quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Que assim seja


Que a Esperança nos nos banhe e renove de dia para dia neste Novo Ano que se aproxima.
Agradeço a todos aqueles que passam por aqui.
Bem hajam.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Um poema

Poema
II


" O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...

Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar..."

Alberto Caeiro, O Guardador de Rebanhos


Imagem: "The Wounded Angel" de Hugo Simberg (1873-1917), pintor filandês

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

1 história por dia #7 ou frio de luz


Apenas frio e nada de novo.
Saiu de casa cheia de roupa vestida, em direcção ao café do costume.
Desencantada olhava à sua volta.
Quanto aspirava aos dias em que sente que tudo crepita de vida e mistério, verdade e curiosidade com uma vontade de conhecer recíproca quando se cruza com um outro alguém, também curioso, também aprendiz de vida, também desperto, sem a máquina rotineira carimbada no rosto.
Que se passa, pensava ela, que coisa vazia, tão descomprometida, enquanto olhava em redor, nem uma troca de um único olhar vivo, em acção, um momento ou movimento em respiração pintado de vida.
Depois de tomar café volta a casa mais desencantada, mas aceita que em cada dia, em cada sombra, reside um grão de luz. E o que é a sombra senão ausência parcial de luz proporcionada pela existência de um obstáculo.


Texto: Clara Marchana
Imagem: Iman Maleki, pintor iraniano nascido em 1976 no Teerão

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

1 história por dia #6 ou ruído


Às vezes o barulho é tanto, abusivamente ruidoso, que não resta senão ficar com a impossibilidade de se tentar escutar seja o que seja.
Foi interrompida nos seus pensamentos em contrariedade, por uma rapariga que lhe pedia para se sentar na mesma mesa. Hoje o café estava cheio com as mesas todas ocupadas.
-Claro que sim- acenou ela com a cabeça.
Depois de tomar o pequeno-almoço a rapariga levantou-se, sorriu-lhe e foi-se embora, ela voltou a ficar sozinha, girando-se novamente para os seus pensamentos mal-dispostos.

Texto: Clara Marchana

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

1 história por dia #5 ou recomeço


Dia chuvoso,
existe uma certa beleza neste tipo de dias, ao menos para ela que gosta de dias chuvosos.
Entrou no café, naquele que vai todos os dias ou quase todos, à mesma hora, e apenas uma mulher sentada numa das mesas, que lia um livro sossegadamente, enquanto enrolava os cabelos com os dedos.
Hoje sentia-se um pouco distante daquele lugar, ou talvez um pouco distante de tudo em geral, imersa em qualquer coisa sem definição nenhuma, não percebendo bem de onde vinha a sensação, tinha acordado assim simplesmente.
Assistia apenas ao desenrolar daquilo que a rodeava, a mulher do livro que mudava de vez em quando de página, gente que passava na rua com os chapeús de chuva abertos, uma mulher que entra no café com um bébé transportado num pano enrolado ao peito, coberta por uns lindos xailes de lã em tons de creme, que troca um sorriso com a rapariga que escreve, e pede à empregada uma garrafa de água, empregada esta que não é a mesma dos outros dias, será uma outra, substituta, mais calada, rezingona, de olhar fugidio, e muito menos desperta, sorri apenas e forçadamente, por se aperceber que a cliente tinha um bébé, depois desta ter tirado os xailes para se recompôr e beber a água.
Depois disto a empregada olha de relance para a rapariga com um ar desconfiado, de quem não entende que prazer é que se pode ter, estar sentado à mesa de um café e escrever umas coisas num caderno e sorrir de vez em quando para os outros.
- Que rapariga esquisita, não terá ela mais nada para fazer na vida?! - talvez pense ela ou se calhar não.
É segunda-feira, recomeço.

Texto: Clara Marchana
Obra: Alicia Leal , nascida em Sancti Spiritus, Cuba em 1957

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

1 história por dia #3 ou Amantes


Assim que ela entrou no café, foi assaltada por uma imagem, que vinha de uma das mesas, dois corpos entrelaçados, num fogo lento de amor e beijos silenciosos, como se estivessem escondidos um no outro, não dando para perceber bem onde começava um e terminava o outro.
Este quadro destoava totalmente do ambiente daquele café, como se não fizesse parte daquele conto, talvez porque não estejamos habituados a ter visões destas a cada esquina de rua por onde passamos. Mas ali estavam eles, homem e mulher em ilha prazerosa.
Não se detendo com esta visão fugitiva, a rapariga continuou o seu percurso e propósito, sem se aperceber o quanto aquela visão se tinha instalado e ocupado algum lugar numa qualquer parte dentro de si.
A rapariga dirigiu-se ao balcão, pediu o café do costume, e enquanto esperava, a mesma imagem, iluminou-se de surpresa, como se quisesse entrar, como se precisasse que alguém olhasse para ela.
Uma curiosidade nascia fazendo-lhe alguma comichão. Quem eram os forasteiros? De onde vinham? Porque estariam eles naquele lugar, àquelas horas da manhã.
Enquanto divagava em suposições, pegou no café e foi-se sentar.
Olhou novamente de relance e lá estavam eles naquele silêncio secreto, amoroso.
O casaco dele metido ao acaso e à pressa por cima da mesa, a mala dela, um saco por cima, o casaco dela desarrumado pela cadeira, e ali estavam num prolongado abraço.
Não tinha trazido o seu diário, coisa rara, mas tinha trazido uma caneta, pediu à empregada se podia tirar uma toalha de papel, daquelas que se põem na mesa às refeições e começou a escrever.
Num certo momento o casal levantou-se, e pela forma como estavam vestidos não seriam daquela cidade, mas de uma outra longe dali, de pelo menos uns 300km de distância, casacos quentes de fazenda, côres de terra, verdes escuros, lãs, algumas malas, alguns sacos, pareciam vir do frio, do norte, de uma daquelas cidades perto da montanha.
A história revelava-se aos poucos, à medida que a rapariga os olhava sem fazer barulho, ele saiu primeiro e ficou à espera dela à entrada, ela com calma vestiu o casaco grosso de fazenda comprido, que lhe cobria o vestido verde de lã, enquanto ele esperava por ela com a plenitude no rosto, e uma alegria comedida como se tivesse descoberto algo precioso, mas que ao mesmo tempo tivesse de esconder aquele amor vivido em segredo.
O telefone dela tocou, de sacos na mão, mala, casaco de fazenda grosso vestido, tentou encontrar o telemóvel, ficou parada por uns momentos a falar ao telefone, com um sorriso discreto.
Ela era casada, ele não. Eram amantes, encontravam-se poucas vezes, e deste vez tinham marcado encontro num café muito longe da cidade de onde vivem, não suportavam as saudades. Encontraram-se muito cedo, pois ainda iriam voltar, cada um às suas casas e vidas comprometidas.
Mas quando se vêem não importa onde estejam, ele atira o casaco para cima da mesa, de qualquer maneira, abraça-a de urgência e beijam-se sem acabar.

Texto: Clara Marchana
Imagem: Amantes de Eva Sanz

terça-feira, 30 de novembro de 2010

1 história por dia #2

Este homem esconde o coração.
Enquanto fala, enquanto olha, sentado à mesa, sobre uma das suas últimas viagens, tem o coração numa das mãos e esconde-o com um braço atrás das costas.
Porque razão?
Será que o esconde ou espera apenas o momento certo para o revelar?
Parece que o quer dar, mas não consegue.
Tem um cão que se chama Zé, que o acompanha sempre para onde quer que vá.
Ao que parece é músico, pianista, viaja pelo mundo mas tem medo de sonhar.
Nada de especial, apenas isto, no final acaba por contar pouco das suas viagens, fala pouco, mesmo que inicialmente pareça ser extrovertido e falador de páginas prolongadas, explode apenas por poucos segundos com grande expressão ou com uma afirmação convincente e depois apaga, desliga, como se desaparecesse do lugar onde se encontra, e quem está por perto, de boca aberta e olhar expectante, tem a sensação que se calhar alucinou com alguma visão dele, quem o escuta nem sequer tem tempo de entender que ficou por ali a história do homem viajante.
E agora levanta-se.
Deve ir para casa, mora ali perto.
A rapariga que vai todos os dias ao café à mesma hora, observa-o, e ele como se intuísse que estivesse a ser observado, olha num gesto involuntário na sua direcção,
ela baixa-se para apanhar a caneta que lhe tinha caído das mãos, ele volta-se novamente para a frente e sai, ela volta à realidade dos livros e das escritas, os seus pensamentos como folhas outonais esvoaçam para a exposição de escultura que irá ver esta tarde.

Texto: Clara Marchana

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

1 história por dia


Esta rapariga vai todos os dias ao café ao mesmo café e quase à mesma hora.
Pede o seu café ao balcão, um copo de água e senta-se à mesa, enquanto olha para o programa que passa na televisão, sobre receitas de cozinha, que dá todos os dias à mesma hora.
Enquanto olha para o programa desinteressadamente, os seus olhos vão parar mais interessados sobre aqueles que entram e saem do café, ela observa atentamente sem dar nas vistas, nem causar incómodo. Os seus olhos poisam mas não julgam.
Também olha para as duas pessoas que estão atrás do balcão a atenderem. A senhora mais velha será a dona do café ou se calhar a mulher do dono do café que hoje não se encontra, se calhar está de folga, ou de férias, ou foi ao supermercado, e uma rapariga nova que deverá ser a sua empregada.
Ela gosta de as observar, porque estas duas pessoas são engraçadas, causam-lhe uma certa curiosidade na relação que têm uma com a outra. Existe entre elas um afecto quase que familiar, um carinho, que mesmo não sendo da mesma família, parecem mãe e filha, na sua cumplicidade.
Também as acha engraçadas por uma outra razão, estas duas pessoas atrás do balcão têm um comportamento quase, ou se não mesmo, indiferente a quem entra e sai daquele café, parecem estar em casa, fazendo as suas vidas; elas almoçam, elas conversam, riem, a mais nova canta em voz bem alta, a mais nova é a mais expressiva, e o factor secundário ou quem vem em último lugar, são os clientes, que por acaso vão àquela espécie de casa tomar café e comer um bolo ou um croissant, e naquele momento quando se dirigem a elas para se fazer o pedido, por alguns segundos elas rompem esta quarta parede para atenderem, darem atenção mas só por alguns segundos, no segundo a seguir já fecharam a janela, a porta ou reconstruiram a parede e já entraram novamente na sua história.
E a rapariga que vai todos os dias ao mesmo café, à mesma hora, volta a ficar sozinha, a assistir ao filme projectado na parede invisível atrás do balcão, a observar estas duas pessoas e todas aquelas histórias que passam, entram e saem daquele café à mesma hora.
Depois de ter bebido o café muito devagar, que já tinha pago ao início, levanta-se e vai para casa, até ao dia seguinte que sairá, à mesma hora, para ir tomar café.

Texto: Clara Marchana
Fotografia: "Simone de Beauvoir, Café de Flore" (1944), Brassaï, pseudónimo de Gyula Halász, fotógrafo húngaro (1899-1984)

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

"Samaya"


"Samaya é uma dança com três mulheres considera-se que seja oriunda da era pré-cristã e que estivesse relacionada com a celebração do casamento.
A dança honra o rei Tamar, a mulher-rei da era de ouro da Geórgia nos séculos XII-XIII.
As três mulheres pensa-se que simbolizem as três musas, Arte, Poesia e Música, que estão representadas num fresco antigo da famosa catedral em Mtskheta, terra natal do rei Tamar, primeira mulher-rei na história da Geórgia, ao mesmo tempo que representam uma trindade feminina, a jovem princesa, a mulher mãe, e a anciã sábia. Estas três imagens em harmonia, reunidas num só.
As velas simbolizam a sabedoria e o conhecimento "Guiar-te-ei na vida na direcção certa."
A dança é feita pela Georgian National Ballet Sukhishvilebi, fundada em 1945.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Em nada


Ela não consegue fazer nada, escrever nada,
mover-se.
Ela não consegue nem sequer dizer que não consegue,
"-Não consigo, é uma coisa já difícil de ser dita."
Não consegue ser,
não consegue tornar-se.
Quem vai entender?
Quanto mais vai ficando fora do ritmo do mundo, mais difícil é sentir ou ter quem nos entenda,
mais difícil se torna mostrar-se,
exprimir-se,
e afirmar seja o que seja perde todo e qualquer sentido.
Quem quererá entender, quem quererá aproximar-se do nada?
Alguém se interessa pelo não conseguir?
Ninguém, nem mesmo ela.

Texto: Clara Marchana

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Nebuloso olhar


Com muito esforço ela se levanta,
os movimentos são como pesos,
o olhar enevoado,
e nada parece arrancar com fluidez.

Texto: Clara Marchana

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Coisas que me tocam


Dias de muita água,
água que escorre pelas ruas da minha cara, pelas ruas do meu corpo,
deixo escorrer,
não construo barragens.
Por vezes nem entendo de onde vem,
são momentos subtis, quase imperceptíveis,
coisas que me tocam,
a rapariga que pede na rua, que ama tanto o seu cão e que naquele dia estava mais triste que nos outros dias,
alguém que deixa cair o manto e que não se apercebe de estar descoberto,
um olhar revelado, uma frase escapada, um gesto frágil que escorrega cá para fora.
E a água corre dos meus olhos.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Momentos


Tanta coisa para dizer,
para falar, para partilhar e fico sentada a olhar o silêncio.


Texto: Clara Marchana

Imagem: Uma Vida em Segredo, filme de 2002 com realização de Suzana Amaral, baseado na obra de Autran Dourado, fotografia de Lauro Escorel, nesta imagem a actriz Sabrina Greve que interpreta o personagem de Biela.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

"Pitanga"

" O amor nasce como raízes
com o ardor intenso do sol: os frutos
odores colhidos no tempo
floresce em janeiro, amadurece
em junho, substância nutritiva
força carnosa, avermelhada.
O amor nasce em nossa boca
na língua, entre a saliva
nos distrai dos nossos dramas
olhos vibrantes se derramam
água de coco, pitanga
no monte e nas areias o verde
o amor nasce amplamente
como raízes, grãos de semente
caem ao solo, viscoso, suculento
no mês de dezembro, verde carregado
e chuvas e chuvas
e verdes e depois vermelhos maduros
e grãos novos duros,
e depois secas sementes.
O amor nasce como raízes."

Marcia Teophilo "Amazonia respiro del mondo"

domingo, 10 de outubro de 2010

Tarquinia


Tarquinia,
terra etrusca, lugar encantado.
À medida que caminhava pela cidade, pela noite dentro, pelas suas ruas antigas, mais se revelava,
sons nocturnos de insectos,
o cheiro a fogueira, lareiras,
e algumas árvores que generosamente ofereciam o seu perfume,
enquanto os gatos perto da igreja de Santa Maria di Castella, guardiães daquele canto sagrado, tomavam banho de céu estrelado.
Perfumes e sensações que me devolviam identidade, raízes, ancestralidade, harmonia e serenidade, apagando qualquer instante de dúvida que vagueasse por ali perdido, sem saber por onde andar.
Ali, naquele lugar não havia tempo, mas apenas ser.

Texto: Clara Marchana

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Tempo sem som

Sem conseguir dizer nada.
Não consegue exprimir-se.
Assustou-se porque no tempo em que falava espontaneamente, não foi compreendida, e foi magoada.
Criaram-se mal-entendidos num arco do tempo.
Tenta exprimir-se, mas não lhe saem as palavras.
Criaram-se rupturas que ainda não cicatrizaram.
E depois existem juízes à espreita, à espera de criticar, de julgar,
ansiosos por colarem no outro um previsível rótulo de culpado ou inadaptado.

Texto: Clara Marchana


domingo, 26 de setembro de 2010

Pensamento em risco

Pensamentos rasgados, riscados,
pensamentos que se escondem com receio de serem magoados, porque não se assumem, não se mostram.
Pensamentos escorregadios, em risco de queda.
Visto o meu casaco preto comprido na cidade,
e começo a voar, mas ninguém me vê, ninguém acredita.
Pego em dois transeuntes e levo-os comigo, digo-lhes para acreditarem, que podem também fazê-lo, apenas é preciso acreditar.
Eles olham-me, não sorriem, incrédulos.
Continuo a alimentar a chama da crença enquanto passeio pela cidade enquanto passam por mim pessoas que correm seguras aos seus destinos.
Continuo a dizer baixinho para mim, eu acredito, eu acredito, eu acredito, para não deixar morrer a esperança e a vontade.

Texto: Clara Marchana

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Como será voltar?



Como será voltar?

Voltar a casa é partir
Deixar-me levar
Seguir sem rumo
Sem saber quando tornar.

Voltar a casa é saber esperar,
depois correr,
e não saber quando regressar
Sentir a saudade que aperta,
como se tivéssemos deixado a pátria no fundo do mar.

Voltarei um dia aos braços da minha terra?
Terra inalcançável de outrora,
mas que agora, agora sim quero chegar.

Como será voltar?


Texto: Clara Marchana
Imagem: Filme The Wizzard of Oz (1939), realizado por Victor Fleming

sábado, 7 de agosto de 2010

"Bab'Aziz, The Prince who contemplated his soul"

O cego sufi Bab'Aziz e a sua neta Ishtar, atravessam o deserto para ir ao encontro de uma reunião de dervixes, que acontece em cada trinta anos.
O local de encontro é secreto e para o encontrar há que se deixar guiar pela fé e pelo silêncio.
Durante esta longa caminhada, ele conta à neta a história de um príncipe que abandonou o seu reino para contemplar a sua alma através de uma poça de água que encontra no deserto.
E que ao despertar desta longa contemplação descobriu que tinha aprendido a falar com a voz do coração. Nesse momento decidiu levantar-se e partir para ir ao encontro dos outros seres humanos.



Filme: Bab'Aziz (2005) realizado por Nacer Khemir, o argumento é de Nacer Khemir e Tonino Guerra (colaboração), música de Armand Amar.

sábado, 31 de julho de 2010

Lughnasadh ou Lammas


Um feliz Lughnasadh e bençãos neste renascimento.

Fiz o meu primeiro pão de trigo e noz.
Lughnasadh celebra-se a 1 de Agosto no hemisfério norte e no dia 2 de Fevereiro no hemisfério sul, é simbolizado pelo trigo, que é identificado por um dos aspectos do deus Sol, a que os celtas chamavam de Lugh.
Lammas é uma festa, anglo-saxónica, de agradecimento pelo pão, que é representado como o primeiro fruto da colheita.

Dia propício aos agradecimentos, agradecermos tudo aquilo que colhemos, o bom e o menos bom, acreditando que as coisas menos boas têm um espécie de "propriedade medicinal" que pode actuar sobre nós de forma benéfica e curativa.


Texto: Algumas informações e o texto assinalado (1) foram retiradas da Wikipédia.
Pintura: Camille Pissarro (1830-1903)

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Fragmentos

Fragmentos,
de um texto, de um tempo e de um espaço que fala,
paisagens interiores que se tornam poesia física,
dançar a emoção.

A procura de um significado que não se chega a alcançar,
a espera,
à espera que o amor entre, saia, passe ou fique.
A falta de alguém, de alguma coisa, qualquer coisa que falta,
a metáfora móvel do que se sente.

Texto: Clara Marchana

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Das sombras

Existem períodos que nos sentimos assim,
sem nada a dizer,
sem saber o que exprimir.
Talvez seja tanto o que se tem para falar que não nos decidimos pelas palavras,
vamos guardando no baú as coisas que ficam por dizer, aguardando o momento certo, e  o tempo vai passando,
e o momento certo se calhar também,
um dia abrimos o baú, e saltam de lá todas as palavras,
palavras que puxam histórias,
e histórias cada vez mais longas.
E o que fazer com esta confusão que salta à nossa volta?
Podemos continuar sem abrir a boca,
adiando mais uma vez as conversas, os gritos, os segredos, as confissões, os desabafos, os choros, o dizer que te amo, e às vezes até o rir,
por receio que alguém se lamente,
por se cantar sempre a mesma canção,
ou então como um fruto, que ainda é verde, que só se pode colher no momento certo,
e pensamos que talvez seja melhor continuar a esperar.
A matéria de que se trata, por vezes, é densa e difícil de se tornar palavra,
matéria pouco soalheira e teimosa.
Mas nalguns momentos é preciso arriscar, puxar das palavras, ajudá-las a sair e cantar mesmo que seja a mesma canção, mesmo que se lamentem, mesmo que.
E eu que pensava que comunicar era mais fácil,
agora já não sei,
mas se calhar é apenas uma fase.

Texto: Clara Marchana
Fotografia dos autores: José de Almeida e Maria Flores 

sábado, 3 de julho de 2010

Sobre solidão


Sinto-me só.
Que difícil é estar só.
E eis que chegam os medos engalfinhados, esfaimados,
que tentam sobreviver,
desarrumando tudo,
deixam tudo de pantanas,
nada resta no seu lugar, nada.
Permaneço imóvel, ao ver tudo isto a girar à minha volta,
à espera que abrande a marcha destes bichos.
Fico quieta sem os perturbar.
Espero que passem.
Nunca os tinha visto passar tão perto de mim,
fugia sempre,
são apenas seres assustados,
que precisam de lanternas, para reencontrar o caminho de regresso a casa.
-Voltem a casa, medos esfaimados,
alimentem-se de canções de embalar até adormecer, e depois
dissolvam-se em partículas de pó de estrelas, transformem-se em luzes bonitas,
e façam-me estar descansada.

Texto: Clara Marchana
Imagem: Encontrada na net sem créditos

sábado, 26 de junho de 2010

Eclipse parcial da Lua


Hoje Lua Cheia, haverá um eclipse parcial da Lua, alguns aconselham a "sentar-se debaixo da luz da Lua e sentir as energias."
Este eclipse é visível no Leste da Ásia, Antárctica, Austrália, América do Norte e do Sul, Oceano Índico e Pacífico.

Fotografia: "Eclipse Moon Rising Over England" de Gain Lee, tirada da net, deste site: www.astronet.ru

sábado, 19 de junho de 2010

Saramago e agora?


Saramago, e agora, quem é que nos vai contar histórias como tu nos sabias contar, com a tua forma que de escrever, de partilhares connosco esse teu mundo, o teu ser, e muito mais que isto mas que não consigo explicar?

Gosto de mergulhar no universo de Saramago, fico sempre com a sensação de querer lá voltar.
Não saberei dizer qual a sua melhor obra, por isso falarei do primeiro livro que li, A Caverna, que foi de alguma maneira especial, como quando visitamos um país pela primeira vez, e que gostamos subitamente de lá estar, sentimo-nos acolhidos. Uma sensação familiar.
Enamorei-me dos personagens de A Caverna, tinha a sensação que estar perto deles, das suas vidas, diálogos, pensamentos, até os nomes me soavam bem: Cipriano Algor, Marçal Gacho, Marta filha de Cipriano Algor, o cão de nome Achado (que foi realmente achado), e Isaura Estudiosa, uma figura engraçada que de alguma maneira traz a este círculo uma história de amor.
Tudo se passa à volta de uma olaria que pertence a esta família que vive numa modesta casa de campo, e uma cidade artificial a que dão o nome de Centro que fica a alguns quilómetros da casa, onde os habitantes vivem "protegidos", vacinados do mundo exterior, ansiosos em criar um comodismo e conforto artificial que sirva de escudo protector ao medo de viver.
Por temerem o vazio desconhecido, procuram a eternidade e pagam para viver numa cidade de muralhas e fachadas aparentes.
Nesta obra são tecidas palavras em frases que nos transportam numa bela viagem, onde acompanhamos os personagens, nas suas decisões, dúvidas, onde cada um, à sua maneira, procura a sua verdade, devolvendo-nos sensações de sorrisos, de proximidade e cumplicidade emocional.
A obra de A Caverna é escrita com uma simplicidade sábia, e não deixa nenhum leitor ficar à porta de entrada.

Agradeço aquilo que recebi ao ler os teus livros, Saramago, e que a tua alma esteja num lindo lugar cheio de paz e de amor.


"O homem mais sábio que conheci não sabia ler nem escrever", disse Saramago ao receber o Prémio Nobel, em 1998, referindo-se ao seu avô analfabeto.

Texto: Clara Marchana
Fotografia: encontrada na net

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Bocadinhos de pensamentos


A procura por vezes leva-nos para lugares que não reconhecemos,
lugares longínquos do nosso ser,
onde não sabemos onde estamos,
nem para onde iremos ser levados,
sem luz, sem bússula,
sem mapas, sem fios condutores.
Espero sinceramente chegar bem,
chegar a bom porto depois desta longa viagem.

Texto: Clara Marchana
Fotografia: Jan Saudek

terça-feira, 8 de junho de 2010

C A S A

Regressemos a Casa,
tratemos dela.
A nossa generosa Terra que nos chama.
Terra, vida,
vida, terra.

Texto: Clara Marchana

segunda-feira, 7 de junho de 2010

À procura do mapa interno


Ela sente um silêncio à sua volta, sem eco.
Senta-se no chão de uma rua sem saída,
e fica à espera.
Pede para que lhe seja revelado o caminho por onde deve seguir e ser guiada.
Sente-se incapaz de tomar uma decisão.
Há já a algum tempo que caminha sem saber para onde vai,
e já não sabe se isso lhe faz bem.
Pede ajuda,
porque tem a sensação que caminha em círculos,
e não entende porque ainda ali se encontra.

Texto: Clara Marchana

domingo, 30 de maio de 2010

a reflectir

" O pensamento pode apontar para a Verdade, mas não é a Verdade. Esta é a razão pela qual os budistas dizem: "O dedo que aponta para a Lua não é a Lua."

Texto (tirado do livro): "Um Novo Mundo" de Eckhart Tolle
Ilustração: Tsukioka Yoshitoshi (Japão,1839-1892)

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Esta insistente ausência


Lisboa,

Após esta longa ausência,
numa exaustiva viagem de regresso a casa,
num percurso que ainda não se deu por terminado,
neste voltar que levará o seu tempo,
onde a raíz sem-abrigo não consegue agarrar facilmente a terra onde outrora nasceu e cresceu,
mas que quer voltar, voltar tocar, voltar a sentir, enraizar.
Leve sussurrar da terra mãe que a chama, que a quer abraçar com a sua força.
A raiz fraca de tanto se ter deixado errar pelo mundo,
estende agora a mão, o braço, o corpo cansado, meio perdido,
e deixa-se entregar, deixa-se cair.
Milagre talvez nesse eterno retorno que nos faz entrar nos ciclos, círculos infinitos de renovação da vida.

Texto: Clara Marchana

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Ainda sobre a ausência


Alguma ausência,
num tempo de regresso à terra onde nasci.
O vento sopra forte e as horas passam devagar.

Texto: Clara Marchana

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Dia da Terra, Earth Day


Dia de Gaia. Mãe Terra.

Uma semente é um bosque inteiro

Uma semente que aparece como planta é como o acto de abrir a boca. É o Verbo a comunicar, a dizer de si ao outro. As plantas são seres verdadeiros, como as pedras e os animais e os astros. São verdadeiros porque não escondem o que são, todo o seu acto existencial é esse mesmo mostrar aquilo que são, o que trazem em si.

"O Canto dos Seres, saudade da natureza" de Pedro Sinde

terça-feira, 20 de abril de 2010

"Saber Conviver"


A proposta de escrever sobre o tema "Saber Conviver" partiu do blog "Crianças Pagãs" de Luciana Onofre. Fica aqui o meu agradecimento.


"Saber Conviver"


é coabitar,
tolerar,
abrir,
é não ter medo,
olhar nos olhos do outro,
persistir no encontro de se encontrar a si próprio,
querer aprender, trocar experiências, escutar, respeitar e reconhecer o valor de cada um, incluindo o de nós mesmos.
É não se deixar render às circunstâncias, que por vezes nos apagam, e apagam os nossos sonhos.
Ter a coragem de falar o que se sente e acreditar que sonho pode ser realidade.
É abraçar e proteger o nosso planeta (a nossa grande casa), todos os animais, plantas, insectos...
É saber mudar, aceitar, transformar, cair, levantar-se, criar, criação, voltar a criar, imaginação.
É uma espécie de correr, crepitar de alegria logo de manhã com um sorriso nos olhos,
agradecer à vida de poder estar aqui.
É a oportunidade de crescer, errar, saber perdoar e ser perdoado.
É procurar, preserverar na busca de amar com a coragem no coração e na alma.
Abrir mão de convicções que talvez num determinado momento, possam já não ser precisas, saber reconhecer e confiar no momento da mudança.
A mudança faz parte da natureza, do universo.
Respeitar e tomar conta do nosso corpo, o nosso templo, a casa que nos dá a possibilidade de experienciar.
Não julgar.
Saber criticar construtivamente.
Parar de pensar na competição e comparação de quem é melhor, quem merece mais, ou quem tem mais ou menos.
Conviver,
é com-viver, com-vida, com a vida,
convidar,
partilhar a vida com o outro.

Platão escreveu: " Se um com a parte melhor dos seus olhos, a que nós chamamos pupila, conseguir ver a melhor parte dos olhos do outro, vêr-se-à a si mesmo." (Alcebíades I, 133 a)

Texto: Clara Marchana

sábado, 17 de abril de 2010

"Untapped"


"...Untapped source of peace,
Women in circles,
Women connecting,
Women together
Bringing the sacred feminine,
Maternal instinct, sister archetype,
Mother power
Into the world."

(Excerto do poema Untapped Source of Peace de Jean Shinoda Bolen)

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Porque fizeste anos mãe


Porque fizeste anos mãe e não te dei um presente,
porque estás longe,
e não te pude abraçar.
Porque sinto que te posso dar sempre mais e às vezes parece que esses momentos me escapam,
deixo-te aqui este poema-presente-fotografia.
Mãe, mulher que tanto admirava quando era pequena e que ainda hoje admiro.
Lembro-me de ficar a olhar para ti, atentamente, enquanto te olhavas ao espelho e decidias que lenço pôr, que roupa vestir, eram tantas as coisas: brincos, colares, casacos, calças e saias, tecidos coloridos, texturas, olhava-te e pensava que tu eras a mãe mais linda do mundo, era mágico tudo aquilo para mim, era como escutar uma história de embalar, onde tantas coisas podiam acontecer, viajava na imaginação, na magia das histórias, era uma liberdade.
Uma vez contaste-me, que quando eu tinha um ano e meio, e te estavas a vestir em frente ao espelho, e como habitual eu assistia ao teu ritual de indumentária, e naquele dia disse-te uma coisa que me disseste que jamais esquecerás, que olhei para ti de "olhos muito arregalados" (expressão que costumas utilizar): "Oh mãe estás mesmo impecável!"
Contaste-me que nesse momento, paraste surpreendida e pensaste: "Mas esta criança tem apenas um ano e meio, onde é que ela foi buscar a palavra impecável!? Onde é que aprendeu ela a falar assim?"
Ao que parece, não era a primeira vez que me expressava desta forma. Comecei a falar e a expressar-me bem muito cedo.
Confessaste-me, muito mais tarde, que às vezes te assustava esta forma que eu tinha de falar e de encontrar certas palavras para me explicar e dizer alguma coisa. "Como é que um corpinho tão pequenito, assim tão pequenina, pode dizer estas frases tão cheias de gente crescida?"
Ainda hoje, quando estás entre amigos, ris às gargalhadas bem altas e bem disposta contas esta e outras histórias. O quanto gostas de estar rodeada de pessoas e rir muito alto, adoras rir.
Lembro-me também, ainda pequena, em casa, calçava os teus sapatos de salto alto (naquela época pareciam-me enormes e altíssimos, do tipo sapato escadote), punha os teus lenços na cabeça, e caminhava pela casa, arrastando-me com os sapatos pelo corredor da casa, inventando as minhas histórias.

Texto: Clara Marchana

sábado, 10 de abril de 2010

Reencontro


Estamos aqui reunidas para crescer e evoluir.
Saber encontrar-se a si própria através do outro.
Eu e tu,
no mesmo espelho.
Bem hajam.

Texto: Clara Marchana
Imagem: "Dancing till Down", de Marianne Miller

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Renascimento


Renascer
1. Nascer de novo.
2. Renovar-se; rejuvenescer.
3. Tornar a aparecer; ressurgir; germinar de novo.
4. Emendar-se; corrigir-se.
5. Teol. Tornar ao estado de graça.


"A crucificação branca", Marc Chagall (1887-1985)
"La crocifissione", fresco de Giotto (1267-1337), Capella degli Scrovegni, Padova

Sobeja aspiração



Este espaço pequeno, aliás minúsculo, não me deixa mover nem sequer um centímetro do meu corpo.
E enquanto não me posso mexer, sonho.
Sonho pequenino aquilo que posso, porque não tenho espaço mesmo dentro do sonho.
E às vezes quando olho para o céu, penso no dia em que voltarei a casa,
e o sol que brilhará muito, abraçar-me-à sobejamente sarando tudo.

Texto: Clara Marchana
Imagem: "As Asas do Desejo" (1987) de Wim Wenders

sábado, 27 de março de 2010

"Poemacto"

(Ao Dia Mundial do Teatro, um poema de Herberto Helder)

O actor acende a boca. Depois os cabelos.
Finge a s suas caras nas poças interiores.
O actor põe e tira a cabeça
de búfalo.
De veado.
De rinoceronte.
Põe flores nos cornos.
Ninguém ama tão desalmadamente
como o actor.
O actor acende os pés e as mãos.
Fala devagar.
Parece que se difunde aos bocados.
Bocado estrela.
Bocado janela para fora.
Outro bocado gruta para dentro.
O actor toma as coisas para deitar fogo
ao pequeno talento humano.
O actor estala como sal queimado.

O que rutila, o que arde destacadamente
na noite, é o actor, com uma voz pura monotonamente batida
pela solidão universal.
O espantoso actor que tira e coloca
e retira
o adjectivo da coisa, a subtileza
da forma,
e precipita a verdade.
De um lado extrai a maçã com sua
divagação de maçã.
Fabrica peixes mergulhados na própria
labareda de peixes.
Porque o actor está como a maçã.
O actor é um peixe.

Sorri assim o actor contra a face de Deus.
Ornamenta Deus com simplicidades silvestres.
O actor subtrai Deus de Deus, e
dá velocidade aos lugares aéreos.
porque o actor é uma astronave que atravessa
a distância de Deus.
Embrulha. Desvela.
O actor diz uma palavra inaudível.
Reduz a humidade e o calor da terra
à confusão dessa palavra.
Recita o livro. Amplifica o livro.
O actor acende o livro.
Levita pelos campos como a dura água do dia.
O actor é tremendo.
Ninguém ama tão rebarbativamente como o actor.
Como a unidade do actor.

O actor é um advérbio que ramificou
de um substantivo.
E o substantivo retorna e gira,
e o actor é um adjectivo.
É um nome que provém ultimamente
do Nome.
Nome que se murmura em si, e agita,
e elouquece.
O actor é um grande Nome cheio de holofotes.
O nome que cega.
Que sangra.
Que é o sangue.
Assim o actor levanta o corpo,
enche o corpo com melodia.
Corpo que treme de melodia.
Ninguém ama tão corporalmente como o actor.
Como o corpo do actor.

Porque o talento é transformação.
O actor transforma a própria acção
da transformação.
Solidifica-se. Gaseifica-se. Complica-se.
O actor cresce no seu acto.
Faz crescer o acto.
O actor actifica-se.
É enorme o actor com a sua ossada de base,
com suas tantas janelas,
as ruas-
o actor com a emotiva publicidade.
Ninguém ama tão publicamente como o actor.
Como o secreto actor.

Em estado de graça. Em compacto
estado de pureza.
O actor ama em acção de estrela.
Acção de mímica.
O actor é um tenebroso recolhimento
de onde brota a pantomima.
O actor vê aparecer a manhã sobre a cama.
Vê a cobra entre as pernas.
O actor vê fulminantemente
como é puro.
Ninguém ama o teatro essencial como o actor.
Como a essência do amor do actor.
O teatro geral.

O actor em estado de graça.

Herberto Helder (Funchal, Ilha da Madeira, 23 Novembro de 1930), in "Poemacto" (Lisboa,1961)



(Excerto do filme Orlando (1992) realizado por Sally Potter, baseado na obra Orlando de Virginia Woolf).

quarta-feira, 24 de março de 2010

sábado, 20 de março de 2010

Sorriso fértil no equinócio


Invadem-me as flores,
que abençoada e tão esperada invasão,
a primavera entra fiel,
o verde em força derrete o gelo frio do branco inverno,
a transformação da terra, a fertilidade faz um sorriso na doce mudança,
e a expressão manifestada acolhe a mãe natureza,
poderosa força a ser escutada com tanto silêncio e abertura.


Texto: Clara Marchana

sexta-feira, 19 de março de 2010

"Tarde com Sol"


As coisas simples dizem-se depressa; tão depressa
que nem conseguimos que as oiçam. As coisas
simples murmuram-se; um murmúrio
tão baixo que não chega aos ouvidos de ninguém.
As coisas simples escorrem pela prateleira
da loja; tão ao de leve que ninguém
as compra. As coisas simples flutuam com
o vento; tão alto, que não se vêm.

São assim as coisas simples: tão simples
como o sol que bate nos teus olhos, para
que os feches, e as coisas simples passem
como sombra sobre as tuas pálpebras.

Poema: Nuno Júdice
Fotografia: Berenika