segunda-feira, 3 de setembro de 2012

o sabor cristalizado

Ela não sabe por onde começar. Não sabe por onde começar a arrumar.
Tudo está a meio, por fazer, há muito tempo.
Roupas para dar, livros para ler, e-mails para enviar, limpezas por fazer, janelas por limpar, aquele enorme saco de fotografias por organizar, trabalhos inacabados, decisões por tomar, reencontrar amigos, relações que ficaram a meio, a meio de um frase que não se chegou a terminar, um segredo que não se chegou a confessar.
O fio do tempo passa, e ela deixa-se ficar, incrédula, enquanto o lixo, e o caos aumentam por todos os lados, dentro e fora dela.
Nunca gostou de fruta cristalizada, mas sente-se como uma, uma daquelas frutas cristalizadas do bolo-rei, brilhantes, demasiado doces, enquanto o tempo vai escorrendo à sua frente, irrompendo a tela da vida, impiedoso e sapiente.
Apaixonou-se, é certo, por uma fotografia antiga, uma memória que lhe saltou como um peixe da água, que a surpreendeu ao sussurrar o seu nome, vezes sem conta, sem cessar. Agora não a larga. Chega a sonhar que joga às escondidas com ela e aquela antiga imagem de si própria.
Assusta-lhe a ferrugem, pensar que está a evoluir, mas em vez disso enferrujar.
Enferrujar nas ideias, em cada passo, no pensamento, nas decisões, e que afinal nem tenha saído sequer do lugar, nada se moveu nem um milímetro.

texto: Clara Marchana

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Murakami

" - Escrever um romance é mais ou menos a mesma coisa. Por mais ossadas que consigas reunir, por mais maravilhosa que seja a porta que logres construir, só isso não servirá para dar forma a um romance vivo, a uma obra de fôlego. Uma história não é uma coisa deste mundo. Uma verdadeira história requer uma espécie de batismo mágico capaz de ligar este mundo ao outro. "

Murakami, Haruki, Sputnik, Meu Amor, tradução de Maria João Lourenço

terça-feira, 31 de julho de 2012

1 historia por dia (ou por noite) # 10

Ela arrastou-se para o barco,
exausta, de tanta luta perdida,
tanto esforço, tão só.
Sentou-se num dos bancos,
e após alguns minutos a viagem iniciou.
O barco não estava cheio, como costuma estar às horas de ponta,
os olhos ardiam-lhe por ver demais, por tomar consciência das coisas,
o confronto com a derrota, com o erro, com o abandono,
fora sempre abandonada desde o inicio e ali estava ela uma vez mais abandonada pelo destino ou por uma escolha errada, ou um percurso que parecia não fazer mais sentido,
pelo mundo que a tinha esquecido, ou não era bem isso que queria explicar, o mundo nem sequer a conhecia, e ela própria não conhecia o mundo verdadeiramente, mas era assim que se sentia.
No pesadelo da noite passada,
estava a subir umas escadas e, no topo da escadas estava um homem. Enquanto subia, esta figura masculina ia ficando mais nítida, e quando se aproxima dele, este olha para ela, com um olhar não de homem, não de humano, mas parecia revelar-se a representação de uma entidade sombria e malévola, qual anjo negro, que lhe dirige a palavra,
diz-lhe que ela não vai conseguir subir até ali, e em vez disso vai cair daquelas escadas.
Ela não responde, olha-lhe apenas, e em segundos, um mar de emoções, ansiedades se desencadeou, pensamentos, escolhas, decisões, e sem hesitar, olha-o profundamente, querendo ver mais além, o que se esconderia por detrás de toda aquela figura, e o que restaria depois do medo e susto?
Assustar-se, fugir dali ou forçar-se a acordar, seria o seu primeiro impulso, mas surpreendentemente desta vez não, ficou a olhar, à espera do que poderia acontecer, em braço de ferro com aquela sombra, e depois responde-lhe por essa mesma ponte que são os seus olhos, sem pronunciar uma única palavra, mostra-lhe sem medo, que tal coisa não iria acontecer, e de facto não aconteceu. Este, em vez disso, começou a ficar pequeno, tão pequeno, que perdeu a importância que lhe tinha sido dada.
Ela acordou aliviada, sentia uma serenidade que ha muito esperava, uma serenidade que a libertava.
E agora sentada no barco, olhava pela janela, tinha a sensação de ter vencido uma batalha, qualquer coisa a assegurava, uma gota cintilante espreitava e ela sentia.

texto: clara marchana

quarta-feira, 23 de maio de 2012

O presbitério

O relógio de pulso desfez-se nas suas mãos,
espalhou-se em mil pedaços,
quis arranjá-lo, 
meticulosamente mexeu nos ponteiros, que saíram do lugar,
tudo se misturou,
minutos com horas, horas com segundos,
quanto mais o tentava consertar,
mais tudo se misturava.
Perdeu o tempo
Abandonou a vontade de tentar,
tem de sair,
está atrasada, não sabe das horas,
mas já não importa.
Ele insiste, não a quer deixar ir,
naquele presbitério,
quer abraçá-la, 
mesmo com o tempo perdido,
ela tem de correr,
e ofegante, saltou dali com o coração na boca.

Texto: Clara Marchana

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Névoa rosca

Beijo-te, sinto-te, raspo-te na onda do mar ligeira,
mas não subtil,
malícia sincera, cintilante,
contar as silenciosas gotas amargas que sopram,
fraquejam na sensação de não dizer, não fazer, não amar,
saber gostar de alguém é cantar as alegrias na névoa rosca a saber a rosas.

Hoje só vejo miséria nas ruas.
Ainda bem que há livros que cheiram a chuva.


Texto: Clara Marchana

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Tanta coisa de saudade

Aquela saudade miudinha,
molha-parvos,
inquieta, pequenina,
meia escondida, 
ora dentro de mim,
ora não se sabe onde,
que se consola a si mesma, 
quando é concretizada,
que não precisa de mais nada,
um sentimento a que almeja,
a querer ser mais,
mais visível.
Saudades minhas.

Texto: Clara Marchana