quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Que assim seja


Que a Esperança nos nos banhe e renove de dia para dia neste Novo Ano que se aproxima.
Agradeço a todos aqueles que passam por aqui.
Bem hajam.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Um poema

Poema
II


" O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...

Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar..."

Alberto Caeiro, O Guardador de Rebanhos


Imagem: "The Wounded Angel" de Hugo Simberg (1873-1917), pintor filandês

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

1 história por dia #7 ou frio de luz


Apenas frio e nada de novo.
Saiu de casa cheia de roupa vestida, em direcção ao café do costume.
Desencantada olhava à sua volta.
Quanto aspirava aos dias em que sente que tudo crepita de vida e mistério, verdade e curiosidade com uma vontade de conhecer recíproca quando se cruza com um outro alguém, também curioso, também aprendiz de vida, também desperto, sem a máquina rotineira carimbada no rosto.
Que se passa, pensava ela, que coisa vazia, tão descomprometida, enquanto olhava em redor, nem uma troca de um único olhar vivo, em acção, um momento ou movimento em respiração pintado de vida.
Depois de tomar café volta a casa mais desencantada, mas aceita que em cada dia, em cada sombra, reside um grão de luz. E o que é a sombra senão ausência parcial de luz proporcionada pela existência de um obstáculo.


Texto: Clara Marchana
Imagem: Iman Maleki, pintor iraniano nascido em 1976 no Teerão

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

1 história por dia #6 ou ruído


Às vezes o barulho é tanto, abusivamente ruidoso, que não resta senão ficar com a impossibilidade de se tentar escutar seja o que seja.
Foi interrompida nos seus pensamentos em contrariedade, por uma rapariga que lhe pedia para se sentar na mesma mesa. Hoje o café estava cheio com as mesas todas ocupadas.
-Claro que sim- acenou ela com a cabeça.
Depois de tomar o pequeno-almoço a rapariga levantou-se, sorriu-lhe e foi-se embora, ela voltou a ficar sozinha, girando-se novamente para os seus pensamentos mal-dispostos.

Texto: Clara Marchana

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

1 história por dia #5 ou recomeço


Dia chuvoso,
existe uma certa beleza neste tipo de dias, ao menos para ela que gosta de dias chuvosos.
Entrou no café, naquele que vai todos os dias ou quase todos, à mesma hora, e apenas uma mulher sentada numa das mesas, que lia um livro sossegadamente, enquanto enrolava os cabelos com os dedos.
Hoje sentia-se um pouco distante daquele lugar, ou talvez um pouco distante de tudo em geral, imersa em qualquer coisa sem definição nenhuma, não percebendo bem de onde vinha a sensação, tinha acordado assim simplesmente.
Assistia apenas ao desenrolar daquilo que a rodeava, a mulher do livro que mudava de vez em quando de página, gente que passava na rua com os chapeús de chuva abertos, uma mulher que entra no café com um bébé transportado num pano enrolado ao peito, coberta por uns lindos xailes de lã em tons de creme, que troca um sorriso com a rapariga que escreve, e pede à empregada uma garrafa de água, empregada esta que não é a mesma dos outros dias, será uma outra, substituta, mais calada, rezingona, de olhar fugidio, e muito menos desperta, sorri apenas e forçadamente, por se aperceber que a cliente tinha um bébé, depois desta ter tirado os xailes para se recompôr e beber a água.
Depois disto a empregada olha de relance para a rapariga com um ar desconfiado, de quem não entende que prazer é que se pode ter, estar sentado à mesa de um café e escrever umas coisas num caderno e sorrir de vez em quando para os outros.
- Que rapariga esquisita, não terá ela mais nada para fazer na vida?! - talvez pense ela ou se calhar não.
É segunda-feira, recomeço.

Texto: Clara Marchana
Obra: Alicia Leal , nascida em Sancti Spiritus, Cuba em 1957

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

1 história por dia #3 ou Amantes


Assim que ela entrou no café, foi assaltada por uma imagem, que vinha de uma das mesas, dois corpos entrelaçados, num fogo lento de amor e beijos silenciosos, como se estivessem escondidos um no outro, não dando para perceber bem onde começava um e terminava o outro.
Este quadro destoava totalmente do ambiente daquele café, como se não fizesse parte daquele conto, talvez porque não estejamos habituados a ter visões destas a cada esquina de rua por onde passamos. Mas ali estavam eles, homem e mulher em ilha prazerosa.
Não se detendo com esta visão fugitiva, a rapariga continuou o seu percurso e propósito, sem se aperceber o quanto aquela visão se tinha instalado e ocupado algum lugar numa qualquer parte dentro de si.
A rapariga dirigiu-se ao balcão, pediu o café do costume, e enquanto esperava, a mesma imagem, iluminou-se de surpresa, como se quisesse entrar, como se precisasse que alguém olhasse para ela.
Uma curiosidade nascia fazendo-lhe alguma comichão. Quem eram os forasteiros? De onde vinham? Porque estariam eles naquele lugar, àquelas horas da manhã.
Enquanto divagava em suposições, pegou no café e foi-se sentar.
Olhou novamente de relance e lá estavam eles naquele silêncio secreto, amoroso.
O casaco dele metido ao acaso e à pressa por cima da mesa, a mala dela, um saco por cima, o casaco dela desarrumado pela cadeira, e ali estavam num prolongado abraço.
Não tinha trazido o seu diário, coisa rara, mas tinha trazido uma caneta, pediu à empregada se podia tirar uma toalha de papel, daquelas que se põem na mesa às refeições e começou a escrever.
Num certo momento o casal levantou-se, e pela forma como estavam vestidos não seriam daquela cidade, mas de uma outra longe dali, de pelo menos uns 300km de distância, casacos quentes de fazenda, côres de terra, verdes escuros, lãs, algumas malas, alguns sacos, pareciam vir do frio, do norte, de uma daquelas cidades perto da montanha.
A história revelava-se aos poucos, à medida que a rapariga os olhava sem fazer barulho, ele saiu primeiro e ficou à espera dela à entrada, ela com calma vestiu o casaco grosso de fazenda comprido, que lhe cobria o vestido verde de lã, enquanto ele esperava por ela com a plenitude no rosto, e uma alegria comedida como se tivesse descoberto algo precioso, mas que ao mesmo tempo tivesse de esconder aquele amor vivido em segredo.
O telefone dela tocou, de sacos na mão, mala, casaco de fazenda grosso vestido, tentou encontrar o telemóvel, ficou parada por uns momentos a falar ao telefone, com um sorriso discreto.
Ela era casada, ele não. Eram amantes, encontravam-se poucas vezes, e deste vez tinham marcado encontro num café muito longe da cidade de onde vivem, não suportavam as saudades. Encontraram-se muito cedo, pois ainda iriam voltar, cada um às suas casas e vidas comprometidas.
Mas quando se vêem não importa onde estejam, ele atira o casaco para cima da mesa, de qualquer maneira, abraça-a de urgência e beijam-se sem acabar.

Texto: Clara Marchana
Imagem: Amantes de Eva Sanz