terça-feira, 19 de outubro de 2010

Coisas que me tocam


Dias de muita água,
água que escorre pelas ruas da minha cara, pelas ruas do meu corpo,
deixo escorrer,
não construo barragens.
Por vezes nem entendo de onde vem,
são momentos subtis, quase imperceptíveis,
coisas que me tocam,
a rapariga que pede na rua, que ama tanto o seu cão e que naquele dia estava mais triste que nos outros dias,
alguém que deixa cair o manto e que não se apercebe de estar descoberto,
um olhar revelado, uma frase escapada, um gesto frágil que escorrega cá para fora.
E a água corre dos meus olhos.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Momentos


Tanta coisa para dizer,
para falar, para partilhar e fico sentada a olhar o silêncio.


Texto: Clara Marchana

Imagem: Uma Vida em Segredo, filme de 2002 com realização de Suzana Amaral, baseado na obra de Autran Dourado, fotografia de Lauro Escorel, nesta imagem a actriz Sabrina Greve que interpreta o personagem de Biela.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

"Pitanga"

" O amor nasce como raízes
com o ardor intenso do sol: os frutos
odores colhidos no tempo
floresce em janeiro, amadurece
em junho, substância nutritiva
força carnosa, avermelhada.
O amor nasce em nossa boca
na língua, entre a saliva
nos distrai dos nossos dramas
olhos vibrantes se derramam
água de coco, pitanga
no monte e nas areias o verde
o amor nasce amplamente
como raízes, grãos de semente
caem ao solo, viscoso, suculento
no mês de dezembro, verde carregado
e chuvas e chuvas
e verdes e depois vermelhos maduros
e grãos novos duros,
e depois secas sementes.
O amor nasce como raízes."

Marcia Teophilo "Amazonia respiro del mondo"

domingo, 10 de outubro de 2010

Tarquinia


Tarquinia,
terra etrusca, lugar encantado.
À medida que caminhava pela cidade, pela noite dentro, pelas suas ruas antigas, mais se revelava,
sons nocturnos de insectos,
o cheiro a fogueira, lareiras,
e algumas árvores que generosamente ofereciam o seu perfume,
enquanto os gatos perto da igreja de Santa Maria di Castella, guardiães daquele canto sagrado, tomavam banho de céu estrelado.
Perfumes e sensações que me devolviam identidade, raízes, ancestralidade, harmonia e serenidade, apagando qualquer instante de dúvida que vagueasse por ali perdido, sem saber por onde andar.
Ali, naquele lugar não havia tempo, mas apenas ser.

Texto: Clara Marchana