quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Sem título

De regresso a casa,
alguma melancolia, talvez pela quadra em que nos encontramos.
O pensamento faz o seu percurso...percorre imagens e memórias.

Texto: Clara Marchana

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Feliz Natalis invicti Solis

Feliz nascimento, renascimento.



Fotografia: "Renascer", óleo sobre tela, de Enandil (Eduardo Fernandes Gil Gouveia-1951), pintor, designer, ilustrador, cenógrafo português.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

"Falta"


"E eu quero brincar às escondidas contigo e dar-te as minhas roupas e dizer que gosto dos teus sapatos e sentar-me nos degraus enquanto tu tomas banho e massajar o teu pescoço e beijar-te os pés e segurar na tua mão e ir comer uma refeição e não me importar se tu comes a minha comida e encontrar-me contigo no Rudy e falar sobre o dia e passar à máquina as tuas cartas e carregar as tuas caixas e rir da tua paranóia e dar-te cassetes que tu não ouves e ver filmes óptimos, ver filmes horríveis e queixar-me da rádio e tirar-te fotografias a dormir e levantar-me para te ir buscar o café e brioches e folhados e ir ao Florent beber café à meia-noite e tu a roubares-me os cigarros e a nunca conseguir achar sequer um fósforo e falar-te sobre o programa de televisão que vi na noite anterior e levar-te ao oftalmologista e não rir das tuas piadas e querer-te de manhã mas deixar-te dormir um bocado e beijar-te as costas e tocar na tua pele e dizer quanto gosto do teu cabelo dos teus olhos dos teus lábios do teu pescoço dos teus peitos do teu rabo do teu
e sentar-me nos degraus a fumar até o teu vizinho chegar a casa e se sentar nos degraus a fumar até tu chegares a casa e preocupar-me quando estás atrasada e ficar surpreendido quando chegas cedo e dar-te girassóis e ir à tua festa e dançar até ficar todo negro e pedir desculpa quando estou errado e ficar feliz quando me desculpas e olhar para as tuas fotografias e desejar-te ter-te conhecido desde sempre e ouvir a tua voz no meu ouvido e sentir a tua pele na minha pele e ficar assustado quando estás zangada e um dos teus olhos vermelho e o outro azul e o teu cabelo para a esquerda e o teu rosto para oriente e dizer-te que és lindíssima e abraçar-te quando estás ansiosa e amparar-te quando estás magoada e querer-te quando te cheiro e ofender-te quando te toco e choramingar quando estou ao pé de ti e choramingar quando não estou e babar-me para o teu peito e cobrir-te à noite e ficar frio quando me tiras o cobertor e quente quando não o fazes e derreter-me quando sorris e desintegrar-me quando te ris e não compreender por que é que pensas que te estou a deixar quando eu não te estou a deixar e pensar como é que alguma vez te podia deixar e pensar em quem tu és mas aceitar-te na mesma e contar-te sobre o rapaz da floresta encantada de árvores anjo que voou por cima do oceano porque te amava e escrever-te poemas e pensar por que é que tu não acreditas em mim e ter um sentimento tão profundo que para ele não existem palavras e querer comprar-te um gatinho do qual teria ciúmes porque teria mais atenção que eu e atrasar-te na cama quando tens de ir e chorar como um bébé quando finalmente vais e ver-me livre das baratas e comprar-te prendas que tu não queres e levá-las de volta outra vez e pedir-te em casamento e tu dizeres não outra vez mas eu continuar a pedir-te porque embora tu penses que eu não estou a falar a sério eu estou mesmo a falar a sério desde a primeira vez que te pedi e vaguear pela cidade pensando que ela está vazia sem ti e querer aquilo que queres e achar que me estou a perder mas saber que estou seguro contigo e contar-te o pior que há em mim e tentar dar-te o meu melhor porque não mereces menos e responder às tuas perguntas quando deveria não o fazer e dizer-te a verdade quando na verdade não o quero e tentar ser honesto porque sei que preferes assim e pensar que acabou tudo mas ficar agarrado apenas mais dez minutos antes de me atirares para fora da tua vida e esquecer-me de quem sou e tentar chegar mais perto de ti porque é maravilhoso aprender a conhecer-te e vale bem o esforço e falar mau alemão contigo e pior ainda em hebreu e fazer amor contigo às três da manhã e de alguma maneira de alguma maneira de alguma maneira transmitir algum do /esmagador, imortal, irresistível, incondicional, abrangente, preenchedor, desafiante, contínuo e infindável amor que tenho por ti."

in Crave (Falta) de Sarah Kane (1971-1999)

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Persistir numa utopia que se tornará real de tanto acreditar

Dias que passam devagar...
Que esperamos? Quem esperamos? Godot és tu?
"...When I am laid,
I am laid in earth
May my wrongs create no trouble, no trouble in thy breast...
Remember me,
Remember me but ah... forget my fate..."*
O Godot não vem, não aparece, mas ela continua acreditar, a persistir no escuro, no silêncio, talvez numa idéia, numa utopia, mas que é a sua esperança, a sua verdade.
E alguém aparecerá, não o Godot, mas um outro alguém que virá ao seu encontro trazendo uma mensagem, uma resposta.

Texto: Clara Marchana

*Dido and Aeneas, ópera de Henry Purcell (1659-1695)- "Dido's Lament"

sábado, 28 de novembro de 2009

"What's Hecuba to him?"

"What's Hecuba to him, or he to Hecuba,
That he should weep for her? What would he do
Had he the motive and the cue for passion
That I have? He would drown the stage with tears,
And cleave the general ear with horrid speech,
Make mad the guilty and appal the free,
Confound the ignorant, and amaze indeed
The very faculties of eyes and ears."

William Shakespeare, Hamlet, Act II. Scene 2.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Fritz Lang


Assisti a um ciclo de filmes de Fritz Lang (1890-1976), realizador austríaco que foi também argumentista e produtor, e sem dúvida um artista visionário.
Aconselho vivamente uma visita pelas suas obras, para quem ainda não conhece, ou uma simples revisitação. Como disse François Truffaut "este homem não é só um artista genial, mas também o mais isolado e incompreendido dos cineastas contemporâneos".

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Saudade

"A saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença.
Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: Quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira, é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida."

Clarice Lispector (1920-1977)

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Coisas fáceis

"Coisas fáceis,
fazer um agrado,
coisas fáceis,
abrir um sorriso,
coisas fáceis,
estender os braços,
coisas fáceis,
agir com juízo,
coisas fáceis,
mostrar o caminho,
coisas fáceis,
dizer a verdade,
coisas fáceis,
cuidar com carinho, coisas fáceis, viver com vontade,
são coisas pra se fazer, sem esperar recompensa,
coisas pra se querer,
coisas tão simples e tão difíceis de esquecer.
Um abraço, um sorriso, um aceno, coisas fáceis, gestos tão pequenos, coisas fáceis."

Coisas Fáceis, Jair de Oliveira

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Feliz Aniversário ou Tanti Auguri


Celebrar a vida,
entre sonhos, saudades, vontades, pensamentos, emoções, reflexões, memórias, alegrias, partilhas e agradecimentos.

Texto: Clara Marchana

terça-feira, 10 de novembro de 2009

"Catch the joy as it flies"


Pinturas: Betty LaDuke (www.bettyladuke.com)


" - O que andas a fazer com um caderno, escreves o quê?/ -Nem sei pai. Escrevo conforme vou sonhando./ - E alguém vai ler isso?/ - Talvez./ - É bom assim: ensinar alguém a sonhar."

"Então, as letras, uma por uma, se vão convertendo em grãos de areia e, aos poucos, todos os meus escritos se vão transformando em páginas de terra."

Mia Couto "Terra Sonâmbula"

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Partiu sozinha


Ela deixou a casa onde tinha estado até àquele momento e partiu.
Depôs as flores na terra em oferta, em agradecimento, aos lugares por onde tinha sido conduzida e até onde tinha conseguido chegar.
Iniciou viagem.
Não sabia bem para onde andar, por onde começar, mas fez um primeiro passo.
Naquela manhã as coisas tinham outras côres, como se tivesse acordado sem véu, pois via tudo de forma diferente.
Tinha sido ferida por uma espada na noite anterior, que a tinha atingido muito mais fundo do que das outras vezes, e ficara com uma cicatriz.
-Existem cicatrizes bonitas!-pensou.
Tinha acordado de um sono profundo, onde os sonhos a tinham levado para zonas escuras e fechadas à chave para que ninguém lá pudesse entrar, zonas que pensava ela, serem perigosas, mas que afinal eram apenas como os quartos de uma enorme casa, quartos que precisam que as portas e as janelas sejam abertas de vez em quando, para fazer circular o ar.
Foi empurrada a prosseguir por um vento que soprou forte, o mesmo vento que transporta as folhas das árvores, e foi forçada a direccionar nova rota para outro lugar, e assim partiu.
Desta vez partia sozinha.

Texto: Clara Marchana

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Permanecer nas coisas simples


Deixa-me ser.
Deixa-me permanecer nas coisas simples.
Ter um bocadinho de espaço para que possa florir, ser eu, sem invadir, nem chatear ninguém.

Texto: Clara Marchana

"Sim, sei bem
Que nunca serei alguém.
Sei de sobra
Que nunca terei uma obra.
Sei, enfim,
Que nunca saberei de mim.
Sim, mas agora,
Enquanto dura esta hora,
Este luar, estes ramos,
Esta paz em que estamos,
Deixem-me crer
O que nunca poderei ser.

Fernando Pessoa, poeta e escritor português, (Lisboa, 13 Junho 1888- Lisboa, 30 Novembro 1935), "Sim, sei bem"

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

"Como um burro em frente a um palácio"



Às vezes os dias deixam-na presa às emoções.
E ela não consegue abrir a boca num tempo prolongado, por manifestações incompreendidas,
num corpo que fala, que se exprime, que dá impulsos, saltos, mas sem legendagem.
Fica atónita perante tal acontecimento, incapaz de fazer seja o que seja, sem saber porque sucede.
Deixa-se andar e observa de máscara neutra tal incompreensão, tal surpresa, boquiaberta perante o que não conhece.

Texto: Clara Marchana

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Emergir



Dia que amanhece, tristeza que acompanha,
melancolia do passado,
revoltas no presente mastigadas lentamente.
Olhares no vazio, que se cruzam quando passeio pela cidade,
uma cidade esgotada e seca.
E eu não gosto quando não me respondes.
Quantos mal entendidos conseguimos criar, tanta coisa que deixamos a meio, inacabada.
Por isso prefiro não falar. Mas falaria de tudo abertamente, mas por vezes não o faço, espero um momento certo, espero sempre demasiado tempo, espero sempre tanto.
Depois chego a pensar que há coisas que não devem ser ditas, devem permanecer indizíveis e pacientemente maturadas, transformadas, coisas onde somente o tempo poderá falar por si.

Texto: Clara Marchana
Fotografia: Zena Holloway

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Transformações

Iluminura de Hildegard von Bingen (1098-1179) "The tree of life"

Saudades de me sentir,
de escancarar as portas e as janelas da minha casa,
e bocejar enquanto vejo o pôr-do-sol.

Envelhecemos porque nos fechamos e eu quero sentir o cheiro a terra molhada,
rir de mim, rir para o céu, rir por falar sozinha e escutar-me a confessar à terra e às árvores as experiências que ainda não entendi,
porque nos fecham envelhecemos, e eu quero abrir a porta, não quero fechá-la, quero abri-la ainda mais, arrancá-la da sua existência como porta, e fazer dela: mesa, jangada ou lenha para fogueira numa noite de São João.

Texto: Clara Marchana


quarta-feira, 16 de setembro de 2009

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Finibus Terrae

Depois de uma viagem até aos confins das terras italianas do sul, exactamente na província de Salento,
regresso outra vez à cidade de Roma.
Uma das coisas que me despertaram o interesse foi a música e as várias danças denominadas como Tarantella.
As suas origens remontam, em algumas fontes históricas, à antiguidade clássica, aos cultos e mistérios Dionisíacos.
Numa destas danças "La Pizzica", que para além de ser tocada nos momentos de festas familiares ou de comunidade, como qualquer uma das outras danças e músicas da Tarantella, chegou a ser considerada como a única medicina contra a mordedura de tarântula.
Diz-se que nestas terras, há muitos anos atrás, o povo na sua maioria camponês, vivia basicamente da agricultura, durante a época de cultivo da terra, sem motivo aparentemente algum, sucedia a alguns deles sentirem-se mal e desmaiarem. Estas pessoas, nos dias seguintes, encontravam-se num profundo estado de transe contínuo e não apresentavam reacção nenhuma ao exterior, à excepção quando escutavam algumas músicas tradicionais, tocadas por alguns instrumentos específicos, em particular com a pandereta.
O curioso nisto tudo, é que eram mulheres a quem acontecia este tipo de situações, o que se chegou a concluir que a mordedura de tarântula seria apenas simbólica, no sentido de restituir uma explicação à insólita situação e ao estado de transe em que estas mulheres despertavam.
Estas danças tornaram-se também numa medicina do povo, uma espécie de receita caseira para o exorcismo dos camponeses nas terras salentinas, que foi assim que passaram a sub-entender o bizarro acto.
Até chegar aos nossos dias, sofreu algumas transformações, sendo reduzida a um nível mais comercial e turístico. Fazendo-se assim diversos festivais, onde o mais conhecido é o festival, La Notte della Taranta, situado em Melpignano, mas existem muitos mais, espalhados pelas várias regiões do sul de Itália.
A Tarantella é um fenómeno ainda vivo e continua a ir muito mais além destes festivais; a música e as danças continuam a ter um impacto forte em todos aqueles que a escutam, escapando a quem a queira explica-la e reduzi-la a um fenómeno meramente comercial.
A Tarantella não priva ninguém que a queira verdadeiramente sentir e conhecer, dançar ou tocar, basta apenas abrir a porta e entrar.

Texto: Clara Marchana




Filme: "La Pizzicata" (1995), de Edoardo Winspear

sábado, 15 de agosto de 2009

Pequenas melancolias

Sabes, sinto saudades do Outono.
Escorrego sem esforço, sem luta, por uma estrada que não sei para onde me leva.

Texto: Clara Marchana
Fotografia: Hugo Chinaglia

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Dove è il Portogallo?

Situações caricatas sucedem-me neste país, do tipo, vou à esteticista, e ela pergunta-me simpaticamente, então de onde és, não és italiana, eu sorrio e respondo, não, sou de Portugal, sou portuguesa, de Lisboa, e ela responde-me com um sorriso, ah eu logo vi pelo teu sotaque espanhol!
Bom está bem, penso eu, vou responder-lhe que Espanha não é Portugal, mas ela continua feliz o seu discurso, ah adoro a paella, e logo de seguida penso, como posso interrompê-la neste momento e dizer-lhe que está enganada, não posso estragar-lhe todo aquele seu prazer em falar de Espanha e na sua gastronomia, e continua, mas que fazes tu aqui neste país, no meio desta crise, os homens em Espanha são tão bonitos, ah e Barcelona que linda!
Bem, entretanto desisti de tentar explicar-lhe fosse o que fosse, de lhe desfazer aquele prazer, e deixá-la envergonhada e embaraçada, então limitei-me apenas em sorrir e deixei-a continuar a exprimir os seus gostos, dizendo-lhe que sim, é verdade Barcelona é linda, que não era mentira nenhuma.
Não é a primeira vez que encontro aqui pessoas que pensam que Portugal é em Espanha ou que em Portugal se fala espanhol ou há ainda quem me pergunte também, mas já num outro tipo de situações, se Portugal é comunidade europeia?
Surprende-me e fico sem resposta.

Texto: Clara Marchana

sábado, 18 de julho de 2009

Casa acesa pela luz do sol

Ela sonhou que estava dentro de uma casa,
mas que não era a sua, era a dele.
Uma casa por onde o sol entrava em todas as suas frentes.
Janelas e mais janelas semi-fechadas,
mas por onde teimava furar a luz do sol.
Uma luz que violava e acendia aquela casa.
Ela espreitou por uma das janelas semi-abertas, e resolveu sair pela janela lá para fora.
À sua volta, uma imensidão de terra, côr castanho fértil, com um enorme terreno lavrado de jovens vinhas,
com troncos que se torciam e pequenos rebentos de folhas verdes a quererem impulsivamente sair,
enquanto ao longe, o azul sereno do mar espreitava.

Texto: Clara Marchana

domingo, 5 de julho de 2009

Samba da Benção



Tinha acabado de acordar, um calor abafadíssimo,
um Domingo previsível por uma certa moleza no corpo.
Fui à varanda, de um 4°andar, e oiço uma canção que vinha da rua, de não sei onde.
No Pigneto, bairro popular italiano, que se poderá dizer que é uma espécie de Bairro Alto aqui em Roma, e longe estava de escutar esta melodia.
Mas de onde vinha?
-Sei lá, não faço a mínima idéia, mas sabe bem.
Tinha uma vontade de sair de casa, ir por ali a dançar e a cantar baixinho, perseguindo aquele som até o encontrar.
Que sensação.

Texto: Clara Marchana

"É melhor ser alegre que ser triste
Alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração
Mas pra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza
Senão não se faz um samba não

Fazer um samba não é contar piada
E quem faz samba assim não é de nada
O bom samba é uma forma de oração
Porque o samba é a tristeza que balança
E a tristeza tem sempre uma esperança
De um dia não ser mais triste não

Põe um pouco de amor numa cadência
E vai ver que ninguém no mundo vence
A beleza que tem um samba não
Porque o samba nasceu lá na Bahia
E se hoje ele é branco na poesia
Ele é negro demais no coração."

Vinicius de Moraes

sábado, 4 de julho de 2009

Bugigangas de amor


Hoje estou a precisar de me distrair.
Quer dizer, de ficar sossegada e sussurrar ao teu ouvido tudo aquilo que me apetece dizer, que me vem à cabeça no momento, e todas as bugigangas de amor.
Depois gostava que me afagasses os cabelos e escutasses o meu silêncio, a minha respiração e as coisas que não te digo, aquelas que não te chego a dizer.
Vamos recriar o amor, fazê-lo brilhar como aquela estrela que estou a ver agora no céu ou como aqueles sonhos que não queremos acordar e queremos ficar a dormir mais um bocadinho.
Só mais um bocadinho, dá-me só mais esse bocadinho de ti.

Texto: Clara Marchana
Fotografia: Maria Flores

sábado, 27 de junho de 2009

Mais!


Mais inspiração
Mais idéias
Mais criatividade
Mais imaginação
Mais liberdade
Mais sonho
Mais invenção
Mais renovação
Mais criação
Mais Poesia
Mais!

Texto: Clara Marchana

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Eterno


Lisboa,

Passo as tardes,
passo dias longos em pensamentos e sensações de longa duração.
Passo dias a olhar os momentos dos outros, como se fossem ou como se outrora tivessem sido meus,
uns parecem ter-me pertencido num passado, alguns a um presente, existem ainda outros que a nada pertencem,
e a esses ofereço apenas o meus ouvidos, os meus olhos como testemunha, como espelho de reflexão.
Às vezes apenas olho e nada vejo,
olho e espero o momento que se aproxima, em ondas que vêm e vão.

Texto: Clara Marchana
Fotografia: Zena Holloway

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Quinze minutos


Lisboa, 13 de Maio

Regresso às origens.
Sabor a vento, sabor quente, doce sabor a memórias felizes,
Pensamentos leves,
com poucas sombras que correm atrás.
Abraços que estavam à espera de serem consumados, à espera do seu momento, dos seus quinze minutos de fama.

Texto: Clara Marchana
Fotografia: Zena Holloway

sábado, 9 de maio de 2009

Maria e Manel


"-Vamos embora Manel que são horas de ir embora, vá que eu canto-te uma canção pelo caminho. - diz a Maria para o Manel"

Texto: Clara Marchana
Fotografia: Robert Capa

Retorno


A ressonância das suas raízes fazem-na pôr-se a caminho em direcção à terra onde nasceu.

Texto: Clara Marchana

sábado, 25 de abril de 2009

Liberdade


Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não fazer!
Ler é maçada.
Estudar é nada.
Sol doira
Sem literatura
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como o tempo não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quanto há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor de tudo são as crianças,

Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

Mais quieto que isto
É Jesus Cristo, 
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...

                                      Fernando Pessoa, in " Cancioneiro"

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Expressão afinada

Este céu crepuscular que promete um futuro sorridente
A poesia pueril afina-se dentro de mim
parece que neste período só sei falar assim
só me sei expressar desta maneira.

Texto: Clara Marchana

sábado, 18 de abril de 2009

Amor cidade arqueológica


Tenho a sensação que o amor que se vive nesta cidade é arqueologia,
e ao mesmo tempo, um pouco amor marginal,
amor proibido, escondido,
amor esquecido, remoto,
que não respira, nem transpira.
Nos olhares que se cruzam, não há brilho,
o ar é profano, deturpado, cínico, enganador,
e para sobreviver é preciso ser esperto, falso, vendedor, prostituto,
a um tal ponto que se esqueceram de ver, de reparar na verdade do outro,
deixaram de se reconhecer entre si.
Aqui tudo se usa, tudo se confunde, tudo se vende, tudo pode servir para se chegar mais alto,
já ninguém é genuíno, ou devem ser poucos, como são poucas as relações genuínas.
Extingue-se a genuinidade, extingue-se a inocência, a espontaneidade,
amor em vias de extinção.
Na grande cidade-museu, na maior cidade arqueológica do mundo,
o amor tornou-se arqueológico,
enterrado,
marginalizado, fora da lei,
escondem-no porque se envergonham de o mostrar,
porque se sentem expostos ao ridículo
pensando que se o mostram, alguém passará por cima deles e se utilizará,
e de facto utilizam-se e passam uns por cima dos outros,
por isso entrou em extinção,
amor que se esforça por sair porque se quer manifestar,
mas não consegue,
amor revolta, amor sôfrego,
já poucos o vêem, já poucos o sentem.
Talvez um dia Roma se tornará a cidade do Amor,
como deveria ser o seu destino,
parece estar escrito no seu nome,
já todos reparámos, quando lemos a palavra Roma da direita para a esquerda,
está o Amor,
ou nada disto fará sentido?
Não poderia ser a cidade de Roma a cidade do Amor?
Que feliz coincidência seria.
Talvez, neste momento, toda esta estrada que se esteja a fazer, seja de grande importância
e seja verdadeiramente a maior estrada que os romanos jamais terão feito,
talvez um dia os opostos girarão,
e renascerá.
Mas por agora tudo aqui é ilusão, fumo,
não existe eco em nenhuma acção,
não existe resposta.
Espera-se.
E nesta enorme lista de espera, infelizmente, o amor também espera, espera pela sua vez, e não deveria.
O amor não deveria esperar, não tem de esperar,
deveria ser sempre convidado, sempre.
O amor, o primeiro a entrar, a sentar, a ser escutado, a ser atendido.

Texto: Clara Marchana

Sempre Tu


Mar que cresces para mim,
cada vez que te encontro pelo sentir.
Não sei como o fazes.
Não te procurei,
e nem sequer decidi ver-te,
porque não o posso fazer.
Mas mesmo assim causas-me este efeito à distância,
convidas-me sem me convidar,
fazes-te sentir,
como se estivesses perto, muito perto.

Texto: Clara Marchana

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Senza parole


Sem palavras.
Que fazer, quando somos acordados pela terra que treme?
A surpresa mistura-se com a incredulidade de que esteja mesmo a acontecer.
Mas quem esperava ser acordado durante a noite por um tremor de terra?
A cama abana, o candeeiro balança, somos acordados pelo susto, pelo inesperado,
o espanta-espíritos que se agita e canta,
a cadela que ladra,
os alarmes dos carros na rua que disparam, que gritam,
saltamos da cama, caminhamos pela casa e sentimos o chão que nos abana,
assustados tentamos manter a calma,
Mas como?
O pânico quer invadir,
será melhor fugir a correr, sair de casa?
Em segundos o teu corpo e mente percorrem emoções limite, de medo, susto, pânico,
por segundos perdemos as referências e só pensamos em salvar-nos, parece que o instinto de sobrevivência entra em estado de alerta e põe-se a funcionar automaticamente.
Quando tudo se acalma, o corpo ainda em estado de choque, continua a tremer pelo inesperado susto.
Levamos algum tempo a acalmar-nos, quase a noite toda acordados, à espera de outro sinal de alerta que nos faça pular da cama, mas desta vez queremos estar preparados, para não nos surpreendermos, mas a impotência não nos deixa enganar que somos pequenos perante tal manifestação e que não nos resta senão estar vigilantes, tranquilizar-nos e esperar que tudo aquilo passe.
Após a noite mal dormida, descobrimos que um terramoto tinha acontecido numa cidade da região de Abruzzo, que fica a 90km de Roma, e que o que se tinha sentido de madrugada, eram as ondas de choque, e que valera para o susto.
Nos dias seguintes foram-se sentindo alguns tremores de terra mais ligeiros,
mas na memória do nosso corpo, teria ficado gravado o medo e o susto daquela potente sensação do inesperado daquela noite, e cada vez que se sentia a ligeira sensação ou impressão do chão estar a tremer, o candeeiro a oscilar, a mesa a abanar, disparavam em mim sinais de alerta impressionantes, que nem os exercícios das aulas de yoga me faziam acalmar.
Tinha sido uma experiência jamais vivida até aquela noite.
Para a cidade de Roma, aquilo que se tinha sentido não tinha sido nada, em comparação com o que viveu o povo da região de Abruzzo tinha vivido. Deixo aqui as minhas condolências, acendo a minha vela desejando que a sua luz chegue àquela terra, a todos aqueles que precisam dela, no visível e no invisível. Amén.

Texto: Clara Marchana

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Por serem tantas as palavras


Passaram-se alguns dias sem que eu tivesse a coragem para escrever.
Faltaram-me as palavras,
no meio de tantos assuntos, de tantos acontecimentos, de tantas histórias, tantas frases,
e no meio de tanta coisa, faltaram-me exactamente, as palavras,
não as encontrava,
eram tantas,
que não me deixavam espaço para escrever.

Texto: Clara Marchana

terça-feira, 31 de março de 2009

sexta-feira, 27 de março de 2009

Dia Mundial do Teatro


Help!

Theatre, come into my rescue!
I am asleep. Wake me

I am lost in the dark, guide me, at least towards a candle
I am lazy, shame me
I am tired, raise me up
I am indifferent, strike me
I remain indifferent, beat me up
I am afraid, encourage me
I am ignorant, teach me
I am monstrous, make me human
I am pretentious, make me die of laughter
I am cynical, take me down a peg
I am foolish, transform me
I am wicked, punish me.
I am dominating and cruel, fight against me
I am pedantic, make fun of me
I am mute, untie my tongue
I no longer dream, call me a coward or afool
I have forgotten, throw Memory in my face
I feel old and stale, make the Child in me leap up
I am heavy, give me Music
I am sad, bring me Joy
I am deaf, make Pain shriek like a storm
I am agitated, let Wisdom rise within me
I am weak, kindle Friendship
I am blind, summon all the Lights
I am dominated by Ugliness, bring in conquering Beauty
I have been recruited by Hatred, unleash all forces of Love.
                                  
                   Ariane Mnouchkine's World Theatre Day Message 2005

Ariane Mnouchkine (1939, Boulogne-sur-Seine) encenadora, realizadora e fundadora do Théâtre du Soleil em Paris, em 1964.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Entre o impulso e a espera


Luta de resistências.
Entre o impulso da acção e o saber esperar.
Entre a necessidade e a crítica e o questionar essa mesma necessidade.
Que luta desnecessária, penso eu,
mas ao mesmo tempo, parece-me que se esta luta existe, se está aqui, bem presente, a fazer-se sentir, terá de ser por alguma razão.
Mas que coisa tão pessoal e, ao mesmo tempo, tão interna, tão minha.
Que importância terá? Se quando olho o exterior parece-me apenas uma tempestade num copo de água,
ou uma coisa pequenina, como um miar de uma gato acabado de nascer.
Sinto coisas tão fortes e tão antagónicas entre si.
Como se faz a sua fusão?
Não deve ser possível.
E se não é possível, poderá estar-se assim, neste jogo de forças, por quanto tempo?
Chegará um momento em que se dissolverão uma na outra, atingindo a perfeita fusão?

Texto: Clara Marchana

sábado, 21 de março de 2009

Dia e noite com a mesma duração



O Equinócio, início da Primavera, foi ontem dia 20 às 11h44m. A palavra é de origem latina e significa "noite igual ao dia" o que quer dizer que nesta data o dia e a noite têm a mesma duração.
"Equinócio: instante em que o Sol, no seu movimento anual corta o equador celeste."

domingo, 15 de março de 2009

Raízes


Ela caminha com as suas raízes de fora, arrasta-se, sem ter ainda encontrado a terra justa para plantar o seu ser.
E que sensação essa, a de caminhar assim, exposta às fragilidades, às falibilidades próprias e inerentes ao ser humano, ao cansaço. Medrosa.
Sobrevive às intempéries com uma coragem que não sabia que existia, com uma fé que lhe aquece, todos os dias e inexplicavelmente o coração e a alma.

Texto: Clara Marchana

quinta-feira, 12 de março de 2009

Warum? Porquê? Perchè? Pourquoi? Why?

Esta fotografia encontra-se hoje na primeira página do jornal português Público online.
Foi na Alemanha, a inesperada tragédia, o segundo país a seguir aos Estados Unidos que mais casos tem deste tipo de violência.
Também me questiono.
Não entendo o tempo em que vivemos, uma "sociedade" que continua e que quer continuar a criar disfunções.
O que é que será preciso mais acontecer?

Paz nos corações.

Texto: Clara Marchana
Fotografia: Fabrizio Bensch

terça-feira, 10 de março de 2009

Lágrimas

Sobre as lágrimas
que lavam, que limpam,
que escorrem e desaguam por ruas desconhecidas,
a essas me dirijo com agradecimento.
Lágrimas que protegem, lágrimas criativas, que transformam a frieza e nos fazem despertar.

Texto: Clara Marchana


[...] O escritor irlandês C. S. Lewis, chegou a escrever sobre um frasco de lágrimas de criança que curava qualquer ferimento com apenas uma gota. [...]

ESTÉS, Clarissa Pinkola, Mulheres que correm com os lobos, Mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem, editora Rocco, Lisboa, 2004

domingo, 8 de março de 2009

Dia Internacional da Mulher e Natália Correia






A defesa do poeta

Senhores jurados sou um poeta 
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto

Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim

Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes

Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei

Senhores professores que pusestes
a prémio minha rara edição
de raptar-me em criança que salvo
do incêndio da vossa lição

Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis

Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos
umas estrofes mais além

Senhores três quatro cinco e Sete
que medo vos pôs por ordem?
que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem?

Senhores juízes que não molhais
a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa

Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever
ó subalimentados do sonho!
a poesia é para se comer.
                                  
                    Natália Correia, poetisa (1923-1993)

quinta-feira, 5 de março de 2009

Toccare il cielo con le mani

Às vezes tocamos o céu com os dedos das nossas mãos.
Mexo nas nuvens, faço desenhos, pego numa estrela e mudo-a de lugar, e finalmente toco na lua e no sol, sempre quis saber como era, desde criança.
Que sensação essa, quando te aproximas da harmonia.
Tudo se reconcilia e ganha sentido.

Texto: Clara Marchana

terça-feira, 3 de março de 2009

Escutar, ouvir, sentir


Reentremos dentro de nós 
para nos escutar melhor.

"Transformarmo-nos para podermos gradualmente transformar o mundo de um modo mais eficiente e deste modo criarmos uma sociedade mais compassiva e harmoniosa."
                                                             Sua Santidade o Dalai Lama

(Para quem queira conhecer, sentir ou tenha simplesmente a curiosidade de ler e ouvir, podem visitar: www.dalailama.com)

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Nos bolsos das calças


Partem-se os vidros da ilusão, espalham-se em cacos
e descobrimos mais tarde por uma coincidência do acaso ou por uma tomada de consciência espontânea que o que nos estava magoar,
eram aqueles pequeninos cacos de vidro coloridos que tinham ido parar aos bolsos das calças. Como lá foram parar, é que não sei.

Texto: Clara Marchana

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Hope


E quando tudo parece sem saída,
é preciso manter firme a esperança.
Porquê ter medo? Porque não nos deixamos ajudar?
Porque não ajudamos?
Porque não nos damos ao outro?
Porque não partilhamos e mostramos o nosso lado menos bom?
Porque é que não acolhemos o lado menos bom do outro?
Porque não damos o nosso melhor?
Porque deixámos de acreditar em milagres?
Porque deixámos de acreditar e de praticar o simples acto de acreditar?
Porque não nos aproximamos de nós mesmos?
Porque não nos aproximamos do outro?
Existem dias onde só fazemos perguntas.
Talvez existam também, dias onde só recebemos respostas.

Texto: Clara Marchana
Obra: Evelyn de Morgan "Hope in a Prison of Despair"

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

"SEE WHAT THE WORLD IS SAYING"


"Change Me, an open conversation we initiated to bring people together to share ideas through powerful imagery.  
As part of this campaign, thousands of people from around the world selected photographs from Getty Images that inspired them and had the ability to touch the people who viewed them."
"A forum in which people use powerful images to share their thoughts on how to make the world a better place. Getty Images is lauching an online community to further those efforts as well as raise awareness on the state of the world by leveraging the power of imagery. MWO photographer, Greg Lutze, part of Wonderful Union (formerly Asterik Studio) worked with the Getty Images team to produce this innovative website."
(http://changeme.gettyimages.com/)

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

A próxima paragem


Saiu na primeira paragem que o autocarro fez, não queria continuar aquela viagem com aquele pavor, o condutor conduzia a uma velocidade inacreditável. E assim que o autocarro parou ela saiu o mais depressa possível, queria pôr-se a salvo daquela aventura que mais parecia estar a andar na montanha russa da feira popular.
Tinha saído numa praça de uma pequena aldeia desconhecida. Ela cobre o rosto com um véu azul transparente e tem um chapéu de palha na cabeça,
olha as pessoas que estão ao seu redor e apercebe-se de que algumas a observam com curiosidade, talvez pela forma como se encontra vestida, talvez por não ser dali, ou talvez por outra coisa qualquer.
Sozinha na paragem do autocarro da aldeia, já não sabia como tinha ali chegado.
Andaria ela a fugir de alguma coisa?
Já não era importante saber, o que era importante era continuar aquela viagem ao encontro do seu destino que ainda não sabia bem qual era.
E assim que apareceu um outro autocarro, meteu-se dentro dele, sem saber a sua destinação, sem saber nada.
Depois ficou a pensar, já sentada no banco, se sairia uma vez mais na próxima paragem, pois também não gostou da forma como o condutor conduzia, demasiado rápido para o seu gosto.
Não queria fazer uma viagem inteira assustada, com aquela sensação inquieta de comichão nervosa em divagações e análises sobre controlos velocidade e medo. E arrepender-se depois dizendo para si mesma que deveria ter saído, e que uma vez mais se deveria ter escutado.

Texto: Clara Marchana

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Um sorriso triste

"Ver o Mundo num Grão de Areia
E numa Flor Silvestre um Céu,
Conter o Infinito na palma da mão
E a Eternidade numa hora."

William Blake (1757-1827), Augúrios de Inocência

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Ibid., Idem ou Op. Cit.



Pode ser só uma sensação, mas parece que me repito,
nos meus textos,
as mesmas palavras,
os mesmos pensamentos,
as mesmas canções,
é como ler um livro e permanecer na mesma página durante dias e dias,
preciso de renovação.
(Agora que a voz já me quer falar e que a ouço manifestar)

Texto: Clara Marchana

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Torneira aberta


Era manhã.
Ela levantou-se para ir à casa de banho,
passou o corredor e abriu a porta.
Quando entrou reparou que a única coisa que existia era a banheira.
Esfregou os olhos e olhou melhor e eis que começou a sentir água nos pés, nos tornozelos, e que lhe chegava afinal até aos joelhos,
a sua casa de banho estava inundada, a banheira transbordava de água,
estava completamente submersa,
olhou à sua volta para tentar compreender o que se estava a passar,
se calhar ainda estava a dormir e tudo aquilo fazia parte do seu sonho,
se calhar era isso, um sonho, mas não, era real, bem real,
a sua casa de banho estava a ficar completamente inundada,
sentia-se a Alice do País das Maravilhas, no momento em que come o bolinho e aumenta de tamanho e que assustada, começa a chorar tanto que as suas lágrimas a fazem encolher ao ponto de chegar a nadar no rio das suas próprias lágrimas, o que depois na verdade lhe valeu o bastante, para conseguir entrar onde queria, onde a sua curiosidade a chamava, numa minúscula porta que dava para o Jardim da Rainha de Copas.
Voltou rapidamente à realidade, e reparou que tinha a torneira do chuveiro aberta, a torneira tinha estado toda a noite aberta, mas ela tinha quase a certeza que a tinha fechado na noite anterior.
Fechou-a rapidamente.
A janela também estava aberta e no momento em que a ia fechar, um pombo aproximara-se para entrar, mas tudo aquilo já estava demasiado estranho para ela poder entender e fechou também a janela rapidamente.
Voltou para o quarto um pouco irritada, cheia de pensamentos e sensações.
Estava bem acordada agora, e já não conseguia dormir mais, tinha de chamar o canalizador o mais depressa possível.

Texto: Clara Marchana

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Emoção em segredo



Vem água, chuva, mar, rio,
venham em forma de sussurros despercebidos ao luar.
Subam até à varanda do quarto andar, que está cheia de plantas, flores, regadores,
e deixem-me sentir,
deixem-me curar o que não sei tratar.

Texto: Clara Marchana
Fotografia: Rex Ray

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Amena esperança


Um vento ameno que sopra forte de vez em quando.
Sonhamos que vamos conseguir, e isso dá-nos uma vontade muito ligeira de sorrir para dentro.
Já olho para o exterior com outros olhos.
Sei que a estrada é por aqui,
e que não poderia ser melhor o sítio,
na casa das estradas, na mãe de todas.

Texto: Clara Marchana

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Aquela casinha


Memórias, recordações, saudades de viver no campo.
Há um ano que ela apanhou o comboio e mudou-se para a cidade, uma cidade longínqua do país onde nasceu e cresceu,
cidade onde os espaços verdes são belos jardins e ruínas muito importantes para a história do mundo mas não lhe traz aquela pulsação de vida que sentia quando acordava na sua bela casinha, quase no meio do campo,
aquela sensação que se tem, quando se acompanha o crescimento de uma flor a crescer e florir, e depois sentir-mo-nos gratos por se poder partilhar aquela sensação ou aquele momento com outra pessoa.
Os dias correm pelo quotidiano.
Pensamentos em forma de pergunta vagueiam sozinhos e abandonados por não serem alimentados pela atenção.
Existem aqueles pensamentos que não saem da cabeça, pois são desejos à espera de serem realizados, acções que ficam à espera de pular a cerca no momento justo.
E qual o momento justo perguntam-lhe os seus pensamentos?
Ela não lhes sabe responder.

Clara Marchana

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Sophia

As Amoras

O meu país sabe às amoras bravas 
no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez 
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.
      
   Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004)