quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Palavras sem mim

Paris,

Palavras sem dias, dias sem palavras, palavras sem mim.
Existem momentos em que cicatrizamos devagar.

Texto: Clara Marchana

sábado, 23 de janeiro de 2010

"Catching the line"

video

Um pequeníssimo filme que fiz com a minha velha máquina fotográfica digital, numa tranquila tarde Verão do ano passado, na cidade de Mântua em Itália.
A música que escolhi chama-se Transformation do álbum Les ailes pourpres pela The Cinematic Orchestra.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Longe da realidade ou demasiado próximos dela?


O que se estará a passar?
Permaneço incrédula perante aquilo vejo e a que assisto aqui em Itália, especificamente na cidade de Roma.
O que mais se vê por aqui, são situações de uma desumanidade proeminente e uma espécie de doença de escassez de moral e valores, que a meu ver, é a pior, pois é aquela que mata sem que nos possamos aperceber, que come pelo esquecimento até apagar tudo como um vírus no computador.
Assistimos um pouco por toda a parte, relativamente a males de desumanidade mas a frequência deste tipo de acontecimentos, nesta cidade, é coisa recorrente e banal, e podem ir do mais variado ao impossível de se imaginar.
Basta apenas sair de casa para que nos comece a chover todo o tipo de situações cruas e surreais.
A tal ponto que ser desumano, cruel e mais todo o tipo de adjectivos e sinónimos que a aqui se poderiam juntar, fariam lista interminável, são coisa de quotidiano normal e natural.
O mais absurdo é que quem sai fora deste eixo e não corresponde aos padrões ditados "corre o risco" de ser discriminado, incompreendido, depreciado, e no final dá por si sozinho e catalogado pejorativamente de fraco, tolo ou parvo.

Quando sou por acaso surpreendida pela positiva, que é quase raramente, é como se por instantes despertasse e tivesse uma recordação que há muito tinha esquecido, uma recordação distante, de qualquer coisa que amei e perdi a meio do caminho sem saber porquê.
E naquele momento, não consigo evitar, não consigo evitar de me conter, e onde quer que esteja, as lágrimas escorrem-me pela cara abaixo perseguidas de um suspiro de alívio profundo, pela minúscula gota de esperança que me alimenta esta cidade, pois quando não se tem água, uma gota dá para tanto.
Mas para onde caminhamos? Alguém se questionará?
Onde queremos chegar, alguém pensará sobre isso?
Como é que chegámos até aqui?
Será melhor, parar e reflectir ou permanecer ignorante, acenando a cabeça com um sim a tudo aquilo que nos oferecem?
Se ouso falar sobre isto, em conversa com um grupo de amigos ou conhecidos italianos, defendem-se desdramatizando com uma grande gargalhada fingida de narcisos e recusam-se continuar a conversar mudando de assunto por uma falsa distracção.
Como poderemos chegar ao coração do outro?
Ou porque é que se recusam em abri-lo? Será por medo?
Ou será um pré-conceito na idéia que temos de o abrir?
Talvez seja a idéia desajustada que se tem deste tipo de conversa, que gera um certo cansaço mentiroso que faz com que não queiramos continuar a falar, um cansaço mental fictício criado por defesa, que habita num lugar escondido, longe da realidade.
Ou talvez nos sintamos é tão próximos dela, que nos sentimos assustados quando nos tocam no lugar exacto onde reside a dificuldade, que tão longe está de ser ultrapassada.
Criámos a nossa própria armadilha e caímos nela.
E agora não sabemos como a desmantelar e sair dela.

Texto: Clara Marchana
Imagem: M.C. Escher (1898-1972)

domingo, 17 de janeiro de 2010

Pormenores quotidianos

Ela adora, pela manhã, ir à rua tomar café.
Chega ao café, e observa.

Senta-se e escuta as pessoas que estão à sua volta.
Tira o caderno, a caneta da sua mala de lã côr de laranja e rosa

e começa a escrever, enquanto bebe lentamente o café.
Ora olha,
ora bebe,
ora olha,
ora escreve,
ora garrafa,
ora 50cl,
ora água,
ora copo,
ora bebe,
ora mesa,
ora cadeira,
ora telemóvel,
ora sente,
ora sorri,
ora palavra,
ora um olhar,
ora um silêncio,
ora levanta-se,
ora paga,
ora sai e volta a casa.

Texto: Clara Marchana

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Correrias garridas

Sopro de côres garridas,
reentrar na unidade, na frequência,
devemos correr urgentemente para ela,
para sermos um só no colectivo.

Texto: Clara Marchana

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Viva, viva la Befana!


Hoje feriado, é dia da Befana e por toda a Itália se festeja.
É o dia em que todas as crianças, assim que acordam, correm para perto da chaminé ou para quem não a tem, como é o caso destas novas casas de cidade, pode ser qualquer coisa que se pareça ou simbolize uma chaminé, digamos por exemplo, que o portal de entrada da Befana, pode ser perfeitamente em cima do fogão debaixo do exaustor.
A Befana é uma personagem de origem popular que surge no último dia da quadra natalícia, trata-se uma bruxa velha, amiga e protectora das crianças, que na noite anterior, vai de casa em casa deixar doces, chocolates, rebuçados, e toda a espécie de guloseimas, dentro das meias que estão penduradas perto da chaminé, isto é, recebe todas estas iguarias a criança que se portou bem durante todo o ano, pois quem não se portou bem, ela enche-lhe a meia de "carvão", um carvão comestível claro, passo a explicar, este carvão é um doce mas com a mesma forma e côr do carvão, e é delicioso, parece mesmo carvão, mas não é, por isso mesmo para quem não se portou muito bem ou se portou muito muito mal, ainda tem direito a regalar-se com este carvão doce!
Todos estes presentes são símbolo do ano novo que entra, e os votos de um ano melhor, e a Befana é uma velha bruxa associada ao ano velho que passou, símbolo da morte, que vem deixar e oferecer presentes, símbolo do novo, de um renascimento na luz, no novo sol do novo ano.
Mas a Befana não vem só às crianças, na verdade pode vir a toda a gente, e este ano pela primeira vez ela encheu-me a meia cheia de doces.

"La Befana vien di notte,
con le scarpe tutte rotte,
con le toppe alla sottana,
viva, viva la Befana!"

Rima popular italiana

Texto: Clara Marchana

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

"Receita de Ano Novo"


Receita de Ano Novo

Para voçê ganhar belíssimo Ano Novo
côr do arco-íris, ou da côr da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para voçê ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
voçê não precisa de beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
voçê, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de voçê que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), poeta e escritor brasileiro