terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Sonhar às escondidas


Ela arrasta-se num mundo previsível
mas tem é vontade de ser livre
de romper
de rasgar as velhas roupas mecânicas.
Sonha às escondidas que abre a boca ao mundo e respira,
depois joga às escondidas com a liberdade, a pura expressão de ser,
a criação
parece-lhe tudo tão simples naquele jogo.
Mas ninguém a encontra,
ninguém a vê
no meio de tanta simplicidade.
Continua escondida no mesmo lugar,
e agora já não sabe,
se ficar à espera que a encontrem ou mostrar-se para que a vejam.

Texto: Clara Marchana

domingo, 14 de fevereiro de 2010

"Há palavras que nos beijam"

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem côr,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído,
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.

Alexandre O'Neil (Lisboa, 1924-1986)

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Neve em Roma...




Esta manhã nevou em Roma.
Coisa improvável de acontecer nesta cidade, pois não nevava assim desta maneira há mais de vinte anos, ao que parece desde 1986.
É claro que não resisti, saí de casa a correr para disfrutar do momento inédito.
Uma cidade vestida de branco é sempre linda.
Cada pessoa que se cruzava comigo tinha um sorriso na cara, sorríamos espantados uns para os outros, em comunhão com o acontecimento, todos me davam os bons dias ou faziam qualquer comentário acerca do acontecimento.
A neve saiu à rua e com ela o sol nos rostos de cada um.

Texto: Clara Marchana
Fotografia: Clara Marchana

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Passeio côr de terra


(Texto dedicado à minha irmã Paula)

Quando me convidaste a fazer um passeio pelos campos, dei um sim de impulso, surpreendeu-me.
Pus as galochas e saí de casa a correr com a minha cadela,
chovia suavemente, e enquanto caminhava qualquer coisa mudava dentro de mim.
Corria, e de vez quando voltava a abrandar, e inesperadamente sentia-me livre,
vi a terra lavrada, os campos planície, vi a estátua de uma santa à entrada da aldeia, e aquele regar vindo do céu, ligeiro, muito ligeiro que generosamente continuava.

Ao fundo a tua voz chamou pela cadela, esta correu ao teu encontro, com uma alegria sincera de ser.
Aproximavas-te devagarinho, és tu minha irmã, sim é a minha irmã, finalmente te via,
tal qual como és e como sempre te vi, sem tristeza no rosto, sem prisão.
Caminhámos,
que sensação de voltarmos a caminhar juntas, mesmo parecendo que não dizíamos nada,
dizíamos tanto entre uma palavra e outra espaçadamente, no silêncio transitório de uma respiração.

Depois de ter visto o fogo, levaste-me ao castelo mágico da liberdade e confiança, enquanto observávamos aqueles jardins imensos,
ajudaste-me a restituír sem te aperceberes qualquer coisa que sentia que tinha perdido.
Despedimo-nos com um abraço e qualquer coisa ficou por dizer, e mais algum abraço por dar, e mais coisas por desabafar.
No dia seguinte regressava à cidade.

Texto: Clara Marchana
Fotografia: Clara Marchana

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Dança infinita

Nada.
Não se escuta.
Nem sussurrar, nem voz, nem eco.
Nem sequer o silêncio.
Ela corre a sete pés da tristeza, mas esta insiste em ser sua amiga.
Ela resigna-se e responde-lhe:
-Mas que insistente és, tristeza! Pronto, está bem vem comigo.
Enquanto passeia com a tristeza, pensa na alegria, e pergunta-se a si mesma:
-Porque é que temos de andar sempre tão desencontrados? Quando temos uma coisa, queremos outra, depois quando temos outra, queremos aquela.
Que dança esta das trocas infinitas...


Texto: Clara Marchana