segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Finibus Terrae

Depois de uma viagem até aos confins das terras italianas do sul, exactamente na província de Salento,
regresso outra vez à cidade de Roma.
Uma das coisas que me despertaram o interesse foi a música e as várias danças denominadas como Tarantella.
As suas origens remontam, em algumas fontes históricas, à antiguidade clássica, aos cultos e mistérios Dionisíacos.
Numa destas danças "La Pizzica", que para além de ser tocada nos momentos de festas familiares ou de comunidade, como qualquer uma das outras danças e músicas da Tarantella, chegou a ser considerada como a única medicina contra a mordedura de tarântula.
Diz-se que nestas terras, há muitos anos atrás, o povo na sua maioria camponês, vivia basicamente da agricultura, durante a época de cultivo da terra, sem motivo aparentemente algum, sucedia a alguns deles sentirem-se mal e desmaiarem. Estas pessoas, nos dias seguintes, encontravam-se num profundo estado de transe contínuo e não apresentavam reacção nenhuma ao exterior, à excepção quando escutavam algumas músicas tradicionais, tocadas por alguns instrumentos específicos, em particular com a pandereta.
O curioso nisto tudo, é que eram mulheres a quem acontecia este tipo de situações, o que se chegou a concluir que a mordedura de tarântula seria apenas simbólica, no sentido de restituir uma explicação à insólita situação e ao estado de transe em que estas mulheres despertavam.
Estas danças tornaram-se também numa medicina do povo, uma espécie de receita caseira para o exorcismo dos camponeses nas terras salentinas, que foi assim que passaram a sub-entender o bizarro acto.
Até chegar aos nossos dias, sofreu algumas transformações, sendo reduzida a um nível mais comercial e turístico. Fazendo-se assim diversos festivais, onde o mais conhecido é o festival, La Notte della Taranta, situado em Melpignano, mas existem muitos mais, espalhados pelas várias regiões do sul de Itália.
A Tarantella é um fenómeno ainda vivo e continua a ir muito mais além destes festivais; a música e as danças continuam a ter um impacto forte em todos aqueles que a escutam, escapando a quem a queira explica-la e reduzi-la a um fenómeno meramente comercial.
A Tarantella não priva ninguém que a queira verdadeiramente sentir e conhecer, dançar ou tocar, basta apenas abrir a porta e entrar.

Texto: Clara Marchana




Filme: "La Pizzicata" (1995), de Edoardo Winspear

sábado, 15 de agosto de 2009

Pequenas melancolias

Sabes, sinto saudades do Outono.
Escorrego sem esforço, sem luta, por uma estrada que não sei para onde me leva.

Texto: Clara Marchana
Fotografia: Hugo Chinaglia

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Dove è il Portogallo?

Situações caricatas sucedem-me neste país, do tipo, vou à esteticista, e ela pergunta-me simpaticamente, então de onde és, não és italiana, eu sorrio e respondo, não, sou de Portugal, sou portuguesa, de Lisboa, e ela responde-me com um sorriso, ah eu logo vi pelo teu sotaque espanhol!
Bom está bem, penso eu, vou responder-lhe que Espanha não é Portugal, mas ela continua feliz o seu discurso, ah adoro a paella, e logo de seguida penso, como posso interrompê-la neste momento e dizer-lhe que está enganada, não posso estragar-lhe todo aquele seu prazer em falar de Espanha e na sua gastronomia, e continua, mas que fazes tu aqui neste país, no meio desta crise, os homens em Espanha são tão bonitos, ah e Barcelona que linda!
Bem, entretanto desisti de tentar explicar-lhe fosse o que fosse, de lhe desfazer aquele prazer, e deixá-la envergonhada e embaraçada, então limitei-me apenas em sorrir e deixei-a continuar a exprimir os seus gostos, dizendo-lhe que sim, é verdade Barcelona é linda, que não era mentira nenhuma.
Não é a primeira vez que encontro aqui pessoas que pensam que Portugal é em Espanha ou que em Portugal se fala espanhol ou há ainda quem me pergunte também, mas já num outro tipo de situações, se Portugal é comunidade europeia?
Surprende-me e fico sem resposta.

Texto: Clara Marchana