terça-feira, 30 de novembro de 2010

1 história por dia #2

Este homem esconde o coração.
Enquanto fala, enquanto olha, sentado à mesa, sobre uma das suas últimas viagens, tem o coração numa das mãos e esconde-o com um braço atrás das costas.
Porque razão?
Será que o esconde ou espera apenas o momento certo para o revelar?
Parece que o quer dar, mas não consegue.
Tem um cão que se chama Zé, que o acompanha sempre para onde quer que vá.
Ao que parece é músico, pianista, viaja pelo mundo mas tem medo de sonhar.
Nada de especial, apenas isto, no final acaba por contar pouco das suas viagens, fala pouco, mesmo que inicialmente pareça ser extrovertido e falador de páginas prolongadas, explode apenas por poucos segundos com grande expressão ou com uma afirmação convincente e depois apaga, desliga, como se desaparecesse do lugar onde se encontra, e quem está por perto, de boca aberta e olhar expectante, tem a sensação que se calhar alucinou com alguma visão dele, quem o escuta nem sequer tem tempo de entender que ficou por ali a história do homem viajante.
E agora levanta-se.
Deve ir para casa, mora ali perto.
A rapariga que vai todos os dias ao café à mesma hora, observa-o, e ele como se intuísse que estivesse a ser observado, olha num gesto involuntário na sua direcção,
ela baixa-se para apanhar a caneta que lhe tinha caído das mãos, ele volta-se novamente para a frente e sai, ela volta à realidade dos livros e das escritas, os seus pensamentos como folhas outonais esvoaçam para a exposição de escultura que irá ver esta tarde.

Texto: Clara Marchana

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

1 história por dia


Esta rapariga vai todos os dias ao café ao mesmo café e quase à mesma hora.
Pede o seu café ao balcão, um copo de água e senta-se à mesa, enquanto olha para o programa que passa na televisão, sobre receitas de cozinha, que dá todos os dias à mesma hora.
Enquanto olha para o programa desinteressadamente, os seus olhos vão parar mais interessados sobre aqueles que entram e saem do café, ela observa atentamente sem dar nas vistas, nem causar incómodo. Os seus olhos poisam mas não julgam.
Também olha para as duas pessoas que estão atrás do balcão a atenderem. A senhora mais velha será a dona do café ou se calhar a mulher do dono do café que hoje não se encontra, se calhar está de folga, ou de férias, ou foi ao supermercado, e uma rapariga nova que deverá ser a sua empregada.
Ela gosta de as observar, porque estas duas pessoas são engraçadas, causam-lhe uma certa curiosidade na relação que têm uma com a outra. Existe entre elas um afecto quase que familiar, um carinho, que mesmo não sendo da mesma família, parecem mãe e filha, na sua cumplicidade.
Também as acha engraçadas por uma outra razão, estas duas pessoas atrás do balcão têm um comportamento quase, ou se não mesmo, indiferente a quem entra e sai daquele café, parecem estar em casa, fazendo as suas vidas; elas almoçam, elas conversam, riem, a mais nova canta em voz bem alta, a mais nova é a mais expressiva, e o factor secundário ou quem vem em último lugar, são os clientes, que por acaso vão àquela espécie de casa tomar café e comer um bolo ou um croissant, e naquele momento quando se dirigem a elas para se fazer o pedido, por alguns segundos elas rompem esta quarta parede para atenderem, darem atenção mas só por alguns segundos, no segundo a seguir já fecharam a janela, a porta ou reconstruiram a parede e já entraram novamente na sua história.
E a rapariga que vai todos os dias ao mesmo café, à mesma hora, volta a ficar sozinha, a assistir ao filme projectado na parede invisível atrás do balcão, a observar estas duas pessoas e todas aquelas histórias que passam, entram e saem daquele café à mesma hora.
Depois de ter bebido o café muito devagar, que já tinha pago ao início, levanta-se e vai para casa, até ao dia seguinte que sairá, à mesma hora, para ir tomar café.

Texto: Clara Marchana
Fotografia: "Simone de Beauvoir, Café de Flore" (1944), Brassaï, pseudónimo de Gyula Halász, fotógrafo húngaro (1899-1984)

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

"Samaya"


"Samaya é uma dança com três mulheres considera-se que seja oriunda da era pré-cristã e que estivesse relacionada com a celebração do casamento.
A dança honra o rei Tamar, a mulher-rei da era de ouro da Geórgia nos séculos XII-XIII.
As três mulheres pensa-se que simbolizem as três musas, Arte, Poesia e Música, que estão representadas num fresco antigo da famosa catedral em Mtskheta, terra natal do rei Tamar, primeira mulher-rei na história da Geórgia, ao mesmo tempo que representam uma trindade feminina, a jovem princesa, a mulher mãe, e a anciã sábia. Estas três imagens em harmonia, reunidas num só.
As velas simbolizam a sabedoria e o conhecimento "Guiar-te-ei na vida na direcção certa."
A dança é feita pela Georgian National Ballet Sukhishvilebi, fundada em 1945.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Em nada


Ela não consegue fazer nada, escrever nada,
mover-se.
Ela não consegue nem sequer dizer que não consegue,
"-Não consigo, é uma coisa já difícil de ser dita."
Não consegue ser,
não consegue tornar-se.
Quem vai entender?
Quanto mais vai ficando fora do ritmo do mundo, mais difícil é sentir ou ter quem nos entenda,
mais difícil se torna mostrar-se,
exprimir-se,
e afirmar seja o que seja perde todo e qualquer sentido.
Quem quererá entender, quem quererá aproximar-se do nada?
Alguém se interessa pelo não conseguir?
Ninguém, nem mesmo ela.

Texto: Clara Marchana

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Nebuloso olhar


Com muito esforço ela se levanta,
os movimentos são como pesos,
o olhar enevoado,
e nada parece arrancar com fluidez.

Texto: Clara Marchana