quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Nos bolsos das calças


Partem-se os vidros da ilusão, espalham-se em cacos
e descobrimos mais tarde por uma coincidência do acaso ou por uma tomada de consciência espontânea que o que nos estava magoar,
eram aqueles pequeninos cacos de vidro coloridos que tinham ido parar aos bolsos das calças. Como lá foram parar, é que não sei.

Texto: Clara Marchana

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Hope


E quando tudo parece sem saída,
é preciso manter firme a esperança.
Porquê ter medo? Porque não nos deixamos ajudar?
Porque não ajudamos?
Porque não nos damos ao outro?
Porque não partilhamos e mostramos o nosso lado menos bom?
Porque é que não acolhemos o lado menos bom do outro?
Porque não damos o nosso melhor?
Porque deixámos de acreditar em milagres?
Porque deixámos de acreditar e de praticar o simples acto de acreditar?
Porque não nos aproximamos de nós mesmos?
Porque não nos aproximamos do outro?
Existem dias onde só fazemos perguntas.
Talvez existam também, dias onde só recebemos respostas.

Texto: Clara Marchana
Obra: Evelyn de Morgan "Hope in a Prison of Despair"

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

"SEE WHAT THE WORLD IS SAYING"


"Change Me, an open conversation we initiated to bring people together to share ideas through powerful imagery.  
As part of this campaign, thousands of people from around the world selected photographs from Getty Images that inspired them and had the ability to touch the people who viewed them."
"A forum in which people use powerful images to share their thoughts on how to make the world a better place. Getty Images is lauching an online community to further those efforts as well as raise awareness on the state of the world by leveraging the power of imagery. MWO photographer, Greg Lutze, part of Wonderful Union (formerly Asterik Studio) worked with the Getty Images team to produce this innovative website."
(http://changeme.gettyimages.com/)

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

A próxima paragem


Saiu na primeira paragem que o autocarro fez, não queria continuar aquela viagem com aquele pavor, o condutor conduzia a uma velocidade inacreditável. E assim que o autocarro parou ela saiu o mais depressa possível, queria pôr-se a salvo daquela aventura que mais parecia estar a andar na montanha russa da feira popular.
Tinha saído numa praça de uma pequena aldeia desconhecida. Ela cobre o rosto com um véu azul transparente e tem um chapéu de palha na cabeça,
olha as pessoas que estão ao seu redor e apercebe-se de que algumas a observam com curiosidade, talvez pela forma como se encontra vestida, talvez por não ser dali, ou talvez por outra coisa qualquer.
Sozinha na paragem do autocarro da aldeia, já não sabia como tinha ali chegado.
Andaria ela a fugir de alguma coisa?
Já não era importante saber, o que era importante era continuar aquela viagem ao encontro do seu destino que ainda não sabia bem qual era.
E assim que apareceu um outro autocarro, meteu-se dentro dele, sem saber a sua destinação, sem saber nada.
Depois ficou a pensar, já sentada no banco, se sairia uma vez mais na próxima paragem, pois também não gostou da forma como o condutor conduzia, demasiado rápido para o seu gosto.
Não queria fazer uma viagem inteira assustada, com aquela sensação inquieta de comichão nervosa em divagações e análises sobre controlos velocidade e medo. E arrepender-se depois dizendo para si mesma que deveria ter saído, e que uma vez mais se deveria ter escutado.

Texto: Clara Marchana

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Um sorriso triste

"Ver o Mundo num Grão de Areia
E numa Flor Silvestre um Céu,
Conter o Infinito na palma da mão
E a Eternidade numa hora."

William Blake (1757-1827), Augúrios de Inocência

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Ibid., Idem ou Op. Cit.



Pode ser só uma sensação, mas parece que me repito,
nos meus textos,
as mesmas palavras,
os mesmos pensamentos,
as mesmas canções,
é como ler um livro e permanecer na mesma página durante dias e dias,
preciso de renovação.
(Agora que a voz já me quer falar e que a ouço manifestar)

Texto: Clara Marchana

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Torneira aberta


Era manhã.
Ela levantou-se para ir à casa de banho,
passou o corredor e abriu a porta.
Quando entrou reparou que a única coisa que existia era a banheira.
Esfregou os olhos e olhou melhor e eis que começou a sentir água nos pés, nos tornozelos, e que lhe chegava afinal até aos joelhos,
a sua casa de banho estava inundada, a banheira transbordava de água,
estava completamente submersa,
olhou à sua volta para tentar compreender o que se estava a passar,
se calhar ainda estava a dormir e tudo aquilo fazia parte do seu sonho,
se calhar era isso, um sonho, mas não, era real, bem real,
a sua casa de banho estava a ficar completamente inundada,
sentia-se a Alice do País das Maravilhas, no momento em que come o bolinho e aumenta de tamanho e que assustada, começa a chorar tanto que as suas lágrimas a fazem encolher ao ponto de chegar a nadar no rio das suas próprias lágrimas, o que depois na verdade lhe valeu o bastante, para conseguir entrar onde queria, onde a sua curiosidade a chamava, numa minúscula porta que dava para o Jardim da Rainha de Copas.
Voltou rapidamente à realidade, e reparou que tinha a torneira do chuveiro aberta, a torneira tinha estado toda a noite aberta, mas ela tinha quase a certeza que a tinha fechado na noite anterior.
Fechou-a rapidamente.
A janela também estava aberta e no momento em que a ia fechar, um pombo aproximara-se para entrar, mas tudo aquilo já estava demasiado estranho para ela poder entender e fechou também a janela rapidamente.
Voltou para o quarto um pouco irritada, cheia de pensamentos e sensações.
Estava bem acordada agora, e já não conseguia dormir mais, tinha de chamar o canalizador o mais depressa possível.

Texto: Clara Marchana

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Emoção em segredo



Vem água, chuva, mar, rio,
venham em forma de sussurros despercebidos ao luar.
Subam até à varanda do quarto andar, que está cheia de plantas, flores, regadores,
e deixem-me sentir,
deixem-me curar o que não sei tratar.

Texto: Clara Marchana
Fotografia: Rex Ray

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Amena esperança


Um vento ameno que sopra forte de vez em quando.
Sonhamos que vamos conseguir, e isso dá-nos uma vontade muito ligeira de sorrir para dentro.
Já olho para o exterior com outros olhos.
Sei que a estrada é por aqui,
e que não poderia ser melhor o sítio,
na casa das estradas, na mãe de todas.

Texto: Clara Marchana