sábado, 27 de março de 2010

"Poemacto"

(Ao Dia Mundial do Teatro, um poema de Herberto Helder)

O actor acende a boca. Depois os cabelos.
Finge a s suas caras nas poças interiores.
O actor põe e tira a cabeça
de búfalo.
De veado.
De rinoceronte.
Põe flores nos cornos.
Ninguém ama tão desalmadamente
como o actor.
O actor acende os pés e as mãos.
Fala devagar.
Parece que se difunde aos bocados.
Bocado estrela.
Bocado janela para fora.
Outro bocado gruta para dentro.
O actor toma as coisas para deitar fogo
ao pequeno talento humano.
O actor estala como sal queimado.

O que rutila, o que arde destacadamente
na noite, é o actor, com uma voz pura monotonamente batida
pela solidão universal.
O espantoso actor que tira e coloca
e retira
o adjectivo da coisa, a subtileza
da forma,
e precipita a verdade.
De um lado extrai a maçã com sua
divagação de maçã.
Fabrica peixes mergulhados na própria
labareda de peixes.
Porque o actor está como a maçã.
O actor é um peixe.

Sorri assim o actor contra a face de Deus.
Ornamenta Deus com simplicidades silvestres.
O actor subtrai Deus de Deus, e
dá velocidade aos lugares aéreos.
porque o actor é uma astronave que atravessa
a distância de Deus.
Embrulha. Desvela.
O actor diz uma palavra inaudível.
Reduz a humidade e o calor da terra
à confusão dessa palavra.
Recita o livro. Amplifica o livro.
O actor acende o livro.
Levita pelos campos como a dura água do dia.
O actor é tremendo.
Ninguém ama tão rebarbativamente como o actor.
Como a unidade do actor.

O actor é um advérbio que ramificou
de um substantivo.
E o substantivo retorna e gira,
e o actor é um adjectivo.
É um nome que provém ultimamente
do Nome.
Nome que se murmura em si, e agita,
e elouquece.
O actor é um grande Nome cheio de holofotes.
O nome que cega.
Que sangra.
Que é o sangue.
Assim o actor levanta o corpo,
enche o corpo com melodia.
Corpo que treme de melodia.
Ninguém ama tão corporalmente como o actor.
Como o corpo do actor.

Porque o talento é transformação.
O actor transforma a própria acção
da transformação.
Solidifica-se. Gaseifica-se. Complica-se.
O actor cresce no seu acto.
Faz crescer o acto.
O actor actifica-se.
É enorme o actor com a sua ossada de base,
com suas tantas janelas,
as ruas-
o actor com a emotiva publicidade.
Ninguém ama tão publicamente como o actor.
Como o secreto actor.

Em estado de graça. Em compacto
estado de pureza.
O actor ama em acção de estrela.
Acção de mímica.
O actor é um tenebroso recolhimento
de onde brota a pantomima.
O actor vê aparecer a manhã sobre a cama.
Vê a cobra entre as pernas.
O actor vê fulminantemente
como é puro.
Ninguém ama o teatro essencial como o actor.
Como a essência do amor do actor.
O teatro geral.

O actor em estado de graça.

Herberto Helder (Funchal, Ilha da Madeira, 23 Novembro de 1930), in "Poemacto" (Lisboa,1961)



(Excerto do filme Orlando (1992) realizado por Sally Potter, baseado na obra Orlando de Virginia Woolf).

quarta-feira, 24 de março de 2010

sábado, 20 de março de 2010

Sorriso fértil no equinócio


Invadem-me as flores,
que abençoada e tão esperada invasão,
a primavera entra fiel,
o verde em força derrete o gelo frio do branco inverno,
a transformação da terra, a fertilidade faz um sorriso na doce mudança,
e a expressão manifestada acolhe a mãe natureza,
poderosa força a ser escutada com tanto silêncio e abertura.


Texto: Clara Marchana

sexta-feira, 19 de março de 2010

"Tarde com Sol"


As coisas simples dizem-se depressa; tão depressa
que nem conseguimos que as oiçam. As coisas
simples murmuram-se; um murmúrio
tão baixo que não chega aos ouvidos de ninguém.
As coisas simples escorrem pela prateleira
da loja; tão ao de leve que ninguém
as compra. As coisas simples flutuam com
o vento; tão alto, que não se vêm.

São assim as coisas simples: tão simples
como o sol que bate nos teus olhos, para
que os feches, e as coisas simples passem
como sombra sobre as tuas pálpebras.

Poema: Nuno Júdice
Fotografia: Berenika

domingo, 14 de março de 2010

"...sedimentação dos saberes..."


" Há uma idade em que se ensina o que se sabe; mas vem em seguida uma outra onde se ensina o que não se sabe: chama-se a isso investigar. Vem talvez agora a idade de uma outra experiência: a de desaprender, de deixar de trabalhar o retocar imprevísivel que o esquecimento impõe à sedimentação dos saberes, das culturas, das crenças que se atravessou. Essa experiência tem, creio, um nome ilustre e fora de moda, que ousarei tomar aqui sem complexo, na encruzilhada mesmo da sua etimologia: Sapientia: nenhum poder, um pouco de saber, um pouco de sabedoria, e o máximo de sabor possível."

BARTHES, Roland, Œuvres complètes, Paris, Seuil, 2002 (volume V, p. 446), numa tradução de Nuno Júdice in Colóquio Letras, Revista Quadrimestral, Fundação Calouste Gulbenkian, n.172, Setembro/Dezembro 2009 (p. 32).

segunda-feira, 8 de março de 2010

"A tutte le donne"


a tutte le donne

Fragile, opulenta donna, matrice del paradiso
sei un granello di colpa
anche agli occhi di Dio
malgrado le tue sante guerre
per l'emancipazione.
Spaccarono la tua bellezza
e rimane uno scheletro d'amore
che però grida ancora vendetta
e soltanto tu riesci
ancora a piangere,
poi ti volgi e vedi ancora i tuoi figli,
poi ti volti e non sai ancora dire
e taci meravigliata
e allora diventi grande come la terra

Alda Merini, poetisa e escritora italiana (1931-2009)

"(sono una piccola ape furibonda)
mi piace cambiare di colore.
mi piace cambiare di misura."

domingo, 7 de março de 2010

Ela espera que ele um dia poise nos seus olhos

Ele vive o amor por ela como se fosse um maquinal funcionário público com a obsessão pela obrigação de cumprir uma infindável lista de deveres que ele próprio criou e todos os dias está mais cheia de palavras.
Ela espera que ele rasgue aquela lista e abrande um pouco aquele ritmo frenético, compulsivo que tem de viver, de trabalhar, de correr.
Pacientemente espera que ele repare nela.
Ela espera que ele um dia poise verdadeiramente nos seus olhos, ali, num momento qualquer do presente, onde quer que seja, à frente de todos.
E enquanto espera, sonha, canta, inventa histórias, chora, lava-se nas lágrimas, e faz a estrada de mãos dadas com a luz da solidão.
Ele nem se apercebe. Não a ouve nem a sente.
Chiiiuuuu... silêncio... que ela fala e tenta comunicar devagarinho.

Texto: Clara Marchana

segunda-feira, 1 de março de 2010

Depois afinal o vazio


Ausência.
Ninguém. Nessuno. No one.
Abraço vazio.
E depois?
Depois nada, não me assustei.
O medo já nem sequer lá estava.
Fiquei a saborear aquele momento
sem nada nos bolsos,
olhava o céu estrelado,
era eu e apenas a roupa que tinha vestida,
o cão nos braços,
caminhava sem pensar, sem decidir,
deixava-me guiar, prosseguir.
O vazio assustou-me ao príncipio,

mas depois, afinal foi bom.

Texto: Clara Marchana