sábado, 25 de abril de 2009

Liberdade


Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não fazer!
Ler é maçada.
Estudar é nada.
Sol doira
Sem literatura
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como o tempo não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quanto há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor de tudo são as crianças,

Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

Mais quieto que isto
É Jesus Cristo, 
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...

                                      Fernando Pessoa, in " Cancioneiro"

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Expressão afinada

Este céu crepuscular que promete um futuro sorridente
A poesia pueril afina-se dentro de mim
parece que neste período só sei falar assim
só me sei expressar desta maneira.

Texto: Clara Marchana

sábado, 18 de abril de 2009

Amor cidade arqueológica


Tenho a sensação que o amor que se vive nesta cidade é arqueologia,
e ao mesmo tempo, um pouco amor marginal,
amor proibido, escondido,
amor esquecido, remoto,
que não respira, nem transpira.
Nos olhares que se cruzam, não há brilho,
o ar é profano, deturpado, cínico, enganador,
e para sobreviver é preciso ser esperto, falso, vendedor, prostituto,
a um tal ponto que se esqueceram de ver, de reparar na verdade do outro,
deixaram de se reconhecer entre si.
Aqui tudo se usa, tudo se confunde, tudo se vende, tudo pode servir para se chegar mais alto,
já ninguém é genuíno, ou devem ser poucos, como são poucas as relações genuínas.
Extingue-se a genuinidade, extingue-se a inocência, a espontaneidade,
amor em vias de extinção.
Na grande cidade-museu, na maior cidade arqueológica do mundo,
o amor tornou-se arqueológico,
enterrado,
marginalizado, fora da lei,
escondem-no porque se envergonham de o mostrar,
porque se sentem expostos ao ridículo
pensando que se o mostram, alguém passará por cima deles e se utilizará,
e de facto utilizam-se e passam uns por cima dos outros,
por isso entrou em extinção,
amor que se esforça por sair porque se quer manifestar,
mas não consegue,
amor revolta, amor sôfrego,
já poucos o vêem, já poucos o sentem.
Talvez um dia Roma se tornará a cidade do Amor,
como deveria ser o seu destino,
parece estar escrito no seu nome,
já todos reparámos, quando lemos a palavra Roma da direita para a esquerda,
está o Amor,
ou nada disto fará sentido?
Não poderia ser a cidade de Roma a cidade do Amor?
Que feliz coincidência seria.
Talvez, neste momento, toda esta estrada que se esteja a fazer, seja de grande importância
e seja verdadeiramente a maior estrada que os romanos jamais terão feito,
talvez um dia os opostos girarão,
e renascerá.
Mas por agora tudo aqui é ilusão, fumo,
não existe eco em nenhuma acção,
não existe resposta.
Espera-se.
E nesta enorme lista de espera, infelizmente, o amor também espera, espera pela sua vez, e não deveria.
O amor não deveria esperar, não tem de esperar,
deveria ser sempre convidado, sempre.
O amor, o primeiro a entrar, a sentar, a ser escutado, a ser atendido.

Texto: Clara Marchana

Sempre Tu


Mar que cresces para mim,
cada vez que te encontro pelo sentir.
Não sei como o fazes.
Não te procurei,
e nem sequer decidi ver-te,
porque não o posso fazer.
Mas mesmo assim causas-me este efeito à distância,
convidas-me sem me convidar,
fazes-te sentir,
como se estivesses perto, muito perto.

Texto: Clara Marchana

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Senza parole


Sem palavras.
Que fazer, quando somos acordados pela terra que treme?
A surpresa mistura-se com a incredulidade de que esteja mesmo a acontecer.
Mas quem esperava ser acordado durante a noite por um tremor de terra?
A cama abana, o candeeiro balança, somos acordados pelo susto, pelo inesperado,
o espanta-espíritos que se agita e canta,
a cadela que ladra,
os alarmes dos carros na rua que disparam, que gritam,
saltamos da cama, caminhamos pela casa e sentimos o chão que nos abana,
assustados tentamos manter a calma,
Mas como?
O pânico quer invadir,
será melhor fugir a correr, sair de casa?
Em segundos o teu corpo e mente percorrem emoções limite, de medo, susto, pânico,
por segundos perdemos as referências e só pensamos em salvar-nos, parece que o instinto de sobrevivência entra em estado de alerta e põe-se a funcionar automaticamente.
Quando tudo se acalma, o corpo ainda em estado de choque, continua a tremer pelo inesperado susto.
Levamos algum tempo a acalmar-nos, quase a noite toda acordados, à espera de outro sinal de alerta que nos faça pular da cama, mas desta vez queremos estar preparados, para não nos surpreendermos, mas a impotência não nos deixa enganar que somos pequenos perante tal manifestação e que não nos resta senão estar vigilantes, tranquilizar-nos e esperar que tudo aquilo passe.
Após a noite mal dormida, descobrimos que um terramoto tinha acontecido numa cidade da região de Abruzzo, que fica a 90km de Roma, e que o que se tinha sentido de madrugada, eram as ondas de choque, e que valera para o susto.
Nos dias seguintes foram-se sentindo alguns tremores de terra mais ligeiros,
mas na memória do nosso corpo, teria ficado gravado o medo e o susto daquela potente sensação do inesperado daquela noite, e cada vez que se sentia a ligeira sensação ou impressão do chão estar a tremer, o candeeiro a oscilar, a mesa a abanar, disparavam em mim sinais de alerta impressionantes, que nem os exercícios das aulas de yoga me faziam acalmar.
Tinha sido uma experiência jamais vivida até aquela noite.
Para a cidade de Roma, aquilo que se tinha sentido não tinha sido nada, em comparação com o que viveu o povo da região de Abruzzo tinha vivido. Deixo aqui as minhas condolências, acendo a minha vela desejando que a sua luz chegue àquela terra, a todos aqueles que precisam dela, no visível e no invisível. Amén.

Texto: Clara Marchana

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Por serem tantas as palavras


Passaram-se alguns dias sem que eu tivesse a coragem para escrever.
Faltaram-me as palavras,
no meio de tantos assuntos, de tantos acontecimentos, de tantas histórias, tantas frases,
e no meio de tanta coisa, faltaram-me exactamente, as palavras,
não as encontrava,
eram tantas,
que não me deixavam espaço para escrever.

Texto: Clara Marchana