sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

The vision of "Ashes and Snow"






" In exploring the shared language and poetic sensibilities of all animals, I am working towards redescovering the common ground that once existed when people lived in harmony with animals. The images depict a world that is without begining or end, here or there, past or present."

" What matters is not what is written on the page, what matters is what is written in the heart."
" Reread my letters with eyes closed. Let the words and the images wash over your body like waves."

Gregory Colbert, creator of "Ashes and Snow"

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

O cavalo e o touro


No sonho existia um cavalo que corria numa praia.
Separado por um muro e uma rede, do outro lado da praia existia um touro, que tentava agredir o cavalo.
O touro era estimulado por um grande grupo de pessoas que corriam e gritavam atrás dele e o incitavam a atacar o cavalo.
O cavalo percorria de um lado ao outro a rede, assustado e inquieto por toda aquela situação, enquanto o touro, provocado por todas aquelas pessoas sedentas de violência e de uma odiosa excitação no rosto. O touro perseguia o cavalo ao mesmo tempo que se esbarrava contra o muro e a rede.
Enquanto observava toda aquela cena, olhei para o touro e pensei: "- Aquele touro afinal não quer atacar o cavalo, está simplesmente a ser provocado e estimulado por todas aquelas pessoas. Ele nem sequer quer ali estar, quer que o deixem em paz, aquela é a sua força natural e aquelas pessoas utilizam-no e aproveitam-se disso para o seu próprio prazer luxurioso de um divertimento vazio.
Num determinado momento, o cavalo assustado tenta tocar, com o focinho, num sino que estava suspenso na rede, e o touro de tantas vezes que esbarrou contra o muro, acaba por deitar a rede abaixo, enquanto que o muro e a rede acabam por cair em cima do cavalo, juntamente com o touro, e todas as pessoas que corriam atrás deste, que se divertiam inconscientes do mal que faziam aos pobres animais e a si mesmos, aquelas pessoas cheias de um prazer egoísta, ignorantes e bulímicas de uma violência embriagada e sôfrega. Acabam por se destruir a si mesmas ao terem caído na própria armadilha que criaram, levando com elas tudo o que existia de bom naquela praia.
Eram inconscientes por opção.
Chorei ao ver aquela cena, estava a observar tudo aquilo sem poder fazer nada, sem poder tomar partido, sem poder agir. Fiquei triste, muito triste.
Agora uma profunda sede de liberdade chama por mim, uma profunda firmeza, um profundo sentido, um profundo desejo e vontade de deitar abaixo os muros que nos separam e mascaram o nosso devir, ao mesmo tempo que um querer lutar se mistura com a tristeza de que na realidade, continuo a ver e a assistir, sem nada poder fazer, ao que se passa no nosso pobre, rico mundo.
Só espero que tudo isto seja parte de um caminho passageiro que temos de atravessar para chegar a bom porto.
Boa noite.

Texto: Clara Marchana

domingo, 14 de dezembro de 2008

O Bosque


No silêncio iluminado pelo fogo da alma ela cumpre a sua promessa
Escuta
Aprende que tudo virá no tempo certo
No caminho justo
Ela já sabe
que a escuridão também é importante na sábia estrada que a guia.

Texto: Clara Marchana

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Roma città sommersa

Emergenza


Manhã chuvosa
As ruas estão submersas de água
Chove continuamente há dias
As notícias dos jornais já falam do perigo da subida do nível da água do rio Tevere, está tudo em alerta e os barcos de borracha já se encontram "atracados" em plena estrada da cidade de Roma, prontos para qualquer eventual emergência.

Texto: Clara Marchana

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Il Paradiso


No último verso da Divina Comédia, obra do poeta de Florença, Dante Alighieri escreveu:
"L' amore che move el sole e l'altre stelle." (O Amor que move o Sol e as outras estrelas)
                   
  Il Paradiso, Canto 33.145, Divina Commedia di Dante Alighieri (1265-1321)

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Existência de um significado nas coisas


Ela chorou o dia todo, não sabia como dizer as coisas para ser entendida,
Um certo cansaço, uma certa confusão tomavam agora conta dela
Fechou-se na casa de banho e rendeu-se ao choro,
Olhou pela janela lá para fora mas não sabia o que fazer, o que pensar, os olhos encharcados em lágrimas lavavam-lhe o rosto, caiam-lhe para as mãos apoiadas nas pernas e escorregavam até aos pés. Parecia que tomava banho nas suas próprias lágrimas.
Como encontrar aquilo que procurava, como se encontrar, o que fazer na vida que lhe pulsava e que sentia intensamente, se a maior parte das coisas que estavam à sua volta não lhe mostravam um sentido? Não encontrava referências, nem identificação.
Apenas sabia ou sentia, pressentia um significado para tudo aquilo mas talvez ainda não fosse o tempo certo para lhe ser revelado.
Era guiada no escuro, de olhos vendados, por um caminho que a iniciava, mas sem certeza de nada, sem saber onde desaguava.
Mas tinha fé, muita fé.
Tinha fé na existência de um significado das coisas.

Texto: Clara Marchana

domingo, 30 de novembro de 2008

Um dia no Zoo


Fotografias de Clara Marchana

Decidimos ir ao Jardim Zoológico situado em Villa Borghese.
Os animais devolvem-nos e resgatam em nós aquilo que tentamos esquecer, o instinto animal, a relação com os cinco sentidos, o quanto nos afastamos por vezes da escuta de nós mesmos.
Na zona dos chimpanzés, quando ali chegámos não havia ninguém, uma enorme janela de vidro a separar-nos, mas que nos permitia ver todo o espaço onde habitavam, um dos chimpanzés estava, encostado àquele vidro e assim que nos sentiu chegar, olhou e observou-nos com serenidade e pouca surpresa. Aproximámo-nos devagar mas ele após pouco tempo depois mostrou-se indiferente ao girar as suas costas para nós. Sentámo-nos então no chão por algum tempo encostados àquele vidro em silêncio, e ele passado algum tempo, olhou e observou-nos mais uma vez, estendemos então um braço para ele, e ele imediatamente estendeu-nos o seu braço também em resposta. Eu girei-me e fiquei de frente ao vidro sentada ainda no chão, ele levantou-se do lugar onde estava, aproximou-se de mim e ficou à minha frente. Ficámos ali assim, à mesma altura, por tanto tempo, ele observou-me as mãos, o rosto, os cabelos e olhava-me nos olhos com ternura e sinceridade, mostrando o seu afecto através de gestos carinhosos. Depois olhou para nós os dois como que se despedindo, pois entretanto apareciam mais pessoas, umas que tiravam fotografias com uma excitação invasiva e ele subitamente irritado virou-lhes as costas e foi-se embora dali.

(Por favor façamos qualquer coisa para mudar este mundo. Comecemos por mudar primeiro o nosso mundo pessoal, o nosso universo.
Façamos qualquer coisa todos os dias que nos faça sentir tocados.)

Texto: Clara Marchana
Fotografia: Clara Marchana


quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Ousar revelar





Hoje não ouso revelar ou então não sei como fazê-lo.
Porque é que por vezes é tão difícil revelarmo-nos ao outro ?

Texto: Clara Marchana

"Precisamos fundamentalmente de nos encontrarmos a nós próprios, de nos fixarmos solidamente em nós próprios, de sentirmos interiormente que quem fala e quem decide somos nós e não os nossos hábitos e condicionalismos, nem o receio de olhar os outros."

Thomas D'Ansembourg

domingo, 23 de novembro de 2008

Nine Finger


O actor belga Benjamin Verdonck numa cena de "Nine Finger", espectáculo criado pela japonesa Fumiyo Ikeda, Benjamin Verdonck e o belga Alain Platel, ontem à noite no Teatro Palladium em Roma, no Roma Europa Festival 2008.
Um espectáculo que fala das crianças soldado em África (Darfur), da guerra que por vezes parece esquecida, mas que não deixa de ser selvagem e cruel.
Uma experiência extrema, selvagem e cruel quase num limite, muito arriscado e desconstruído mas de uma subtileza e poética fortíssimos. O crú e a coragem de se expôr, o nada, o vazio em cena, a violência sincera desarma o espectador e deixa-nos a vacilar entre o que é verdade e ficção.
Grande trabalho!

Texto: Clara Marchana

Eu quero andar à chuva

Será isso o que precisamos? Andar à chuva? Voltar a ser criança? Ou para quem não teve a oportunidade de o ser, sê-lo agora e relembrar tudo aquilo que o tempo o fez esquecer, ser livre.

Texto: Clara Marchana


Everybody's Free (To Wear Sunscreen)” Music Video. 1999 - More amazing videos are a click away

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Magritte


"My painting is visible images which conceal nothing; they evoke mystery and, indeed, when one sees one of my pictures, one asks oneself this simple question "What does that mean?" It does not mean anything, because mystery means nothing either, it is unknowable."

René Magritte (1898-1967)

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Somos felizes


Também escrevo sobre o amor.
Escrevo com prazer de me libertar
O prazer de ser feliz e de procurar a felicidade
Gostava de poder abrir a porta e sair lá para fora a correr para os teus braços
Para todos os braços de quem me ama, de quem ama os outros, de quem sente o Amor
Somos felizes, deveríamos sê-lo
Vamos embora
Saltemos e pulemos essa cerca.

Texto: Clara Marchana

domingo, 16 de novembro de 2008

Tudo o que fica por dizer


Tanta coisa para contar, tanta coisa que às vezes fica por dizer.
Tantas coisas que ficam por contar a certas pessoas, que não chegamos sequer a dizer.
Ficam apenas os silêncios, os pensamentos turvos e perturbadores da dúvida e os mal entendidos que gostaríamos que tivessem sido esclarecidos no momento certo.
Os dias arrastam-se e não encontramos mais a saída ao labirinto.
Dizer ao outro o quanto queremos mostrar e revelar, os sentimentos profundos do nosso ser, que nada é por vezes o que parece ser, mas acabamos mais por parecer uns prisioneiros encarcerados nas quatro paredes dos nossos medos porque não ousamos revelar a ninguém as sombras que temos dentro.
E se tentássemos explicar o que estamos a viver ou a passar num determinado momento, o outro talvez não acreditasse e talvez pensasse que fosse uma desculpa, aligeirando a questão com um sorriso, o que acabaria por nos acanhar e inibir.
Receamos assustar o outro com o desespero e o medo de não podermos vir a ser nunca compreendidos.
Ficaríamos ainda mais sós na nossa ilha, no nosso mundo, que pode até ser maravilhoso, mas não conseguimos que ninguém lá entre ou que caiba mais alguém.
Assustamos o outro e assustamo-nos a nós próprios ao nos vermos espelhados nele.

Texto: Clara Marchana

domingo, 28 de setembro de 2008

Estou cansado

                                                                 Fotografia de Cesar Augusto

Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto -
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo...
E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente; eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.
 
                                                                   Álvaro de Campos

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Navegar é preciso


Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:
"Navegar é preciso; viver não é preciso".
Quero para mim o espírito [d]esta frase,
transformada a forma para a casar como eu sou:
Viver não é necessário; o que é necessário é criar.
Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.
Só quero torná-la grande,
ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a minha alma a lenha desse fogo.
Só quero torná-la de toda a humanidade;
ainda que para isso tenha de a perder como minha.
Cada vez mais assim penso.
Cada vez mais ponho da essência anímica do meu sangue
o propósito impessoal de engradecer a pátria e contribuir
para a evolução da humanidade.
É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça. 
                                                                         
                                                                          Fernando Pessoa

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

A Arquelogia do Amor II




O Amor anda por aí.
Escondido.
Parece que passa despercebido.
Mas revela-se aos poucos aos olhos e corações mais atentos.


Fotografia: Clara Marchana "Pigneto"
Texto: Clara Marchana

terça-feira, 16 de setembro de 2008

A Arquelogia do Amor I


Vamos lá procurar o Amor nesta cidade.
Vamos lá desenterrá-lo.
Vamos descobri-lo.
Onde é que ele se encontra escondido?
Vamos procurar o Amor.

Texto: Clara Marchana

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

O teatro de Pina



"Se faço teatro ou dança? É uma questão que nunca coloco a mim própria. Procuro falar da vida, das pessoas, de nós, das coisas que mexem connosco... E há coisas dentro de uma certa tradição da dança que já não se podem dizer: a realidade nem sempre pode ser dançada, não seria eficaz, não seria crível. (...) Tenho um respeito enorme pela dança e talvez por isso não a utilize muito. Procuro simplesmente uma forma para exprimir o que sinto e pode acontecer que esta forma não tenha nada a ver com a dança. Penso que dentro das pessoas com quem trabalho existe muita dança, até quando não se mexem."

(in O teatro de Pina Bausch, de Leonetta Bentivoglio, Acarte, 1994, Lisboa)

domingo, 14 de setembro de 2008

sábado, 13 de setembro de 2008

Exercício da esperança


Exercito os músculos da crença
Tento acreditar nesta cidade mas parece-me uma cidade abandonada pela senhora esperança e pela senhora fertilidade.



Texto: Clara Marchana

Esconderijo

Hoje escondi-me porque estava triste
Deixo-me guiar
Tento acreditar



Texto: Clara Marchana

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Città degli angeli caduti




Roma a cidade que se metamorfoseia aos meus olhos,

Roma a cidade quimera dos anjos caídos,
Roma a cidade que foi puta mas que agora se converteu,
Roma que se altera, transforma e representa como um actor o personagem lhe mandam executar,
Roma a "cidade poesia" camuflada de miséria,
Roma a cidade disfarçada, que cobre com um manto negro a sua fragilidade com medo que a possam ver.

Texto: Clara Marchana
Fotografia: As Asas do Desejo (1987), filme de Wim Wenders