segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Tempo sem som

Sem conseguir dizer nada.
Não consegue exprimir-se.
Assustou-se porque no tempo em que falava espontaneamente, não foi compreendida, e foi magoada.
Criaram-se mal-entendidos num arco do tempo.
Tenta exprimir-se, mas não lhe saem as palavras.
Criaram-se rupturas que ainda não cicatrizaram.
E depois existem juízes à espreita, à espera de criticar, de julgar,
ansiosos por colarem no outro um previsível rótulo de culpado ou inadaptado.

Texto: Clara Marchana


domingo, 26 de setembro de 2010

Pensamento em risco

Pensamentos rasgados, riscados,
pensamentos que se escondem com receio de serem magoados, porque não se assumem, não se mostram.
Pensamentos escorregadios, em risco de queda.
Visto o meu casaco preto comprido na cidade,
e começo a voar, mas ninguém me vê, ninguém acredita.
Pego em dois transeuntes e levo-os comigo, digo-lhes para acreditarem, que podem também fazê-lo, apenas é preciso acreditar.
Eles olham-me, não sorriem, incrédulos.
Continuo a alimentar a chama da crença enquanto passeio pela cidade enquanto passam por mim pessoas que correm seguras aos seus destinos.
Continuo a dizer baixinho para mim, eu acredito, eu acredito, eu acredito, para não deixar morrer a esperança e a vontade.

Texto: Clara Marchana

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Como será voltar?



Como será voltar?

Voltar a casa é partir
Deixar-me levar
Seguir sem rumo
Sem saber quando tornar.

Voltar a casa é saber esperar,
depois correr,
e não saber quando regressar
Sentir a saudade que aperta,
como se tivéssemos deixado a pátria no fundo do mar.

Voltarei um dia aos braços da minha terra?
Terra inalcançável de outrora,
mas que agora, agora sim quero chegar.

Como será voltar?


Texto: Clara Marchana
Imagem: Filme The Wizzard of Oz (1939), realizado por Victor Fleming