de fora da janela, tinha-se baixado para pegar nas molas. O cesto das molas estava no chão. Duas vezes uma a seguir a outra, à segunda rebentou-lhe a paciência e explodiu num choro. Correu para a casa de banho para se olhar ao espelho, na testa, um alto na cabeça e as lágrimas que lhe corriam pela cara abaixo. Chorava irritada, não só por aquilo que lhe tinha acontecido, mas por tudo o que vivia naqueles dias, ao mesmo tempo pensava, em todas as vezes que se sentiu vitima, e que desta vez não se sentia assim, não se lamentava, chorava apenas de raiva, de tanta coisa ao mesmo tempo. Estava diferente. Tinha mudado.
Pôs água na cara, mas queria era molhar-se toda, essa era a sua vontade, sem se importar se iria ficar molhada, a água a escorrer-lhe na cara e foi para a cozinha, acabar de estender a roupa, a testa latejava enquanto se movimentava, mas soube-lhe bem da sensação do vento na cara, o fresco, misturado no rosto molhado. Abriu depois o congelador para tirar gelo, que estava numa forma que tinha pequenos cubos de gelo em forma de frutas, mas o gelo não saía, quantas contrariedades num curto espaço de tempo, quanta irritação, abriu a torneira do lava-louça para pôr o gelo debaixo de água e tentava forçar o gelo a sair, que não saía de maneira nenhuma, e só passado algum tempo, foram saindo os cubos de gelo, um a um, uma maçã, um morango, e cachos de uvas. Desatou novamente a chorar. Pegou nalguns cubos e colocou num saquinho de plástico, para pôr na cara.
Tinha ficado com um galo enorme.
E depois começou a chover.


Texto: Clara Marchana
Imagem:  Louise Bourgeois "Be Calm"


segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

"In quel preciso momento"

«Scrivi, ti prego. Due righe sole, almeno, anche se l’animo è sconvolto e i nervi non tengono più. Ma ogni giorno. A denti stretti, magari delle cretinate senza senso, ma scrivi. Lo scrivere è una delle più ridicole e patetiche nostre illusioni. Crediamo di fare cosa importante tracciando delle contorte linee nere sopra la carta bianca. Comunque, questo è il tuo mestiere, che non ti sei scelto tu ma ti è venuto dalla sorte, solo questa è la porta da cui, se mai, potrai trovare scampo. Scrivi, scrivi. Alla fine, fra tonnellate di carta da buttare via, una riga si potrà salvare. (Forse)».

Dino Buzzati, In quel preciso momento.