segunda-feira, 3 de setembro de 2012

o sabor cristalizado

Ela não sabe por onde começar. Não sabe por onde começar a arrumar.
Tudo está a meio, por fazer, há muito tempo.
Roupas para dar, livros para ler, e-mails para enviar, limpezas por fazer, janelas por limpar, aquele enorme saco de fotografias por organizar, trabalhos inacabados, decisões por tomar, reencontrar amigos, relações que ficaram a meio, a meio de um frase que não se chegou a terminar, um segredo que não se chegou a confessar.
O fio do tempo passa, e ela deixa-se ficar, incrédula, enquanto o lixo, e o caos aumentam por todos os lados, dentro e fora dela.
Nunca gostou de fruta cristalizada, mas sente-se como uma, uma daquelas frutas cristalizadas do bolo-rei, brilhantes, demasiado doces, enquanto o tempo vai escorrendo à sua frente, irrompendo a tela da vida, impiedoso e sapiente.
Apaixonou-se, é certo, por uma fotografia antiga, uma memória que lhe saltou como um peixe da água, que a surpreendeu ao sussurrar o seu nome, vezes sem conta, sem cessar. Agora não a larga. Chega a sonhar que joga às escondidas com ela e aquela antiga imagem de si própria.
Assusta-lhe a ferrugem, pensar que está a evoluir, mas em vez disso enferrujar.
Enferrujar nas ideias, em cada passo, no pensamento, nas decisões, e que afinal nem tenha saído sequer do lugar, nada se moveu nem um milímetro.

texto: Clara Marchana