sábado, 26 de novembro de 2011

Interrogações espontâneas


Que fazer quando não entendem o teu estado de urgência?- pergunta-se ela a si mesma, enquanto cose dois buracos que tinha na camisola de lã preta.
Que responder a quem te olha, mas não te vê?

Texto: Clara Marchana
Obra: John White Alexander (1856-1915), " An Idle Moment" (1885)

domingo, 30 de outubro de 2011

Árvore seca


No meio de tanta coisa sem sentido,

numa sociedade cada vez mais desequilibrada,
não me resta senão confiar cada vez mais na inteligência do universo,
nos desígnios divinos.

Texto: Clara Marchana

quinta-feira, 21 de julho de 2011

domingo, 29 de maio de 2011

quarta-feira, 25 de maio de 2011

O cume


Desaparecer devagarinho,
não deixar rasto,
ninguém se vê de verdade,
poucos vêem,
talvez nem ela se veja,
mas é essa a sua vontade,
correr para os braços do silêncio,
e pedir que a embale,
ali não há correrias de querer ser, não há comparações,
existe apenas um espelho que lhe devolve a verdade, sem deformações.
E quanto mais vemos menos somos vistos pelo outro.
Andamos tão preocupados em atingir cumes fora das nossas medidas que nos esquecemos de atingir a simplicidade,
que é o cume mais difícil de alcançar,
mas o mais generoso,
que nos enriquece desde o início do caminho.

Texto: Clara Marchana
Fotografia: encontrada na net sem identificação

quarta-feira, 13 de abril de 2011

"In the Name of the Land"

E se o vento?


O vento sopra forte,
e o que é que acontece quando sonhamos que o vento sopra forte?
Acordamos e ele está para ali a falar alto,
a correr,
e a trazer notícias de mudança,
que paralelo comunicante.

Texto: Clara Marchana

terça-feira, 12 de abril de 2011

Alexandre O'Neil

"O poeta está
só, completamente só.
Do nariz vai tirando alguns minutos
De abstracção, alguns minutos
Do nariz para o chão
Ou colados sob o tampo da mesa
Onde o poeta é todo cotovelos
E espera um minuto que seja de beleza.
Mas o poeta
é aos novelos;
Mas o poeta já não tem a certeza
De segurar a musa, aquela
Que tantas vezes arrastou pelos cabelos...

A mosca Albertina,
que ele domesticava.
Vem agora ao papel, como um insecto-insulto,
Mas fingindo que o poeta a esperava...
Quase mulher
e muito mosca,
Albertina quer o poeta para si,
Quer sem versos o poeta.
Por isso fica, mosca-mulher, por ali...

-Albertina!, deixa-me
em paz, consente
Que eu falhe neste papel tão branco e insolente
Onde belo e ausente um verso eu sei que está!
-Albertina!, eu
quero um verso que não há!...

Conjugal, provocante, moreno
e azulado,
O insecto levanta, revoluteia, desce
E, em lugar do verso que não aparece,
No papel se demora com um insulto alado.
E o poeta
sai de chofre, por uns tempos desalmado..."


Albertina ou O insecto-insulto ou O quotidiano recebido como mosca de Alexandre O'Neil (1924-1986, Lisboa)

sábado, 5 de março de 2011

Calados encontros

Encontro com a pureza,
com a beleza,
com a sinceridade,
com a inocência,
sussurrantes,
vieram ter comigo e abraçaram-me.


Texto: Clara Marchana
Fotografia: Mark Sink

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Anfitriã



Dias chuvosos hospedados por uma inesperada letargia animada,
que não pára de dançar à minha volta,
e teima em mostrar-se nos seus virtuosos rodopios esvoaçantes,
para depois mergulhar,
queda livre, em direcção ao meu corpo,
muito gosta ela de ser vista,
vaidosa,
não a desculpo,
se ao menos ela se cansasse,
a letargia por vezes é danada.

Texto: Clara Marchana
Obra: John White Alexander (1856-1915), " Memories" (1903)

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Resmunguices do meio


Boquiaberta não consegue pronunciar palavra,
mover sentidos,
vagueia por parte nenhuma,
em exasperação inusitada, inquieta,
trasfega páginas de livros sem rumo, diários sem lógica,
resmunga baixinho cansada,
interroga-se como foi ali parar,
resume que desta vez vai tentar sair, mal educadamente, pela porta das traseiras,
sem avisos, sem malas, sem nada.
Pode ser que encontre saída, nova estrada.

Texto: Clara Marchana
Fotografia: Clara Marchana

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

1 história por dia #9 ou a intuição sincera

Sinceramente foi a palavra,
sincero foi o estado que a invadiu numa tarde aparentemente pouco especial.
Quero ver a côr dos teus olhos, disse para si mesma,
não tinha ninguém à sua frente.
A frase saltou-se-lhe de rompão, quis pular-lhe do peito.
Sincera é a sensação que lhe escorrega no espírito,
sem tirar nem pôr,
sem nada a acrescentar.

Texto: Clara Marchana
Obra: Alphonse Mucha (1860-1939)

sábado, 22 de janeiro de 2011

"Sobre o caminho"

Sobre o Caminho

Nada

nem o branco fogo do trigo
nem as agulhas cravadas na pupila dos pássaros
te dirão a palavra

Não interrogues não perguntes
entre a razão e a turbulência da neve
não há diferença

Não colecciones dejectos o teu destino és tu

Despe-te
não há outro caminho


Texto:
Eugénio de Andrade, in "Véspera da Água"
Obra: Lady Godiva (1898) de John Collier (1850-1934)

1 história por dia #8 ou paradoxos de locomoção



Há muitos dias que a rapariga não sai de casa com o sol nos olhos.
A única coisa que tem aprendido a fazer, é perder-se. E como o sabe fazer. Adquiriu agilidade no acto de se perder de si mesma.
Tem a sensação de não estar a andar a lugar nenhum, vive apenas presente, no momento presente, vê passar o tempo, a paisagem.
Quem sabe, se já não consegue simplesmente, ver o que está à sua frente.
Paradoxos das estradas.
Estará ela a atravessar um portão tão grande, sem se aperceber? Ou, será este tão pequeno que nem repara?
E sem se dar conta está a caminhar, a sair, e a estrada já não é a mesma, e vai finalmente em direcção ao seu encontro.

Texto: Clara Marchana

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Corpo sem recados

Porque é Janeiro,
começo devagar,
movimento a terra do meu corpo,
corpo sem encaixe, sem lugar, sem nome.
Construção de estradas inacessíveis, corpo anónimo,
assim me vai sussurrando que quer estar,
sem recados, nem visões.

Texto: Clara Marchana
Obra: Claudio Valenti, Schiena Femminile

Janeiro...



Concept: RJ Muna and Rachael Lincoln
Choreography and Performance: Rachael Lincoln
Set and Videography: RJ Muna
Editing: Cari Ann Shim Sham
A dance for camera solo.