quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Aquela casinha


Memórias, recordações, saudades de viver no campo.
Há um ano que ela apanhou o comboio e mudou-se para a cidade, uma cidade longínqua do país onde nasceu e cresceu,
cidade onde os espaços verdes são belos jardins e ruínas muito importantes para a história do mundo mas não lhe traz aquela pulsação de vida que sentia quando acordava na sua bela casinha, quase no meio do campo,
aquela sensação que se tem, quando se acompanha o crescimento de uma flor a crescer e florir, e depois sentir-mo-nos gratos por se poder partilhar aquela sensação ou aquele momento com outra pessoa.
Os dias correm pelo quotidiano.
Pensamentos em forma de pergunta vagueiam sozinhos e abandonados por não serem alimentados pela atenção.
Existem aqueles pensamentos que não saem da cabeça, pois são desejos à espera de serem realizados, acções que ficam à espera de pular a cerca no momento justo.
E qual o momento justo perguntam-lhe os seus pensamentos?
Ela não lhes sabe responder.

Clara Marchana

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Sophia

As Amoras

O meu país sabe às amoras bravas 
no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez 
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.
      
   Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004)

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Percepções

                                                   Gustav Klimt (1862-1918)


A vida é um enigma precioso
Um milagre que passa despercebido aos nossos olhos.

"Como se pode invocar a alma? Há muitas formas: pela meditação, pelos ritmos da corrida, do som do tambor, do canto, do acto de escrever, da pintura, da composição musical, pelas visões de grande beleza, da oração, da contemplação, dos ritos e rituais, de ficar parada e até mesmo idéias e disposições de ânimo arrebatadoras. Todas elas são convocações psíquicas que chamam a alma da sua morada até à superfície.
Eu, porém, recomendo aqueles métodos que não exigem nenhum acessório, nenhuma localização especial e aos quais possamos recorrer com a mesma facilidade num minuto ou num dia. Isso quer dizer que devemos usar a nossa mente para convocar o self da alma. Todas as pessoas têm pelo menos um estado mental que conhecem no qual realizam esse tipo de solidão. Para mim a solidão é como uma floresta portátil que levo dobrada comigo para onde vou e que abro à minha volta quando necessário. Sento-me, então, aos pés das árvores velhas e enormes da minha infância. Desse ponto priviligiado, faço as minhas perguntas, recebo as minhas respostas e depois reduzo novamente o meu bosque ao tamanho de uma carta de amor para a próxima vez. Na realidade só precisamos de uma coisa para obter solidão voluntária: a capacidade de eliminar distracções (...) Não é difícil conseguir, só é difícil lembrar-se de tentar (...) também é bom praticar a solidão num ambiente de mil pessoas.
Após alguma prática, o efeito cumulativo de solidão voluntária começa a agir como um sistema respiratório vital, um ritmo natural (...). Com o tempo, descobriremos a fazer as nossas próprias questões à alma. Às vezes, podemos ter apenas uma pergunta. Outras vezes, pode ser que não tenhamos nehuma e que só queiramos descansar na rocha, perto da alma, e respirar com ela."

ESTÉS, Clarisse Pinkola, Mullheres que correm com os lobos, Mitos e Histórias do Arquétipo da Mulher Selvagem, editora Rocco, Lisboa 2004

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Appia Antica



Ontem conheci a Via Appia Antica, uma das principias estradas militares e a mais conhecida na Roma Antiga.
O seu nome deriva do político romano Appio Claudio Cieco que iniciou a sua construção em 312 a.C.
Começou por ser uma estrada de 300km, que se estendia de Roma a Cápua, e posteriormente quando foi ampliada e estendida até Brindisi (zona que se situa no calcanhar da península Itálica), que era o porto mais importante para a Grécia e para o Oriente. 
Os Romanos chamavam-na Regina Viarum que significa a Rainda das Estradas.


sábado, 24 de janeiro de 2009

Chuvosos dias


Dia chuvoso em Roma.
Uma chuva ligeira e serena de um Sábado pacato.
Um dia bom para reflexões e conversas filosóficas.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Eu quero


Eu quero sentir o cheiro da maresia,
Eu quero sentir os salpicos da água salgada enquanto escuto o mar a bater nas rochas num dia de chuva ligeira e de temperatura amena,
Eu quero caminhar por um caminho feito de pétalas de flor e bagos de arroz,
Quero vestir-me com vestidos brancos, vestidos azuis, vestidos verdes, vestidos vermelhos,
Quero caminhar descalça na areia de uma praia,
Quero sentir o cheiro a terra molhada no meio de um bosque,
Eu quero ver as montanhas,
Eu quero sentir-me livre,
Eu quero ver os outros sentirem-se livres,
Eu quero comer ameixas em cima do telhado do vizinho,
Quero sentar-me debaixo de uma árvore,
Quero escrever,
Quero ler o que outros escrevem,
Quero ser mais eu,
Quero rir rir rir,
Eu quero andar à chuva,
Eu quero plantar flores e plantas e árvores,
Quero fazer um jardim,
Eu quero sonhar
Quero fazer os outros sonhar,
Quero sentir-me livre,
Quero plantar e cultivar alimentos e sonhos,
Quero pintar,
Quero a liberdade,
Quero ver o pôr do sol,
Eu quero assistir ao nascer do sol,
Quero correr com os lobos,
Quero ser autêntica,
Quero partilhar,
Quero oferecer alegria,
Quero caminhar pelos campos,
Quero cantar cantar cantar,
Quero dançar dançar dançar,
Eu quero passear e visitar igrejas, monumentos, ruínas antigas, castelos, vilas e aldeias antigas,
Eu quero escutar os contadores de histórias,
Eu quero acreditar em milagres,
Eu quero fazer bolos e compotas,
Eu quero ver o mar,
Eu quero sentir o Amor,
Eu quero abraçar,
Quero deitar-me no chão do meu quintal numa noite de Verão e ver o céu, a lua e as estrelas,
Quero ouvir a coruja à noite enquanto adormeço,
Quero escutar o canto dos pássaros pela manhã,
Quero ir tomar o café ao café e ouvir os outros conversarem, enquanto eu também converso com alguém,
Quero escutar escutar escutar,
Quero sentir um abraço sincero, uma palavra verdadeira, um olhar carinhoso, um gesto afectuoso e depois voltar a oferecer tudo de volta,
Quero correr com os meus cães,
Quero alegria nos corações,
Quero que todos possam ser felizes,
Esta lista, é uma estrada imensa, infinita e interminável, e ainda bem que o é.
Ainda existem tantas coisas que nos podem inspirar.

Clara Marchana

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Warum Warum



" E ao sétimo dia, enquanto Descansava, sentindo que os seres humanos se aborreciam deu-lhes o teatro."
Este é um dos pontos de partida do espectáculo Warum Warum ("Porquê Porquê") do encenador Peter Brook, que aconteceu ontem há noite no Teatro Palladium, em Roma.
Um monólogo para uma actriz, Miriam Goldschmidt, que trabalha com o encenador desde 1971, e um músico (Francesco Agnello).
Um espectáculo que começa com a pergunta directa ao público o porquê da vida, de existir, o porquê do teatro e que sem que nos apercebamos, somos transportados ao princípio das coisas, às perguntas curiosas, às perguntas inocentes que fazemos quando se é criança, tocar na simplicidade com uma simplicidade para se conseguir chegar ao essencial.
Um teatro que se põe em causa, e que nos coloca a questão do que é o teatro, e o que é a vida.
Caminharão estas duas questões juntas, de mãos dadas?
Uma lição de teatro. Uma lição de vida.

Texto: Clara marchana
Fortografia: Espectáculo Warum Warum, encenação de Peter Brook

sábado, 17 de janeiro de 2009

Waltz with Bashir (Valsa com Bashir)



A não perder.
Quase obrigatório, ver este filme do realizador israelita Ari Folman, que denuncia a guerra injusta e incompreensível.
"Um grito de dor contra todas as guerras".
Um filme autobiográfico, onde o realizador conta a sua parábola, a história de um soldado que escuta música, sonha e dispara.
E nada melhor do que contar a dor da guerra, misturando-a com um bálsamo de poesia através de imagens oníricas e mitológicas.
O testemunho de um conflito armado, que entra dentro do espectador, deixando-o comovido e desarmado perante uma verdade dura, crua e violenta, vestida por um doce sabor que nos embriaga e nos questiona.
Um soldado que num desespero pungente e delirante, numa cidade morta e destruída pela guerra, ao sentir-se perdido e sem saber o que fazer, desata a disparar para o vazio, enquanto dança uma valsa.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Um pouco


É que não ouso revelar aquilo que sinto.
Escondo.
Looping de experiências e sensações.
Talvez aos poucos vá mostrando o que não sou capaz de mostrar, talvez aos poucos aprenda a escrever o que quero dizer ao outro.

Texto: Clara Marchana

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Um Poema


Ser Luz

Queria ser luz para poder sentir
a tua alma sôfrega bebê-la...
Queria ser luz para poder dormir
vibrando e ardendo como aquela estrela...

Se eu fosse luz iria descobrir
mais oceano ainda a cada vela;
como os olhos das águias a fulgir
seguiria nas noites de procela...

Ser luz para doirar toda a miséria,
talhar em jóias as pedras dos caminhos,
florir as almas, acordar os ninhos...

Quando beijo a chorar a noite etérea
do teu olhar, amor, a minha cruz
é esta sede imensa de ser luz!

                  António Patrício (1878-1930)
                             Poesia Completa

domingo, 11 de janeiro de 2009

O direito à vida


De vez em quando, permaneço alguns dias sem encontrar as palavras justas ou talvez injustas, se posso assim dizer, para escrever. Existem determinados assuntos que prefiro não tocar, pelo menos por enquanto, porque talvez ainda não me sinta preparada para discuti-los ou expôr o que tanto se discute e se fala neste momento. Mas eles batem à porta e permanecem ali dias e dias, a persistirem, para que os deixe entrar.
Não posso ficar indiferente a tudo isso, não posso ficar indiferente ao que se passa neste momento na Faixa de Gaza e talvez possa também apelar para que ninguém fique indiferente ao que está a acontecer nas terras palestinianas.
Onde estão os direitos humanos básicos aplicados pelo Governo de Israel?
Esta guerra é cruel, indiscriminada, trágica, criminosa, violenta, martirizante, agoniante, injusta, indigna, humilhante, impiedosa, repressiva, chocante, brutal, vergonhosa, exterminadora, desastrosa, é um genocídio e um atentado a seres humanos inocentes, vítimas de uma situação que chegou a um ponto incompreensível, a um limite, sem saída, e que lentamente lhes roubam o direito à vida.
A palavra é importante, façamo-nos ouvir, manifestemo-nos, para que as nossas vozes cheguem onde têm de chegar e àqueles que as precisam de escutar.

Texto: Clara Marchana

sábado, 10 de janeiro de 2009

Demasiado New Age?


Enquanto conduzia o carro pela cidade, ela sentia que qualquer coisa estava a mudar.
Mas seria ela ou o mundo?
Iluminava-se lentamente qualquer coisa, qualquer coisa que espreitava, que tinha a ver com o que estava no obscuro e que iria agora chegar à tona da luz.
Enquanto conduzia, observava as pessoas a conduzirem nos seus carros, as ruas, os ritmos, os movimentos, e a única frase que lhe vinha à cabeça, em voz baixa, era que o mundo recomeçava a iluminar-se.
A luz iria chegar, primeiro que tudo à sombra mais profunda, ao fundo mais difícil de alcançar.
Quase como que às escondidas, sem se deixar ver, discretamente. A maré de luz começava a subir, a encher.
A limpeza tinha iniciado.
-Mas que disparate, será verdade isto que sinto?! Não faz sentido. O que vejo e oiço à minha volta é exactamente o contrário. Não pode ser ou será que isto pode mesmo acontecer?- perguntava-se a si mesma.

Texto: Clara Marchana

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Urgentemente


" É urgente o amor.
  É urgente um barco no mar.

  É urgente destruir certas palavras,
  ódio, solidão e crueldade,
  alguns lamentos,
  muitas espadas.

  É urgente inventar alegria,
  multiplicar os beijos, as searas,
  é urgente descobrir rosas e rios
  e manhãs claras.

  Cai o silêncio nos ombros e a luz
  impura, até doer.
  É urgente o amor, é urgente
  permanecer."

                                      Eugénio de Andrade (1923-2005)

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Alice


Existem dias em que não percebemos a direcção para onde a vida nos leva.
Vagueamos cegos, tacteando paredes de realidades pintadas e repintadas, de projecções, sonhos e ilusões, vagueamos pelas salas da vida, no escuro, a tentar discernir o que é real e o que não é.
Existem momentos assim, que parece que não chegamos mais ao fim daquele túnel escuro.
Parece que estamos em pleno vôo, dentro de um avião, que atravessa uma zona de turbulência, onde esperamos que aquele momento passe o mais rapidamente possível, que termine e aterremos em segurança e zona segura.
Os músculos contraem-se, os pensamentos reflectem-se e desenrolam em grande velocidade, pensamos muito, pensamos tanto que os pensamentos voltam a ser nada, depois misturam-se as emoções com os medos, e a partir de um determinado momento parece que já nem medo temos, já não existe o medo, entregamo-nos ao destino sem fazer nada, e quando aterramos apreendemos que tudo é muito mais profundo do que uma vontade pessoal ou pensamento.
Aprendemos então a esperar.
Mas no momento da espera, vêm visitar-nos a fragilidade e o receio, que contribuem para uma nova segregação de pensamentos, chega novamente a dúvida e instala-se na poltrona à nossa frente,
queremos encontrar rapidamente um sentido ou uma explicação para o inexplicável mistério da vida, que nos faça restabelecer uma ordem, que nos dê referências e um sentido.
Queremos ter a certeza de que a bússola está ajustada na direcção certa.
A resposta não chega logo.
E não nos resta senão a coragem de ir para a frente, de ir mais longe.

Texto: Clara Marchana

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Um momento de silêncio



Paris, 6 de Janeiro

Dia de Reis
(dias abundantemente atarefados para mim)
dia de sol
faz muito frio
a natureza vestiu-se de noiva para iniciar o novo ano.

Fotografia: Clara Marchana
Texto: Clara Marchana

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

O alívio de um desabafo

Paris, 1 de Janeiro

De volta.
Depois de dias festivos, totalmente preenchidos, encontros familiares, fusões culturais, gastronomias partilhadas com conversas à mesa sorridentes, banais, confessionais, desabafos disfarçados, risos partilhados, choros às escondidas, palavras silenciosas, e sentimentos de que não querer magoar o outro.

Texto: Clara Marchana