sábado, 18 de abril de 2009

Amor cidade arqueológica


Tenho a sensação que o amor que se vive nesta cidade é arqueologia,
e ao mesmo tempo, um pouco amor marginal,
amor proibido, escondido,
amor esquecido, remoto,
que não respira, nem transpira.
Nos olhares que se cruzam, não há brilho,
o ar é profano, deturpado, cínico, enganador,
e para sobreviver é preciso ser esperto, falso, vendedor, prostituto,
a um tal ponto que se esqueceram de ver, de reparar na verdade do outro,
deixaram de se reconhecer entre si.
Aqui tudo se usa, tudo se confunde, tudo se vende, tudo pode servir para se chegar mais alto,
já ninguém é genuíno, ou devem ser poucos, como são poucas as relações genuínas.
Extingue-se a genuinidade, extingue-se a inocência, a espontaneidade,
amor em vias de extinção.
Na grande cidade-museu, na maior cidade arqueológica do mundo,
o amor tornou-se arqueológico,
enterrado,
marginalizado, fora da lei,
escondem-no porque se envergonham de o mostrar,
porque se sentem expostos ao ridículo
pensando que se o mostram, alguém passará por cima deles e se utilizará,
e de facto utilizam-se e passam uns por cima dos outros,
por isso entrou em extinção,
amor que se esforça por sair porque se quer manifestar,
mas não consegue,
amor revolta, amor sôfrego,
já poucos o vêem, já poucos o sentem.
Talvez um dia Roma se tornará a cidade do Amor,
como deveria ser o seu destino,
parece estar escrito no seu nome,
já todos reparámos, quando lemos a palavra Roma da direita para a esquerda,
está o Amor,
ou nada disto fará sentido?
Não poderia ser a cidade de Roma a cidade do Amor?
Que feliz coincidência seria.
Talvez, neste momento, toda esta estrada que se esteja a fazer, seja de grande importância
e seja verdadeiramente a maior estrada que os romanos jamais terão feito,
talvez um dia os opostos girarão,
e renascerá.
Mas por agora tudo aqui é ilusão, fumo,
não existe eco em nenhuma acção,
não existe resposta.
Espera-se.
E nesta enorme lista de espera, infelizmente, o amor também espera, espera pela sua vez, e não deveria.
O amor não deveria esperar, não tem de esperar,
deveria ser sempre convidado, sempre.
O amor, o primeiro a entrar, a sentar, a ser escutado, a ser atendido.

Texto: Clara Marchana

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