domingo, 30 de novembro de 2008

Um dia no Zoo


Fotografias de Clara Marchana

Decidimos ir ao Jardim Zoológico situado em Villa Borghese.
Os animais devolvem-nos e resgatam em nós aquilo que tentamos esquecer, o instinto animal, a relação com os cinco sentidos, o quanto nos afastamos por vezes da escuta de nós mesmos.
Na zona dos chimpanzés, quando ali chegámos não havia ninguém, uma enorme janela de vidro a separar-nos, mas que nos permitia ver todo o espaço onde habitavam, um dos chimpanzés estava, encostado àquele vidro e assim que nos sentiu chegar, olhou e observou-nos com serenidade e pouca surpresa. Aproximámo-nos devagar mas ele após pouco tempo depois mostrou-se indiferente ao girar as suas costas para nós. Sentámo-nos então no chão por algum tempo encostados àquele vidro em silêncio, e ele passado algum tempo, olhou e observou-nos mais uma vez, estendemos então um braço para ele, e ele imediatamente estendeu-nos o seu braço também em resposta. Eu girei-me e fiquei de frente ao vidro sentada ainda no chão, ele levantou-se do lugar onde estava, aproximou-se de mim e ficou à minha frente. Ficámos ali assim, à mesma altura, por tanto tempo, ele observou-me as mãos, o rosto, os cabelos e olhava-me nos olhos com ternura e sinceridade, mostrando o seu afecto através de gestos carinhosos. Depois olhou para nós os dois como que se despedindo, pois entretanto apareciam mais pessoas, umas que tiravam fotografias com uma excitação invasiva e ele subitamente irritado virou-lhes as costas e foi-se embora dali.

(Por favor façamos qualquer coisa para mudar este mundo. Comecemos por mudar primeiro o nosso mundo pessoal, o nosso universo.
Façamos qualquer coisa todos os dias que nos faça sentir tocados.)

Texto: Clara Marchana
Fotografia: Clara Marchana


quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Ousar revelar





Hoje não ouso revelar ou então não sei como fazê-lo.
Porque é que por vezes é tão difícil revelarmo-nos ao outro ?

Texto: Clara Marchana

"Precisamos fundamentalmente de nos encontrarmos a nós próprios, de nos fixarmos solidamente em nós próprios, de sentirmos interiormente que quem fala e quem decide somos nós e não os nossos hábitos e condicionalismos, nem o receio de olhar os outros."

Thomas D'Ansembourg

domingo, 23 de novembro de 2008

Nine Finger


O actor belga Benjamin Verdonck numa cena de "Nine Finger", espectáculo criado pela japonesa Fumiyo Ikeda, Benjamin Verdonck e o belga Alain Platel, ontem à noite no Teatro Palladium em Roma, no Roma Europa Festival 2008.
Um espectáculo que fala das crianças soldado em África (Darfur), da guerra que por vezes parece esquecida, mas que não deixa de ser selvagem e cruel.
Uma experiência extrema, selvagem e cruel quase num limite, muito arriscado e desconstruído mas de uma subtileza e poética fortíssimos. O crú e a coragem de se expôr, o nada, o vazio em cena, a violência sincera desarma o espectador e deixa-nos a vacilar entre o que é verdade e ficção.
Grande trabalho!

Texto: Clara Marchana

Eu quero andar à chuva

Será isso o que precisamos? Andar à chuva? Voltar a ser criança? Ou para quem não teve a oportunidade de o ser, sê-lo agora e relembrar tudo aquilo que o tempo o fez esquecer, ser livre.

Texto: Clara Marchana


Everybody's Free (To Wear Sunscreen)” Music Video. 1999 - More amazing videos are a click away

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Magritte


"My painting is visible images which conceal nothing; they evoke mystery and, indeed, when one sees one of my pictures, one asks oneself this simple question "What does that mean?" It does not mean anything, because mystery means nothing either, it is unknowable."

René Magritte (1898-1967)

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Somos felizes


Também escrevo sobre o amor.
Escrevo com prazer de me libertar
O prazer de ser feliz e de procurar a felicidade
Gostava de poder abrir a porta e sair lá para fora a correr para os teus braços
Para todos os braços de quem me ama, de quem ama os outros, de quem sente o Amor
Somos felizes, deveríamos sê-lo
Vamos embora
Saltemos e pulemos essa cerca.

Texto: Clara Marchana

domingo, 16 de novembro de 2008

Tudo o que fica por dizer


Tanta coisa para contar, tanta coisa que às vezes fica por dizer.
Tantas coisas que ficam por contar a certas pessoas, que não chegamos sequer a dizer.
Ficam apenas os silêncios, os pensamentos turvos e perturbadores da dúvida e os mal entendidos que gostaríamos que tivessem sido esclarecidos no momento certo.
Os dias arrastam-se e não encontramos mais a saída ao labirinto.
Dizer ao outro o quanto queremos mostrar e revelar, os sentimentos profundos do nosso ser, que nada é por vezes o que parece ser, mas acabamos mais por parecer uns prisioneiros encarcerados nas quatro paredes dos nossos medos porque não ousamos revelar a ninguém as sombras que temos dentro.
E se tentássemos explicar o que estamos a viver ou a passar num determinado momento, o outro talvez não acreditasse e talvez pensasse que fosse uma desculpa, aligeirando a questão com um sorriso, o que acabaria por nos acanhar e inibir.
Receamos assustar o outro com o desespero e o medo de não podermos vir a ser nunca compreendidos.
Ficaríamos ainda mais sós na nossa ilha, no nosso mundo, que pode até ser maravilhoso, mas não conseguimos que ninguém lá entre ou que caiba mais alguém.
Assustamos o outro e assustamo-nos a nós próprios ao nos vermos espelhados nele.

Texto: Clara Marchana